Encontro-me em Portugal Continental numa cidade do alto Oeste, no intermédio entre Lisboa e Coimbra. Para quem conhece Portugal, a capital administrativa (Lisboa) não é a mesma que a capital do conhecimento (Coimbra), nem a capital do empreendedorismo (Porto) é a mesma capital da espiritualidade (Fátima). Portugal reúne dispersos pelo seu território, simbolicamente bastiões culturais, que pela sua carga e força histórica, carregam em si séculos de tradição, numa ou outra característica que as distingue das demais. Até mesmo na minha cidade, por vezes tem sido difícil de distinguir que capital gostaríamos de ser. Apenas recentemente se assumiu que a cidade das Caldas da Rainha é a cidade das águas e das artes, ou seja, a cidade onde está edificado o Hospital Termal mais antigo do mundo e, ao mesmo tempo, ser cidade criativa da UNESCO de Crafts and Folk Arts.

Poderia aqui elencar várias razões para referir que, em Portugal, existe uma sensação de pertença e de bairrismo que nos faz assumir que cada média cidade, com mais de 20 mil habitantes, pode ser capital de algo, como se em si reunisse as demais valências em detrimento das suas cidades vizinhas. Os rankings e a corrida ao crescimento têm, de certa forma, motivado más escolhas que apenas fomentam o crescimento desorganizado numa faixa litoral de Vila Real de Santo António a Valença do Minho.

Existe uma certa transição identitária em Portugal que está de facto a mudar. Os programas de incentivo ao investimento trouxeram, numa primeira fase, os eixos estruturais com as vias de comunicação rodoviárias aprimoradas para o automóvel. Desde o último resgate do FMI e do advento do turismo até 2019, Portugal viveu anos de aceitação e desenvolvimento de uma nova autoestima geral, que proporcionou não só a criação de start-ups de inovação, um pouco por todo o país, como também a criação de negócios complementares ao sector do turismo, que foram por este meio sustentados.

Assim previa-se que o Rei Dom Sebastião tivesse reencarnado no Cristiano Ronaldo, e que Portugal tivesse efetivamente, através da grande bolha de turistas de Lisboa e do Porto, a capacidade de salvar a economia de todo um país com apenas 10 milhões de habitantes. Desde o queijo de cabra da montanha da Serra da Estrela, ao mirtilo de estufa do Alentejo, ou do burel de Vouzela e a cesta de vime de Ferreira do Alentejo, terminando na peça de cerâmica das Caldas da Rainha ou na garrafa de vidro soprado da Marinha Grande, o craft veio assumir a recuperação de toda uma geração de fazedores e de técnicas tradicionais que representam a alma de um povo. Estes pequenos negócios, representativos de uma nova geração de empreendedores, vêm valorizar as características mais nobres de cada região e proporcionam uma economia de escala que proporciona a sustentabilidade dos pequenos produtores se constituírem numa nova rede de empreendedorismo descentralizado e mais democratizado.

O que aconteceu com a pandemia foi um facto global, alavancado por uma rápida injeção de fundos que vieram acelerar a digitalização destes pequenos produtores. Não significa que tudo seja digital, mas acredito que, com esta oportunidade, grande parte das microempresas, passaram a ter a capacidade de se comunicar de forma global. Esta transição alavancada por uma maior facilidade de comunicação, permitirá um rápido crescimento de uma economia virtual, facilitada pelo advento da Amazon e das transportadoras de mercadorias. De facto, hoje não há periferia nem local que não seja acessível por GPS. O mundo da pandemia, foi o mundo das compras online, das Lookiero desta vida e da experimentação de uma nova forma de aquisição ideal para os pequenos empresários do craft.

Regressar ao modelo antigo poderá ainda tardar um pouco, ou ser uma hipótese inquinada. Em Portugal, já com a possibilidade de circulação sem máscara e com a maior taxa de vacinação do mundo (85%), ainda existem restrições desatualizadas, como as listas vermelhas, amarela ou verde do Reino Unido onde a taxa de vacinação é significativamente inferior. Entendo que a nova tendência de valorização das comunidades do interior, que veio associada aos nómadas digitais e ao crescimento do turismo interno, venha proporcionar a hipótese de assumirmos uma descentralização cada vez mais efetiva das oportunidades de trabalho, e que isso renove uma ideia cultural que deixará de estar associada ao sector administrativo, cultural, tecnológico, académico ou de lazer, mas sim à grande possibilidade de gestão de todos estes canais através do uso de um único  computador. Assim, para mim, a grande transição cultural que decorre em Portugal neste momento é a da “oportunidade”, que está cada vez mais acessível à comunidade global e à possibilidade de acesso virtual, que é a melhor montra que temos para quando todos nós, no mundo, pudermos voltar a viajar para Portugal.

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Texto de Mariana Calaça Baptista
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