Todos sabemos que um cubo tem seis faces. Contudo, apenas temos a capacidade de ver, no máximo, três faces de cada vez. Necessitamos de o mover, de sair do nosso lugar para perceber o todo. O conhecimento permite-nos atingir o que não vemos e testemunhamos. Nos lugares da cultura, deveríamos ver os vários lados do cubo, deveríamos aceder ao olhar do outro.

A empatia é essencial para o desenvolvimento equilibrado da nossa sociedade. Nas dinâmicas diárias, é muito natural que nos concentremos nos nossos problemas e circunstâncias. A vida dos outros parece-nos muito distante e a iminência do trabalho diário não nos permite tempo para a reflexão. Da televisão, pretendemos ver imagens que adormeçam o cérebro e, das redes sociais, apenas queremos dizer coisas ao mundo. Já não procuramos a razão da nossa existência, mas queremos saber quem são os responsáveis pelos nossos problemas. Não nos importamos que estes não sejam resolvidos, desde que não tenhamos que assumir a sua responsabilidade.

Neste vaivém diário do não-questionamento, da luta alienada pela sobrevivência e da inversão das prioridades, acredito que os lugares da cultura devem ser lugares de abrandamento. Devem ser os templos do pensar por pensar, os lugares do verdadeiro encontro e da reflexão. Mais do que nunca, museus, bibliotecas e auditórios são essenciais para podermos criar espaço para os processos de empatia. Um centro cultural deverá ser um espaço com tempo lá dentro. Necessitamos de programas que nos provoquem e desafiem a olhar o diferente e acreditar na diferença como a única possibilidade de ver os outros lados do cubo. Necessitamos de mais espaços culturais que apostem nos encontros da diversidade. Verdadeiros espaços públicos, espaços cúbicos com faces opostas, com arestas confluentes e com vértices mobilizadores.

*Esta é uma crónica do Luís Sousa Ferreira, inicialmente publicada na Revista Gerador de janeiro.

-Sobre o Luís Sousa Ferreira-

Formado em design industrial, é o diretor do 23 Milhas e fundador e diretor artístico do festival Bons Sons. Não acredita que a cultura em Portugal precise de uma revolução, mas sim de uma mudança de prisma. É o autor da crónica «Disco Riscado» na Revista Gerador.

Texto de Luís Sousa Ferreira
Fotografia de Raul Pinto
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