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Catarina Santiago Costa

"Citrus aurensis"

Obra literária de Catarina Santiago Costa, originalmente publicada na Revista Gerador 28.

[Marmelada de laranja-amarga

1 quilo de açúcar;

1 litro de água;

3 limões;

5 laranjas amargas. Retirar o vidrado das laranjas-amargas e de um dos limões muito bem lavados e reservar. Espremer o suco aos citrinos; conservar os caroços e membranas que ficam presos no crivo do espremedor numa boneca, pois estes são ricos em pectina e espessam o doce. Cortar os vidrados em juliana e levar a cozer em lume brando juntamente com o suco dos citrinos, a água e a boneca com os caroços. Deixar a apurar durante três horas de modo a extrair a pecticina dos caroços e a que casca dos citrinos fique macia. Retirar a boneca; coar o seu conteúdo, deixando o líquido espesso escorrer para o tacho. Alijar as sobras. Juntar o açúcar e mexer até este dissolver por completo. Deixar ferver durante 30 minutos em lume brando, mexendo sempre para o doce não pegar, o que comprometeria o aspeto cristalino desejável. Retirar do lume, deitar um pouco de compota num pires e aguardar que arrefeça. Então, empurrar levemente a compota com o dedo – se a superfície enrugar, está no ponto. Aí, retirar cuidadosamente a espuma da superfície e deixar arrefecer entre dez e 15 minutos. Verter a compota morna em frascos de vidro.]

Descemos os degraus até à rua no fundo das escadas – a do prédio amarelo-torrado e das olaias nuas. É inevitável recordá-las na Primavera, os ramos das copas mais-largas-do-que-altas arrebitados, meninas com pichos encaracolados, atafulhados de flores roxo-rosado. Contornamos o muro para entrarmos na rua com o nome do homem que tinha uma vacaria fora de portas. Evitamos, saltitando, os dejectos no chão, que mais parecem a vingança dos consumidores depauperados à porta da vendedora de estupefacientes. E eis-nos sob as citrus aurantium carregadas de laranja-amarga – ou laranja brava, ou laranja de burro, como lhe chamam no Alentejo -, laranja-amarga verde do tamanho de laranja doce bem madura. Perguntas-me «por que se chama laranja de burro?, eles comem-na?», «é possível»; «o que se faz com a laranja-amarga?», «licor, doce, infusões». «Que desperdício de fruta – se não serve para comer, devia matar», «não, já pensaste que…», «não sejas chata».

[Licor de laranja-amarga da 23.ª edição do Pantagruel, pp. 1213:

1 litro de álcool a 90 graus;

1/2 quilo de açúcar pilé;

4 laranjas-amargas;

vidrado de 2 limões;

1 decilitro de água.

Durante um mês, põem-se a macerar no álcool, com casca e pevides, as laranjas-amargas cortadas em rodelas fina e o vidrado de limão. Côa-se, junta-se o açúcar humedecido com água, clarifica-se e filtra-se.]

Pouco antes da casa da fadista, entramos no restaurante que, em tempos, foi tasca. Putativos clientes assoberbados com malas, casacos e copos de vinho entopem a entrada, os idiomas e os cheiros formam uma amálgama alegre, acolhedora e aconchegante. Alho, cebola, bacalhau, choco, coentros, alemão, russo, inglês, francês, castelhano, italiano, côdea de pão, «quantos, são, amor?», «nós as duas, mas estamos com pressa; está demorado?», «espera lá fora que já te chamo» («não sejas chata»).

[Molho para servir com bifes de vaca, veado ou javali do receituário medieval português:

1 colher sopa de vinagre de vinho;

8 colheres de chá de vinho tinto;

4 colheres de sopa de sumo de laranja amarga

1 colher de sopa de açúcar escuro

pimenta preta a gosto

1 colher de chá de gengibre moído.

Misturar os ingredientes num tacho pequeno e levar ao lume até levantar fervura. Deixar repousar durante cinco minutos.  Salpicar os bifes com sal e canela depois de os ter fritado ou grelhado previamente e jorrar o molho por cima.]

O assado de bacalhau com azeite, pimentos verdes e batatas pequenas perfeitamente caramelizado chegava para quatro. Vinho da casa: bom e barato. Peço as sobras quando levantam a mesa – «preferia ter comido os bifinhos de vaca», «devemos comer menos carne», «porquê?», «por causa da saúde, da crueldade para com os animais, do excesso de produção de um alimento que não chega a todos por causa do preço, de», «não sejas chata; posso comer sobremesa?». Silêncio.

[Este suplemento alimentar é feito à base de extrato de laranja amarga que, sendo rica em sinefrina, favorece a libertação e combustão das gorduras acumuladas, aumentando a energia e promovendo o processo de emagrecimento.]

Lá vem o leite creme e o ferro em brasa com que o queimam na mesa. Observo-a. Come o caramelo e larga a colher, «já acabaste?», «não estava bom», «chata».

Licenciada em Filosofia pela Universidade Católica PoLicenciada em Filosofia pela Universidade Católica Portuguesa, conta já com três livros publicados: Estufa (2015), Tár taro (2016) e Filha febril (2017). Participou em edições da Enfermaria 6, Diversos Afins (Brasil), Flanzine e Tlön e foi incluída na antologia de poesia feminina luso--brasileira Anamorfoses.

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