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Carta do Leitor: Stream of consciousness pluvial 

A Carta do Leitor de hoje chega pelas mãos de Miguel Villa de Freitas, vencedor do Prémio Literário Juvenil Ferreira de Castro 2022/2023, que nos traz uma reflexão sobre memórias.

Chove em Siena. 

Limpa e leve, levanta-se a alma da terra nas gotas devolvidas ao céu. Chove de baixo para cima, as maçãs libertam-se dos juncos, fintam os troncos, rumam ao sol! 

Que poder tem a chuva que revolve as entranhas do húmus, ara-me o solo da solidão, separa o trigo do joio e vem dar-mo à mão! 

Aromas de incenso alfazema e alcatrão trazem-me Bruges e Roma de volta ao coração, bumerangues da saudade, demoram-se até mim como gôndolas e togas ao pôr-do-sol. 

Cai a chuva e não tardam a sair as memórias dos respetivos esconderijos: vêm até mim como toupeiras perdidas, e eu abraço-as com insuportável carinho… E beijo-as, e pastoreio-as a todas, nem uma memória fica para trás! 

Memória 1: Chove em Bruges, as gotas espessas descrevem cicatrizes de compasso na capa do rio. Chove em Bruges há oito anos. Acenam-me os canais onde circulam todas as minhas bisgas e escarretas! 

Memória 2: Roma, eu tão grande, nove anos, os vendedores de rua a esticarem os brinquedos pegajosos e a atirarem-nos ao ar. 

Memória 3: Gelado em Orvieto — três bolas polifónicas e a minha língua fresca a desfazer-se na gastronomia italiana: verde branco e vermelho, um delicioso gelado de alfazema, incenso e alcatrão! 

(Alfazema Incenso Alcatrão //// Cheiros que, em dias de chuva, constituem a perfeitíssima trindade da sinestesia.) 

Memória 4: Roma outra vez: O Papa, o Angelus da janela, um espectro branco a acenar — eu: quem será este gajo? — e o fórum e o coliseu sem interesse: o classicismo a valer a ponta dum chavelho ao lado dos porquinhos pegajosos; a melhor coisa do mundo os pega-monstros os cãezinhos de pilhas que miam aos saltinhos e as orelhinhas da Minnie cheias de luz roxa.

Memória 5: Gárgula em Bruxelas a ejacular toda a chuva do mundo, uma gárgula sim, não o menino mijão cujo pífio sexo finjo segurar na fotografia que tiro ao lado da minha irmã. 

Azeitão — Memória 6 — casinha de férias, arremesso uma mão de calhaus que caem na piscina de uma atriz conhecida, nossa vizinha. 

Ação: calhau na piscina. 

Castigo: não piscina. 

Memória 7 — tempo e sítio ? — Sentir cair nos meus ombros uma cascata de significados sem significante, espremer de angústias o meu oleado amarelo tão parco tão pesado, tão da cor dos school buses norte-americanos, e não sair nem uma gotinha. 

Não chove no canal em Bruges como chove neste vale em Siena.

Memória 8 — agora — Siena: telheiro, cátedra. 

Já não me ferem os pregos que metralham o mar já não me navalham as gotas que salgam o mar. 

A chuva cai bem em Siena.

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Texto de Miguel Villa de Freitas

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