“A busca de significado corresponde a um impulso íntimo que se traduz numa predileção por experiências mais autênticas e genuínas, uma sociabilidade mais relaxada, uma preferência por atividades criativas e uma busca por contextos que promovam a manifestação da espiritualidade.” O PhD Francisco Dias, em Turismo do IPL e Director da ART&TUR, remata uma análise feita a propósito da transformação do sector turístico no momento pós Covid. O isolamento social que vivemos durante meses, surte nos indivíduos uma regressão na capacidade de expressão sensorial, devido ao isolamento continuado e à ausência de estímulos. O reencontro com indivíduos há muito isolados é uma experiência inusual, transmitindo uma necessidade de adaptação à forma como nos relacionamos. O turismo criativo, sendo o resultado de experiências sensoriais que apelam aos cinco sentidos e à intuição, é o contraste que poderá trazer algum equilíbrio a esta ressaca social global. A oportunidade de posicionar a experiência de produtos turísticos com relação social e humana, e a gestão sustentada de micro negócios de família que localmente desenvolvem as suas atividades profissionais como a gastronomia, as artes e o artesanato, atividades em que a relação entre os indivíduos, pressupõe uma aprendizagem que poderá ser a resposta a este paradigma da ressaca pós covid com uma maior sustentabilidade local. Na cidade criativa das Caldas da Rainha da rede UNESCO em Crafts e Folk Arts, a dinâmica social da experiência manifesta-se no quotidiano da comunidade com a regularidade de workshops artisticos, numa cidade com 30 mil habitantes, suportando de forma sustentável a existência destas iniciativas  organizadas pela comunidade criativa local. Trata-se de uma cidade de artes e cultura, associadas à existência do seu Hospital Termal, no entanto o turismo criativo pressupõe uma capacidade de investimento de tempo e de uma sensibilidade para a valorização das artes. Importa saber de que forma as micro-empresas familiares poderão na retoma, ter a capacidade para se comunicar para um turista que terá a necessidade de consumir novos serviços e experiências que até à data estavam destinados a pequenas elites. Refletitamos sobre: A difusão do bem cultural e artístico local; A partilha de um saber fazer; O contacto com a comunidade local numa perspetiva social imersiva.

Entender o turismo criativo como necessidade social global é entender a necessidade da gestão ambiental e a introdução de conceitos regenerativos e de restruturação do nosso comportamento face ao planeta e os seus recursos. Entendo que a criatividade e a ecologia quando entendidas como fundamentais e no mesmo nível de importância para o futuro das gerações mais jovens, pode ser o veículo de disseminação de práticas ambientalistas dissociadas de posicionamento político e a assunção da criatividade pela arte, uma resposta para os desafios do turismo e da sociedade global da atualidade.

*Mariana Calaça Baptista Co-Investigadora da rede CREATOUR, Rede de Turismo Criativo de Portugal em parceria com Associação Destino Caldas, Silos Contentor Criativo, Caldas da Rainha.

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Texto de Mariana Calaça Baptista
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