O projeto nasceu há mais de 30 anos, quando, durante um passeio, um grupo de amigos encontrou uma aldeia completamente desabitada na Serra da Lousã. Apesar de relegada ao abandono, a Cerdeira não passou despercebida aos olhos daqueles estudantes da Universidade de Coimbra, que, anos mais tarde, ali viriam a estabelecer raízes. A alemã Kerstin Thomas, mentora do projeto Cerdeira – Home For Creativity, descobriu ali o local que procurava para instalar o seu ateliê e idealizou um novo futuro para aquela aldeia, que passava por trazer pessoas e arte. Após a recuperação de várias casas e a criação de infraestruturas, o sonho foi-se tornando realidade e, hoje, esta secular aldeia de xisto conta com nove habitantes permanentes e uma dinâmica que une o trabalho e formação artísticos ao turismo criativo.

“Esta aldeia foi abandonada no final dos anos 70. Dizem que chegou a ter 70 habitantes”, conta Joana Salgado, produtora executiva da Cerdeira – Home For Creativity. “As pessoas foram saindo daqui para procurar melhores condições de vida, tanto para elas como para os filhos, porque aqui não haviam escolas e a vida era muito difícil. Vivia-se à base da agricultura e, portanto, não era fácil.”

Quando foi “descoberta” por aquele grupo de jovens, a aldeia, situado no final de uma estrada de terra batida, não tinha eletricidade, saneamento básico ou acessos fáceis. Mas isso não impediu que, em 1988, Kerstin Thomas e o marido Bernard Langer começassem a recuperar algumas das casas da Cerdeira. “[A Kerstin] estabeleceu aqui residência e criou também aqui um ateliê para levar a cabo a sua paixão, que era a escultura em madeira. Para além disso, tinha aqui o paraíso da matéria-prima. Árvores não faltam. E tinha também aqui uma das madeiras mais preciosas e mais maleáveis, que é a madeira de castanho, portanto, os castanheiros”.

Mais tarde, em 2000, Natália e José Serra, amigos que tinham conhecido ainda em Coimbra, juntaram-se no esforço de recuperação. “São eles que acabam por promover um projeto artístico paralelo a um projeto turístico e criámos assim, efetivamente, não só uma incubadora de artes, mas também aquilo a que chamamos turismo criativo ou turismo cultural”, diz Joana.

Aos poucos, o projeto foi ganhando forma e sentido, impulsionado também pelo projeto da Rede das Aldeias de Xisto e a criação de praias fluviais, que antes só as pessoas da terra conheciam.

Mais tarde, em 2006, os responsáveis organizaram, pela primeira vez, o festival de artes Elementos à Solta e, em 2012, arrancou o projeto Cerdeira Village, que, em 2018, se transformou na Cerdeira – Home for Creativity.

A arte como força motriz

Escondida num pequeno vale a 700m de altitude, a Cerdeira foi ganhando (nova) vida e conta hoje com dez casas reabilitadas para alojamento local. Aqui foi também criada uma escola de artes, "para quem quiser aprender artes e ofícios na área da cerâmica, do trabalho em madeira, do desenho, da pintura, também da tecelagem, tudo o que sejam artes manuais, digamos assim, e que se estão a perder com o tempo”, partilha a produtora executiva. “A par disso, temos também já um alojamento que nos permite receber artistas em residência”, por onde já passaram profissionais da área da composição de música, fotografia, novos media, cerâmica e até mesmo da área de teatro e da dança.

Muitos têm sido aqueles que, ao longo dos últimos anos, passaram pela Cerdeira, sejam artistas de todo o mundo que procuram inspiração, sejam hóspedes que escolhem a aldeia para ali passarem férias, ou outros turistas de visita à Serra da Lousã e às várias aldeias históricas e de xisto que existem na região.

Mas se, inicialmente, a beleza e tranquilidade da aldeia eram o principal chamariz de hóspedes, atualmente, já há quem procure o local, com cerca de 300 anos de história, pela sua vertente artística. “Neste momento – o que é fantástico no espaço de um ano e meio –, já conseguimos efetivamente que algumas pessoas nos procurem pela parte artística. Ou seja, quem vem para a nossa aldeia viver numa casinha, durante X dias, já quer vir experimentar fazer um curso, um workshop, enfim, uma dinâmica associada às artes e ofícios”, refere a responsável.

Trabalhar com uma roda de oleiro para produzir pequenas taças, criar figurado em cerâmica ou fazer casas de xisto em miniatura são algumas das experiências criativas mais procuradas por quem aqui passa. Construir brinquedos de madeira – uma atividade mais direcionada para o público infantil – ou aprender a confecionar a chanfana – prato típico da serra da Lousã – são outras das alternativas disponíveis na Cerdeira, onde existe também uma biblioteca, espaço para ateliês e um café.

