*Esta é uma crónica da Teresa Carvalheira, inicialmente publicada na Revista Gerador de maio.

E se (vos dissesse que) tricotar também pudesse ser uma boa forma de protesto contra a exploração petrolífera em Portugal?

Já ouviram a expressão: «Que tem o cu que ver com as calças?» A minha mãe usa-a muito para questionar ideias minhas igualmente descabidas. Não vou agora dissertar sobre como se relaciona o cu com as calças, mas se tirei uma licenciatura em Design de Moda foi, em boa parte, para poder explicar precisamente como tudo está ligado de algum modo, mesmo quando não parece.

Em 2016, um grupo de pessoas juntou-se durante cinco dias nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa – que na altura detinha a petrolífera Partex Oil and Gas – e tricotou 60 metros de linha vermelha em protesto contra os 15 contratos de prospeção e exploração de combustíveis fósseis, tanto em mar como em terra, concedidos por sucessivos governos portugueses a várias empresas internacionais. Assim, nasceu a Campanha Linha Vermelha. E o que aconteceu depois foi que milhares de pessoas de todas as idades e de vários cantos do país se juntaram para tricotar contra as pesquisas de combustíveis fósseis em território nacional. Ao longo de quatro anos, tricotaram ou crochetaram pelo menos 1215 metros de linha vermelha, preocupadas em como estes furos poderiam afetar os lençóis freáticos, colheitas e comunidades num raio de vários quilómetros – e, claro, fomentar ainda mais a crise climática em que vivemos.

O tricô e o croché são técnicas manuais ancestrais que ficaram desvalorizadas, no seguimento da Revolução Industrial, pelos atuais padrões de consumo – estes últimos potenciados pelo atual sistema económico altamente dependente da extração de combustíveis fósseis. Tricotar passou a ser, então, um duplo protesto.

Esta abordagem mais lenta – que podemos chamar craftivismo (do inglês craft + activism – aliando a prática dos trabalhos manuais ao ativismo) – tornou-se uma ferramenta agregadora e possibilitou a passagem de conhecimento e técnicas entre diferentes comunidades.

Em 2019, um conjunto de movimentos cívicos, com o apoio de vários coletivos e associações ligadas à luta pela justiça climática, organizou o Camp in Gás, literalmente um acampamento de ação climática na Bajouca – local de uma das concessões.

Não me lembro de quando comecei a tricotar linha vermelha, mas lembro-me de que ainda não sabia como se extrai petróleo ou gás natural do solo. Afinal, sou designer, não sou engenheira. Mas na Bajouca, aprendi croché e a ciência por detrás da indústria – e constatei que o simples facto de sensibilizar a população para os processos de extração fez com que esta entendesse que os riscos da exploração deste recurso à sua porta são superiores ao prometido investimento económico na comunidade.

A promoção do gás natural como solução sustentável e de transição comprova a falta de coerência das políticas nacionais face ao objetivo de neutralidade carbónica. É importante não esquecer que, ainda que contenha «natural» no nome, o gás natural continua a ser um combustível fóssil, com comprovados e elevados impactos ambientais. Porque estamos a investir neste combustível, se já temos alternativas energéticas de fontes renováveis? Estamos perante uma crise sem precedentes. Mas o que significa exatamente estarmos a consumir anualmente os recursos de cerca de 1.5 planetas? Como só temos um planeta, os recursos que usamos hoje não são sequer herdados dos nossos antepassados – estamos já a acumular uma dívida para com a geração dos que ainda nem nasceram.

Se algumas boas notícias houver, são que, em Portugal, estamos cada vez mais preocupados com o ambiente. Já somos muitos a reciclar e a evitar água engarrafada, ou melhor ainda, a não utilizarmos descartáveis, de forma a reduzir a exploração de recursos naturais; e somos muitos a reduzir o consumo de produtos de origem animal e a usar transportes públicos para reduzir as nossas emissões de dióxido de carbono e metano. Apesar de estas mudanças serem essenciais por permitirem alinhar melhor os nossos valores aos nossos atos, estão longe de serem suficientes. Não evoluirmos de consumidores responsáveis para cidadãos ativos seria como ter a nossa casa em chamas e acreditar que conseguiríamos apagar o fogo soprando apenas, mas com ainda mais fôlego. O caminho para uma rápida e efetiva mudança só se faz através de ação coletiva e direta – e incluindo o máximo de pessoas possível.

Por exemplo: um estudante apenas, em greve escolar, não tem grande impacto até que outros estudantes se juntem ao protesto. A Greve Climática Estudantil (proveniente do movimento global Fridays for Future), peça-chave da oposição à exploração petrolífera em Portugal, já pouco tem que ver com a escola. É um movimento intergeracional, de pessoas com diversos estilos de vida e que ocupa espaços públicos, digitais e até institucionais.

É o resultado da consciência mobilizada. É o resultado da consciência de que está tudo ligado: que o petróleo não é somente combustível para transporte, energia ou plástico. O petróleo está na medicina moderna e nos fertilizantes e pesticidas da agricultura convencional. O petróleo é a embalagem descartável que consumimos e o poliéster que vestimos – e também os microplásticos nos nossos oceanos e, quem sabe, no ar que respiramos.

Se os combustíveis fósseis estão por todo o lado, como esperamos mudança sem os mudar?

Depois de tanto tricô e croché, ficou claro que a mudança tem de ser sistémica e que temos de ir diretos à raiz do problema: a sobre-exploração de recursos naturais e consequente destruição de habitats. A linha vermelha ajudou-nos a visualizar o limite que não podemos ultrapassar. E mostrou-nos novas abordagens para, por exemplo, manter o petróleo no solo – mesmo a partir do sofá de cada um. Porque quando juntámos todos os pedaços tricotados, ligámos metros de pequenas ações que se transformam numa rede de força política – e, por sinal, vitoriosa!

Neste momento, podemos celebrar que não existem quaisquer contratos para prospeção ou exploração de combustíveis fósseis em Portugal! E podemos celebrar que cada vez mais pessoas exigem o devido investimento: fazer da alternativa, a norma.

-Sobre a Teresa Carvalheira-

Alentejana, mas inquieta, designer e upcycler, é community manager em Portugal do movimento internacional Fashion Revolution e produtora da série documental sobre sustentabilidade «É Pra Amanhã». Organiza, desde 2015, mercados de troca de roupas e está ligada à gestão de projetos transdisciplinares relacionados com inovação social e património em Portugal, Grécia e Turquia.

Texto de Teresa Carvalheira
Fotografia de É pra amanhã!
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