Mónica Calle e a Casa Conveniente apresentaram o espetáculo O Escuro que te Ilumina ou as Últimas Sete Palavras de Cristo de 5 a 9 de maio de 2021 na Culturgest[1], Lisboa, e em Almada na Praça da Liberdade em 27 e 28 de maio de 2021.

O espetáculo tem uma génese iniciada em 2019, interrompida pela pandemia da Covid-19, onde se contam três workshops de desenvolvimento que culminaram nestas sete apresentações públicas no espaço exterior.

Recentemente, Calle apresentou uma reformulação dos seus solos no Teatro Municipal S. Luiz em Lisboa, e no Teatro Nacional S. João no Porto[2] e também havia antes realizado uma digressão com o aplaudido Ensaio para uma Cartografia no país e no estrangeiro.

São trabalhos que, no seu formato, estão nos antípodas um do outro: nos solos, o prazer da solidão, todo o espaço contaminado pela força de uma mulher, ao passo que Cartografia e Escuro contêm a pujança do coletivo num elenco partilhado pelas pulsões de muitxs. Solos ou trabalhos num grupo que são, contudo, atravessados por uma forma de fazer arte que se pode caracterizar como tensa e hipnótica.

Com duração aproximada de 2 horas, o espetáculo cruza a dança dos corpos em palco com as últimas palavras de Cristo, através da composição musical de Joseph Haydn. Toma de empréstimo um romance de Direitinho que se verte em quinze atores, profissionais e não profissionais, que se entregam a um compromisso de salvação, abnegação e transcendência.

Como no projeto anterior da companhia, são cruciais os lugares de erro, resistência, superação e potência consubstancial do agir comum, onde se juntam agora a palavra do evangelho numa encruzilhada entre humano e divino.

O corpo não cede ao disfarce da circunstância

Temos quinze intérpretes em cena que tiram e vestem roupas repetidamente, juntando atores profissionais e não profissionais, os segundos oriundos de um workshop específico que antecedeu o espetáculo.

Todos empenham o seu corpo e os seus sentidos, a sua força e a sua fragilidade, numa dança até à exaustão, até esgotar todo o resquício de vigor, renovando-o, até esgotar todo o suor, exalando sempre mais tenacidade e abandono.

Não são disfarce nem encenação fabricados, a dor nos músculos, o frio da noite na pele, o vento nos cabelos e nas árvores. O corpo exausto não finge a sua exaustão consumida no cansaço e na plenitude. A textura do chão, onde o corpo pode cair, é efetivamente o chão; a dor é, em rigor, a dor porque a realidade do corpo, do ambiente e a do espetáculo são uma e a mesma coisa, onde a trama do ficcional também se irá entrelaçar.

O corpo, não ficcional, é justamente onde ocorre o teatro, onde o sofrimento e a esperança têm veículo e lugar. O corpo não é uma figura de retórica, pelo que o corpo é concreto e espacial.

Concreto é também o título, revelador nos seus termos. As gradações de cor e, fundamentalmente, de luz criam uma dramaturgia visual que fazem lembrar uma pintura barroca em movimento, adequada ao motivo religioso também presente, de tal modo que “escuro” e “luz” são carnais, em que uma técnica de sfumato é invocada pelo desenho de luz de Daniel Worm. Entre espírito e matéria, entre desgraça e redenção, uma luz transcendente é produtora de gradações, de arquitetura e de anatomia desvendada.

A dramaturgia da luz surge do fundo do sujeito: o que é que do escuro de cada umx de nós nos deu consolo e amparo? Era a instrução que Calle nos dava num dos workshops que frequentei: com base nas situações de vida que experienciámos, onde existe a paz pelo meio do conflito? Como se transformam os cinzentos nas alegrias? Uma forma de aporia existencial, o fundamento é o amor que nutre a dor. Nos corpos permanece a flama do segredo, da opacidade revelada que existe no âmago da presença dx performer.

