*Esta é uma crónica de Luís Sousa Ferreira, inicialmente publicada na Revista Gerador 36.

No início de outubro, as redes sociais estiveram em baixo durante seis horas. Seis horas apenas provocaram muita ansiedade nos seus utilizadores e prejuízos significativos em empresas de todo o mundo. São cada vez mais as pessoas que questionam a dependência da sociedade contemporânea perante estas empresas globais, essenciais e ultrapoderosas. Coincidentemente ou não, a falha surgiu apenas um dia depois de uma denunciante, ex-colaboradora do Facebook, ter revelado vários documentos internos que indiciam que o gigante das redes sociais tinha conhecimento da promoção do ódio e prejuízo para a saúde mental de adolescentes. Frances Haugen acusou a empresa de colocar «os lucros acima da segurança». Em 2018, quatro professores da Universidade de Exeter desenvolveram um estudo que concluiu que as caixas de comentários das redes sociais fomentam a toxicidade social. Indo ao encontro deste estudo, o cientista John Farkas, da Universidade de Malmø, na Suécia, também critica o algoritmo empregue pelo Facebook, dizendo que há consciência do impacto destes mecanismos e que se recusam a alterações porque o seu negócio depende da maximização do número de interações dos seus utilizadores.

A transição digital é um dos grandes desafios do mundo ocidental. É um processo que tem por base o acesso, a interoperabilidade, a inclusão, a agilidade, a eficiência da comunicação, a poupança de recursos e um sem-número de vantagens que resultam desta mudança de paradigma. Contudo, a desmaterialização também presume uma série de desafios que nos impõem várias questões sobre a equidade, a liberdade, a manutenção dos sistemas democráticos e a criação de modelos participativos. Urge problematizar o espaço público digital e a ideia de encontro, objetivo central das atividades culturais.

Todos sabemos que parte da nossa vida está a ser transferida para a esfera digital. O ensino, os empregos, a economia, a socialização, a cultura... pouco a pouco, as esferas basilares das nossas vidas acontecem ou dependem dos sistemas e plataformas digitais. O acesso à Internet está cada vez mais democratizado, mas deparamo-nos com alguns equívocos. O espaço público, o lugar de debate de encontro e de liberdade, essencial para a vitalidade das democracias, não está a ser transportado para a esfera digital. Por questões orgânicas, a esfera pública digital está associada às redes sociais. Fora todos os benefícios destas plataformas, não nos podemos esquecer que são privadas, com interesses comerciais, verdadeiros monopólios de dados e informações particulares, com regras pouco claras para os utilizadores e com algoritmos e serviços paralelos que nos retiram o controlo sobre o que queremos ver e sobre quem nos vê. Fora os vários pontos sensíveis relativos à liberdade individual, existem questões ligadas ao enfraquecimento da democracia, ao extremismo ideológico, ao bullying e a uma impunidade que não teria respaldo na esfera pública tradicional de sociedades democráticas.

Não posso falar de crispação social sem referir as caixas de comentários dos jornais online, não só pelo teor e tom de muitas das participações dos utilizadores destes espaços, mas pelo facto de as entidades promotoras não se responsabilizarem pela mediação e gestão do debate. Lançam-se meias-verdades, criam-se títulos sinuosos, levantam-se dúvidas e depois fica-se a ver o circo a arder. Não compreendo como é que os órgãos de comunicação social sustentam a sua presença na Internet desta forma. Cada vez mais condicionados pelo clickbait, seguem o ritmo da «última hora», do imediato e, consequentemente, do descartável. Não há tempo para a investigação e transformam-se afirmações de comentadores em notícia. Na ausência de recursos para a mediação, estes canais não deveriam ser acionados.

É cada vez mais claro que o «espaço público digital» é um espaço concessionado a gigantes privados, cujas regras de funcionamento não são claras para a maioria das pessoas e o controlo dos organismos públicos é ineficiente. Repensar estes espaços é defender a garantia da democracia e a soberania dos estados. Esta é uma luta desigual, que necessitará de uma articulação mundial, em que a União Europeia terá de ter um papel predominante.

Há alguns meses, tomei a consciência de que todos os dias que abria as redes sociais para saber das novidades ficava um pouco mais irritado e menos feliz. Vou tomando consciência dos meus usos e tentando criar o controlo possível para quem vive profissionalmente dependente destas estruturas. Contudo, não podemos desacreditar-nos. É na nossa desesperança que o grande, poderoso e invisível ganha mais força. Não há criação sem esperança e é nela que temos de sustentar as novas redes e novos encontros que darão corpo a um verdadeiro espaço público digital.

A par das pressões das políticas internacionais para a mudança do paradigma, nacional e municipalmente, podemos trabalhar para uma maior consciência do espaço social digital. Há algumas décadas, foram ministrados cursos de curta e média duração para dotar a população de ferramentas básicas de utilização da Internet. Foram programas adaptados a todas as gerações que possibilitaram a expansão de serviços e a gradual transição digital da vida das pessoas. No entanto, a par das competências operacionais, é urgente criar outros planos que fomentem a consciência crítica da utilização em massa destes dispositivos. Deverá ser criado um plano global que crie empatia, coloque em relação e aumente a perceção da utilização destas ferramentas, dos seus benefícios e malefícios. Este plano, à semelhança da primeira grande vaga de formação, deverá ter modelos adaptados aos programas de capacitação escolar, laboral e associativa – um projeto de longa duração, através de uma reflexão crítica resultante de oficinas, debates e campanhas digitais. Para bem-estar de todos e para manutenção das instituições democráticas, é essencial parar, refletir e intervir para fomentar uma vivência democrática da Internet.

-Sobre o Luís Sousa Ferreira-

Formado em design industrial, é o diretor do 23 Milhas e fundador do festival Bons Sons. Não acredita que a cultura em Portugal precise de uma revolução, mas sim de uma mudança de prisma. É o autor da crónica «Disco Riscado» na Revista Gerador.

Texto de Luís Sousa Ferreira
Fotografia de Raul Pinto
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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