*Esta é uma crónica da Teresa Carvalheira, inicialmente publicada na Revista Gerador 35.

Por todo o lado encontramos as expressões «sustentável», «verde», «eco», e a polarização nos números – há sempre algo 100 % ecológico ou 0 % de impacto, não é? Se até os nossos produtos de consumo massificado são conscious, poderíamos dizer que estamos muito perto de mitigar a crise climática? Mas estaremos realmente conscientes do que significa consumir hoje em dia?

Qualquer ação social humana tem um impacto. E tenho de começar por partilhar o exemplo mais curioso – a pegada carbónica de um inocente e-mail – isso mesmo, a nossa comunicação desmaterializada, mesmo com o disclaimer no final da mensagem: «salve o planeta, não imprima este e-mail», tem um considerável impacto. O mais simples e-mail (texto) emite o equivalente a cerca de 4 gramas de CO2. Este número refere-se à energia gasta tanto para abastecer o armazenamento de dados como os próprios dispositivos de leitura. Estima-se que, por ano, cada pessoa, emita o equivalente a 136 kg de CO2, que equivale também a uma viagem Porto–Lisboa de carro a combustível fóssil. Não parece muito, mas é alguma coisa… Afinal, são só uns e-mails!

O termo carbon footprint foi primeiramente utilizado numa campanha de marketing de 2005 da petrolífera BP, quando a empresa também lançou uma calculadora de emissões para que pudéssemos visualizar em números como o nosso dia a dia impacta o planeta. Quinze anos depois, o termo «pegada» está em todo o lado e nós cada vez mais preocupados com as nossas ações individuais. Tudo bem, mas é importante refletir em como foi fácil convencer os consumidores de que tudo é um problema de todos e de todos por igual – das ações mundanas individuais, e não do mercado – e nunca dos indivíduos que o controlam, os mais ricos do planeta, que representam 1 % da população mundial e que, segundo a Oxfam, emitem duas vezes mais emissões que a camada mais pobre, 50 % da população mundial.

A próxima «equação» é complexa, mas é também fácil entender que o resultado – mesmo com um consumo mais consciente – será sempre o equivalente a desastroso: estima-se que, globalmente, se produzam 150 bilhões de peças de roupa novas por ano. Ora, a última vez que pesquisei estes dados, não existiam ainda sequer 8 biliões de pessoas no planeta. Imaginemos, assim na loucura, que toda a população mundial teria o mesmo acesso a vestuário: com este ritmo, todas as pessoas no planeta teriam, todos os anos, 18 peças de roupa novinha. Segundo a Greenpeace, o consumidor médio – compra atualmente o dobro das peças relativamente ao que comprava no ano 2000 e só as mantém metade do tempo, sendo que, em média, cada peça é usada apenas até 4 vezes.
Apenas com a diferença de uma geração – dos meus pais para a minha –, conseguimos passar de fazer as próprias roupas a comprá-las praticamente descartáveis, produzidas do outro lado do mundo e muitas vezes mais baratas do que um hambúrguer de uma cadeia de fast food.

E, naturalmente, demasiadas destas roupas não são vendidas e são, por sua vez, destruídas ainda em loja e/ou encaminhadas para aterro ou incineração. Segundo a Ellen Macarthur Foundation, desperdiça-se, globalmente, um camião de resíduos têxteis por segundo! E, em Portugal, deita-se para o lixo 200 mil toneladas de têxteis por ano.
Enquanto não encontro a solução para este problema, recorro a Einstein, só que ele dizia: «Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, em relação ao universo, ainda não tenho certeza absoluta.»

A produção global de bens de consumo é excessiva e consequentemente desperdiça-se cada vez mais. Produz-se cada vez mais, mais rápido e com menor durabilidade… A solução parece ganhar forma – reduzir drasticamente. Mas reduzir o consumo para reduzir a produção ou reduzir a produção para reduzir o consumo? A questão do ovo e da galinha é realmente desafiante porque grandes esforços individuais e coletivos têm sido feitos para reduzir primeiramente o consumo como clara mensagem aos produtores. Porém, isso parece não estar a ser significativo, e os números e previsões continuam a revelar-se em crescimento linear.

Para não perder a esperança, continuo a inspirar-me em exemplos vivos de autossuficiência, resiliência e disrupção, e trago-vos então a avó da minha amiga Sílvia, que não é nenhuma designer emergente, mas sim a minha musa do upcycling. A Maria Antonieta já transformou de tudo: camisas de homem viraram sacos do pão, sacos de asas, sacos para guardar feijões, blusas, lenços de mãos, trapo para tapetes, aventais de cozinha ou para o marido ferreiro – estes a partir de calças de ganga, para serem mais resistentes. A avó da Sílvia fez o seu próprio vestido de casamento às escondidas, uma semana antes de casar. Depois, ainda o guardou uns dois anos, mas como tudo é um recurso valioso, e este seria mal empregue se não tivesse uso, ainda desmanchou a saia para fazer umas roupinhas. Da saia fez uma camisa, um bolero e uns calções para o filho bebé. A parte de cima do vestido guardou e ainda usou como blusa durante uns anos. De um filho ainda passou para outro e depois passou para outra família. A avó da Sílvia é responsável pela gestão sustentável dos recursos que tem ao seu dispor e ainda bem.
Então pergunto: será que ajuda a visualizar um futuro mais equilibrado se voltarmos a olhar para as zonas rurais e o seu estilo de vida? Haverá realmente escassez de recursos ou há excesso nas cidades? E como navegar em subsistência no meio do excesso e desperdício?

É urgente passar de repensar somente consumo para contemplar a produção – o design e a sua escala. A haver algum sentimento de culpa no consumidor, deverá apenas ser este: o de estarmos a perder gerações e gerações de conhecimento e experiência de resiliência e harmonia com o que nos rodeia. Reativar este conhecimento e responsabilizar os criadores do excesso e da simultânea falsa sensação de escassez é o próximo nível de responsabilização – já não basta comprar melhor, há que exigir melhor. Porque já não basta sermos consumidores conscientes, precisamos de ser cidadãos! E precisamos de falar sobre isto com os nossos avós. Se ainda os tiverem por perto, por favor, aproveitem e tenham a bondade de partilhar comigo. Obrigada!

-Sobre a Teresa Carvalheira-

Alentejana, mas inquieta, designer e upcycler, é community manager em Portugal do movimento internacional Fashion Revolution e produtora da série documental sobre sustentabilidade «É Pra Amanhã». Organiza, desde 2015, mercados de troca de roupas e está ligada à gestão de projetos transdisciplinares relacionados com inovação social e património em Portugal, Grécia e Turquia.

Texto de Teresa Carvalheira
Fotografia de É pra amanhã!
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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