E ao fundo forma-se uma muralha

Estou na primeira fila da plateia no anfiteatro ao ar livre, junto ao edifício da Culturgest, majestoso, austero, capital. Aguçamos todos os sentidos da atenção, os detalhes e o todo são uma envolvência rica de texturas.

Talvez uma primeira linha de fronteira, avançam os corpos sobre nós até se tornarem quase bafo quente. Desfilam as várias cenas que desafiam todo o mundo exterior, a pele nua contra a luz, os pés contra o chão, os olhos contra os candeeiros da via pública, a roupa descida contra a música.

Com fascínio, observamos os pormenores de uma mão que se eleva, de um joelho que irrompe, um púbis desaparecido, um pescoço em tensão. Queremos ver tudo na sua impossibilidade simultânea. Diagonais de sensações que percorrem elenco e plateia, numa avidez. Além de testemunha, quero ser mais uma vez participante implicado.

Eu, cúmplice, se estivesse pele com pele com estes corpos, sentiria o calor e a humildade? O que sou eu entre estas pessoas e perante aquelas? O que é, no meu corpo e na minha língua, a redenção?

Inevitavelmente é preciso vencer o frio e o pejo. Sinto a terra nos pés. Sinto o cheiro dos mundos à minha volta. Imagino que estou no meio dos corpos, sinto o toque de trinta ombros, quinze pélvis, sessenta membros, quatro vulvas, trinta joelhos… Tiro e visto cada peça de roupa como sendo uma lembrança específica, uma carícia de outrora, um anseio vindouro. Há um vórtice que suga tudo, parafernália do caos material e sensível. E, num instante, existo na quietude em que me acompanham todxs num abraço extenso. É o frio que todos cobre que dá matéria e justificação ao presente.

Novamente na plateia, de onde nunca saí, aconchego-me ao cachecol e vejo atrizes e atores semidespidos que se encontram e desencontram nos ritmos. Elxs são inteirxs e vivem no evento que se manifesta dentro da ambiência. Há o requinte do pormenor, ou seja, a irrupção do instante, que engrossa o caudal do ambiente – metonímia indivisa e extraordinária.

O exterior é já um acontecimento e onde estas pessoas performam ainda o inaudível. A frase coreográfica trabalhada na fase dos workshops – descalçar, calçar, despir e vestir – surge agora com um novo significado, é atacada por todos os lados nos andamentos musicais e dilacerada pela banalidade do ambiente no sítio público e na noite quase vazia.

O bicho humano e sobre-humano expande-se. Está no poder do telúrico: e o corpo espalma-se e promete-se à terra. Está na congregação do coletivo: e o corpo já não é de si mesmo mas de quem o toma, protege e dispõe. Está no acima: e o corpo transmuta-se em sublime e divino. Nas várias cenas, os corpos procuram-se e rechaçam-se, transbordam alegrias evanescentes ou raivas medulares. São o simbólico assente no deífico e também o desejo da própria carne, ardente, repelente. Os corpos do desejo habitam o entrever, como nos recorda Barthes (1980).

Atentamos o peito em forma de pera, talvez um seio mais descaído, as pilas em bico, circuncidadas ou não, os testículos recolhidos, os púbis aparados, os ventres deliciosos, as coxas em esforço, as virilhas macias, as ancas mais arredondadas e proeminentes, os lábios da vulva rosados ou carnudos, um montículo saliente, todo o arco anatómico que aparece e desaparece. E não deixarão de ser corpos reais e não somente máquinas de exercício físico ou engenharia, ou consumidores de enzimas embaladas. O bicho humano que não se nega, nem nas facetas do sensorial, imaterial ou divino.

Exercícios em estratos

Com uma cronologia que vem desde 2019 e uma cartografia que triangula Chelas, centro de Lisboa e Almada, podemos ainda perceber uma composição neste Escuro feita de estratos. Do lado dos estratos exteriores, teremos, por exemplo, as influências icónicas de Kontakthof (1978, 2000 de Pina Bausch) e de Parades and Changes (1965, de Anna Halprin, junto com Morton Subotnick) que ganhou nova vida com Parades and Changes, Replays (de Anne Collod, junto com Anna Halprin e Morton Subotnick, apresentado na Culturgest[3], em janeiro de 2009).

