Março de 2020. Primavera. Os netos tocam à porta e os filhos vêm atrás. Trazem novidades sobre as mais recentes notícias de um vírus que se espalhou pelo planeta terra.

O senhor Fernando abraça os filhos e dá notinhas aos netos com a célebre indicação de que serão para ser usadas para comerem um lanchinho.

As janelas lá de casa estão abertas e toca uma música do Roberto Carlos no leitor de cds na sala. Está sol na rua e os miúdos vestem calções. A hora dos gelados finalmente chegou.

Na televisão fala-se de uma doença qualquer. O senhor Fernando desvaloriza e faz uma festinha na cara da filha assegurando-lhe de que não é nada que já não tivesse vivido.

Na bancada da cozinha, o filho vai colocando as compras que fez e os medicamentos que comprou. O senhor Fernando tem 78 anos e não se levanta sem antes tomar uns prediletos. Depois da família e dos amigos do xadrez, não há nada mais que seja capaz de o fazer tão feliz como aqueles comprimidos.
- Prazeres de outras idades - Como lhes costuma chamar.

Depois de umas voltinhas na sala, à volta da mesinha de café, juntam-se umas danças na melhor linguagem das famílias que se amam. Ninguém percebe nada mas ninguém quer saber. São passos de bailarinos espontâneos. Ou passos espontâneos de bailarinos.

A hora dos gelados acaba e começa a fazer-se tarde. Os estores são corridos e as janelas fechadas. O senhor Fernando está cansado mas já saudoso dos minutos anteriores.

A filha despede-se do pai com um beijo na testa e outro mais demorado na bochecha. Retorna a falar-lhe do vírus e do perigo que é sair de casa sem máscara. Diz-lhe que se proteja e que não se encontre com ninguém.

Como qualquer pai, retribui os beijos e acena, já de longe, aos netos que correm para o carro. Deviam ter passado umas quatro horas desde a sua chegada mas nada fazia crer no tempo. Só o relógio da cozinha dava essa certeza.

Foram os filhos, os netos e ficou o senhor Fernando. Ainda acenou mais uma vez, de porta aberta a vê-los ir. A cara da sua filha, preocupada, era notória até para quem via mal ao longe.

Fechou a porta, sentou-se na poltrona ao lado do telefone de casa e ligou para o senhor Vitor. O seu rival, amigo, do clube de xadrez.
- Alô, alô. Senhor Vitor, como está? Tive aqui a visita dos meus filhos e dos netos… Voltei a ter que recordar a minha filha da idade que tenho. A conversa do vírus parece que veio para ficar. Agente não se pode ir abaixo, está a ouvir? Não os podemos deixar avançar muito mais com isto. Já começa a parecer um esquema bem montado para fechar os velhos em casa.

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Texto de Sara Isabel Loureiro
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