Ser criança é importante porque começamos a descobrir quem somos, por exemplo qual das power puff girls eu escolhia; se a ponta dos dedos disparava realmente; ou aqueles lugares que achávamos ser do lado esquerdo e quando crescemos afinal são do lado direito. A literatura exerceu em mim a habilidade fantástica de saber disparar mais rápido do que a própria sombra, porque os meus ídolos ainda não eram Baudelaire ou Antero, mas a banda desenhada do Lucky Luke e do Astérix. E se hoje fosse a uma entrevista de emprego e perguntassem “qualificações?” sacava do dedo tão rápido que diriam de mãos no ar “contratado!”. 

 Estas coisas fazem-me rir porque são reais para mim, e só depois de reconhecermos isso podemos começar a crescer, a admitir que afinal aquelas velhinhas com buço que nos beliscavam a bochecha a dizer “peguei-te ao colo, sabias?” não são assim tão más, e a notinha no bolso da camisa até que caía bem. A admitir também o medo daquele x, assim: 

que me olhava com cara de mau, quando a professora dizia “menino quadro”, e eu tentava ouvir a resposta dos meus colegas enquanto me dirigia devagar ao quadro. Já lá à frente baixava a cabeça “professora não sei” e sinceramente aquilo tudo era um espetáculo cretino, vontade de puxar da minha pistola imaginária mas depois teriam de chamar a polícia e ia dar bronca pelo que limitei-me a voltar cabisbaixo para o lugar, nessa noite prendi os irmãos Dalton mas disso já ninguém queria saber, sacanas. Depois crescemos e uns quantos pelos na cara já nos fazem crer que somos adultos e todo este mundo ficou para trás mas um dia destes, e vou ser completamente sincero naquilo que digo, um dia destes ainda parto à procura do Mojo Jojo, aquele macaco com o cérebro de fora. 

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Texto de Lourenço de Almeida Duarte
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