Isto não tem nada que ver com a fase que estamos todos a viver. Não tem. Tem antes que ver com a fase que eu estou a viver e que se tem prolongado no tempo.

Em 2017, numa noite de vinho tinto e brownie de chocolate e magia, percebi que ia morrer. Não ali, naquele preciso momento - apesar dos nervos que me provocavam tremores -, mas um dia, num futuro que podia ser mais ou menos distante. Havia pensado na morte antes, especialmente porque pessoas com uma importância indiscutível na minha vida já tinham sido levadas por ela, mas nunca tinha pensado que EU ia morrer. É isso mesmo: eu… nunca… tinha… pensado… que… um… dia… eu… própria… ia… morrer…

Que assustador era esse pensamento. Então num momento eu ia estar viva e no seguinte já não? Como é que isso se ia processar? Sentiria dor? Como seria estar morta? Seria o mesmo que adormecer mas sem sonhos à vista?

A partir dessa noite, a morte passou a ter outro significado para mim, porque, afinal de contas, eu também ia morrer um dia. Um dia eu vou deixar de respirar, fechar os olhos e nunca mais sentir. Vou ser cremada ou enterrada e não vou ter opinião sobre isso. Nem sobre isso nem sobre absolutamente mais nada neste mundo. Espero que exista um outro para eu poder continuar a ter alguma coisa para dizer.

Como é que deixamos de existir sem deixar nada por fazer? Não falo de grandes planos de vida, mas das pequenas coisas do quotidiano. “Vai estrear um filme daqui a uns meses que queria muito ver”. “Não vou saber o resultado das próximas eleições legislativas”. “Nunca consegui ler todos os livros que tenho lá em casa”.

Vou reformular a pergunta: como deixamos de existir sem nos melindrar o facto de deixarmos coisas por fazer? É óbvio que pergunto isto porque me imagino a morrer velha. Bastante velha e consciente de que cheguei ao momento perfeito para tal. E por isso mesmo, a consciência que vou deixar muitas coisas inacabadas me vai afetar.

A morte repentina e indolor, ainda que numa idade jovem, não é o que mais me assusta. Ficaria chateada se me acontecesse e se, de alguma forma, me fosse possível uma reação a isso, mas, no presente, não me tira o sono. O que me assombra verdadeiramente é aquela morte que, mesmo sem sofrimento, está ali a olhar para nós e a dizer: “Olha lá velha, vai-te preparando porque já tens 101 anos e a corda não estica por muito mais tempo”. E, apesar de me assustar, quero viver muitos anos, para poder responder à morte que estava à espera daquele momento. Não tinha pressa para ele (longe disso!), mas tinha curiosidade.

Quero saber como é deixar de existir, apesar de não querer deixar de existir. Posso pensar que nunca vou morrer para as pessoas que gostam de mim e que por cá vão ficando. Não é o que se diz sempre? Mas isso não me serve de consolo. Isso só é bom para elas. Para mim o que era bom era viver para sempre. Sendo isso impossível, vou ter que viver até aos 101 anos com medo do momento em que o meu corpo vai estar demasiado cansado para continuar este caminho finito que é a vida. Ao menos que exista um submundo colorido e de prazer (muito diferente daquele governado por Hades) onde eu possa acabar o que deixei por fazer - nem que seja o jantar.

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Texto de Rita Azevedo
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