Numa sociedade aberta, diversa e plural devemos ouvir todas as vozes mesmo sabendo que, tal como nos avisa Ricardo Quaresma, as vozes de burro não chegam ao céu. A luta contra o racismo deve ter um rosto e agora foi a vez de se ouvir bem alto o cigano português que brilhou numa selecção multicultural e campeã europeia de futebol no Euro 2016. O deputado e comentador desportivo Ventura lida mal com a liberdade de expressão dos outros e por isso foi de trivela num monumental chega para lá protagonizado pelo extremo nacional. Como sempre o deputado vitimizou-se, fez-se à falta e ainda pediu cartão vermelho para Quaresma mas todos sabemos como funcionam as regras da democracia e apesar do assunto ser popularucho o deputado ficou-se pelo salto para a piscina.

O populismo assenta na proposta de soluções simples para problemas sensíveis nos quais a maioria da população se debruça, mas que são de resolução complexa. Ora então o comentador desportivo do grupo Cofina, deputado e consultor fiscal da Finpartner lembrou-se de desenterrar uma medida que estava guardada nos confins da década de 1940 e propôs um confinamento especial para uma determinada comunidade, ontem os judeus, hoje os ciganos. Se a sociedade portuguesa não estivesse tão alerta e avisada para este tipo de políticas teríamos de ir buscar Ricardo Quaresma ao seu lar e fechá-lo num espaço designado com o resto da comunidade cigana. Teríamos de expulsar a advogada e mestre em Direito Criminal, Alcina Faneca da sua residência juntamente com toda a sua família para a fechar num local escolhido por André Ventura. Ou impedir o secretário de Estado das Autarquias Locais, Carlos Miguel de continuar a exercer o seu cargo pois teria de se juntar a toda a comunidade cigana numa prisão especial.

Propostas como estas apenas servem para indignar e confundir alguns portugueses que ainda alegam que “os ciganos vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado” mas desmentidos pelos dados da Segurança Social que indicam que apenas 3,8% dos beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI) são ciganos. Porque não nos insurgimos perante os outros 96,2% de beneficiários? Talvez porque compreendemos que quem necessita deste instrumento vive comprovadamente em situações de pobreza extrema. Basta olhar para as nove famílias de ciganos que vivem numa antiga prisão em Moncorvo. Não só este apoio social é necessário em qualquer sociedade humanista como também serve para uma progressiva inserção social, laboral e comunitária dos seus membros.

Combater um dos problemas de integração dos ciganos é desmistificar a não importância da educação. Fazer compreender às gerações mais antigas de ciganos que os seus filhos têm de apostar num percurso académico que funcione como elevador social. Deve haver espaço numa sociedade moderna para qualquer tipo de organização social desde que cumpra as regras do Estado de Direito. Ao invés de apontar o dedo às diferenças para com os outros devemos celebrá-las e talvez alguns de nós com humildade ainda consigam aprender algo com a cultura cigana. Como uma maior consideração pelos mais velhos ao reconhecer-lhes a sabedoria e conhecimento acumulado durante décadas, há por aí algum cigano idoso deixado num lar? Ou para a união da sua comunidade, ou será que algum de nós não gostaria de, após um momento mais complicado num hospital ou num tribunal, encontrar o conforto da família e dos melhores amigos à saída?

Não existe nenhum impedimento na democracia para debatermos qualquer assunto proposto por um deputado, mesmo que sejam ideias de outros tempos segregacionistas e que já deveriam estar resolvidas há muito tempo pelo Homem. O verdadeiro problema é que estes assuntos servem como travões ao progresso do ser humano e que consomem tempo desfocando a atenção dos verdadeiros problemas do país e do mundo.

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Texto de Francisco Mouta Rúbio
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