A pandemia veio baralhar as contas, mas, por aqui, já passaram centenas de artistas – maioritariamente nacionais no ano passado devido à crise sanitária – e milhares de turistas, entre os que estão de passagem e os que ficam nos alojamentos, desfrutando da aldeia e das atividades possíveis durante mais alguns dias.

O primeiro confinamento levou ao fechar de portas durante alguns meses. “A aldeia não teve ninguém durante 3/4 meses e até o cão se foi embora”, conta Joana, entre risos. Os sucessivos cancelamentos e adiamentos de iniciativas, quer por falta de inscrições, quer devido às dificuldades de deslocações dos artistas internacionais, abrandaram o projeto, mas, com o evoluir da crise sanitária, o isolamento da aldeia foi-se tornando também uma vantagem. “A pandemia está a fazer com que as pessoas venham, com que as pessoas procurem sítios mais recônditos. Sítios mais fora de tudo, no fim da estrada, onde elas se sentem mais seguras, por isso, temos o inverso”, conta Rafael, um funcionário da Cerdeira.

Trazer pessoas à aldeia de maneira ecológica

“Não receamos [o impacto turístico] porque não deixamos”, afirma perentoriamente Joana Salgado. Quinze pessoas é o número máximo estabelecido para um grupo que queira desenvolver uma atividade nos espaços da aldeia. “O projeto surge e, paralelamente, começam a surgir os primeiros habitantes fixos”, explica. “Temos neste momento nove pessoas que vivem aqui e, portanto, não podemos estar também a violar aquilo que é o espaço e a privacidade delas.” Entre os moradores permanentes, contam-se os amigos que ergueram o projeto Cerdeira – Home For Creativity, mas também outras pessoas que resolveram habitar àquela que é a mais pequena aldeia de xisto do concelho da Lousã.

Para além disso, a Cerdeira parece usufruir também de uma espécie de autorregulação que faz com que o impacto turístico não seja uma angústia para os responsáveis do projeto. O   acesso – apenas possível através de uma íngreme estrada de 1,5km que ali terminada – é limitado. “Mesmo que as pessoas quisessem, elas chegam ali e não têm sítio para estacionar o carro. Não dá. Portanto, a própria aldeia já se protege a si própria.”

Um repovoamento virado para a sustentabilidade

“Todo o projeto da Cerdeira foi pensado para ser sustentável e inspirador”, podemos ler no website do mesmo. Por isso, as casas de xisto foram sendo reconstruídas com pedra, argila e madeiras autóctones. “Começámos esta viagem de reconstrução das infraestruturas também sempre com essa preocupação [sustentável]. Não usar materiais "modernos" que, para além de descaracterizarem a paisagem – depois já não era uma aldeia de xisto, era outra coisa qualquer diferente daquilo que existia há 500 ou 100 anos –, potenciava também a poluição, digamos assim. Então tentamos sempre reconstruir as nossas casas com os materiais que a própria montanha nos oferece”, elucida a produtora executiva. “É claro que para darmos as comodidades do século XXI, de vez em quando temos de utilizar cimento ou outro material”, acrescenta.

Para a recuperação das casas, usaram-se as técnicas tradicionais de construção, e todos os alojamentos estão apetrechados com móveis feitos na região e obras de artistas que passaram pela aldeia, classificada, em 2015, como conjunto de interesse municipal de forma a proteger o seu património arquitetónico.

A Cerdeira conta também com painéis solares e um depósito de água, que permitem otimizar o consumo de água e energia. E esta preocupação ambiental é também passada aos hóspedes do alojamento local, que são sensibilizados a usar os compostores espalhados pela povoação e a fazerem a reciclagem antes de se irem embora – “se não fizerem a reciclagem pagam uma multa.”

No que toca à paisagem, “como em todos os sítios, a Serra da Lousã também não foi exceção. Foi invadida por espécies invasoras, nomeadamente, o eucalipto e a acácia”, relata a responsável, partilhando que, nos últimos 30 anos, a comunidade tem plantado árvores autóctones e procurado “aniquilar, literalmente, tudo o que não seja autóctone”. “Há nossa volta conseguimos perceber que ainda há eucaliptos muito grandes, mas na aldeia, quando olhamos à volta, já só vemos os castanheiros, as cerejeiras, porque é isso que cá deveria estar.”

Texto por Flávia Brito
Fotografia de Margarida Rebelo

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Cerdeira - Home For Creativity

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