Neste tempo de pandemia os programas culturais de outrora, como ir ao teatro, ao cinema, à ópera, aos museus, à Gulbenkian e a outros espetáculos, deram lugar às visitas sucessivas à cozinha, para comer e para o fazer!

As exposições do Van Gogh e do Tim Burton, as peças “A Ratoeira” e “O Cabaret” foram trocadas pelos programas de culinária onde impera a criatividade, havendo também lugar para uma viagem ao passado – ao livro de receitas da mãe, às lembranças dos cozinhados da avó, ou de uma tia-avó. Sem elas para me ajudarem, restam-me as memórias!

Mergulho, então, nas profundezas das recordações dos belos tempos vividos à mesa com toda a família, ou à volta da fogueira nas noites de Natal a fazer os fritos: os belhoses, os coscorões, as rabanadas e as chalaças! Recordo os lanches das enormes tardes primaveris (comparadas com as de inverno) com pastéis de bacalhau, crepes acompanhados com doce de tomate ou doce de abóbora com noz (feitos com a “prata da casa”), isto para não falar do outono, quando se comiam os figos secos com amêndoas e nozes – tudo apanhado das árvores do quintal e seco nas típicas solarengas tardes ribatejanas. Como eu recordo os patês de azeitona (colhidas no olival adjacente ao quintal, do qual brotava o azeite virgem, de bela qualidade e ótimo sabor) barrando o pão caseiro feito aos sábados de manhã no forno de lenha – tradição que já vinha da bisavó! E ainda no S. Martinho as castanhas assadas nas brasas do lume onde se cozinhava a sopa do jantar!

Não quer dizer que consiga reproduzir literalmente os maravilhosos pratos das mulheres da minha família mas, com a mesma certeza que ficam bem diferentes, acerrimamente deposito toda a minha dedicação e carinho na sua preparação, pois as memórias são uma herança e a gastronomia um património cultural!

Se herdei da minha mãe este prazer de dar continuidade aos pratos de família, mais ainda herdei a vontade de cultivar e selecionar ervas aromáticas, que tão bem temperam os saborosos pratos ribatejanos: os orégãos para os caracóis, as pimenteiras para as azeitonas, os coentros para temperar o peixe, a salsa para a carne e para as sopas, as folhas de alho e a hortelã para as favas… já para não falar dos chás – ui, uma lista infindável… tão grande como os metros quadrados onde se cultivam! Os cominhos, o rosmaninho, o poejo, a carqueja, (…) e até as perpétuas roxas, tudo se semeia ou seleciona, seca e usa no património gastronómico do Ribatejo, onde a mesa é o melhor lugar para conviver, conhecer pessoas e fazer negócios.

Em tempo de pandemia a cozinha foi o melhor lugar que encontrei para aprender, crescer e reviver saudosos tempos de criança, em que punha a mesa, brincava e deliciava-me com as estórias dos adultos!… mas nessa altura o contacto com o lume era um pelouro não adquirido.

Agora que os museus reabriram e os espetáculos on-line são mais que muitos, há que aproveitar as ofertas, sem descurar dos dotes culinários que descobri, numa conquista introspetiva e saudosista da família unida e junta presencialmente!… Não obstante, estivemos sempre todos juntos, no coração uns dos outros!

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Texto de Maria Manuel
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