Se inicialmente veríamos a composição musical de Joseph Haydn como influência externa, esta tornar-se-á, no entanto, um estrato orgânico e definidor deste espetáculo, tanto que serve de complemento ao título. O oratório do compositor austríaco, As Últimas Sete Palavras de Cristo na Cruz (Die sieben letzten Worte unseres Erlösers am Kreuze no original) versa sobre as sete frases proferidos pelo filho de deus antes da sua ascensão, a saber: Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem (Lucas 23, 33-34); Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso (Lucas 23, 39-43); Mulher, eis o teu filho! Eis a tua mãe! (João 19, 26-27); Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? (Mateus 27, 46 e Marcos 15, 34); Tenho sede! (João 19, 28-29); Tudo está consumado (João 19, 30); Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito (Lucas 23, 44-46).

No todo, estas enunciações, que as temos presentes no nosso imaginário, recomendam o perdão, a ascensão espiritual, a confiança uns nos outros, o abandono da dimensão humana, a dádiva e a reunião. Desta forma, estas palavras permitem-se uma leitura ou mais metafísica ou mais social, entendendo quer uma entidade sobrenatural e superior, quer uma força coletiva no âmago do ser humano. Assim, ante a dança profana dos corpos inflada pela graça divina, resistência e fragilidade são âncoras da redenção humana e do mistério inaudito, que este espetáculo convoca e expande.

Em sete andamentos e uma introdução, cada um uma cena, a partitura musical é um jogo com os corpos, contra os corpos ou ainda um ensemble, como um diálogo feito de perguntas e respostas, onde afinal o corpo ganhará um lugar de instrumento. A orquestração global da encenação agita-se num ritmo da agonia, da piedade, da revelação em velocidade crescente ou esbatida prenhe de energia vital, da pulsão dos intérpretes e da carne esvanecente de Cristo.

O mesmo paradoxo entre vida e morte, entre luz e sombra, iremos encontrar no livro de José Riço Direitinho, que dá mote ao conceito global que norteia esta empresa. O Escuro que te Ilumina, o romance de Direitinho, é a primeira referência explícita e um estrato interno inerente ao espetáculo. Aliás, nos workshops ocorridos em 2019 na Casa Conveniente/ Zona Não Vigiada, as temáticas centrais neste texto, a solidão, a sexualidade e a busca do si mesmo, eram linhas de trabalho abordadas.

Tal como nesses workshops, também este espetáculo acumula uma referência, agora dupla: a evocação a Bruno Candé Marques, ator habitual da companhia. Inicialmente, a vida de Candé era um mote na oficina, contudo, Bruno foi assassinado em 25 de julho de 2020 num atentado racista atualmente em julgamento. Por isso, O Escuro que te Ilumina ou as Últimas Sete Palavras de Cristo homenageia o ator e amigo como uma declaração contra o ódio.

O confronto entre treva e clareza resultará neste exercício cruzando o vigor físico, a resistência espiritual e um encontro afetivo. É a capacidade sensível, do toque, da comoção, que une as partes irrepartíveis.

Música, corpo, luz e obstinação são a confirmação das provocações (in)solúveis, que emergem da condição de “real”, permitindo intersectar o quotidiano com a efabulação estética.

Pensar o exterior, praticar no exterior é outra característica definidora do Escuro, possibilidade ainda mais espantosa dadas as restrições pandémicas em curso. No espaço social e nas ruas, o teatro e as suas ramificações unem alicerces que anteriormente não veríamos: um transeunte deslocado à beira do “palco”, um odor do jardim, as luzes dos faróis dos carros a bater nas árvores passam a fazer parte do cenário. E o uno manifesta-se.

Porém, nada nunca está consumado. Do mesmo modo que neste espetáculo espiralado os corpos retomam ao turbilhão, também um projeto como o escuro que te ilumina assenta nas possibilidades do porvir: refazer, redescobrir, uma incessante convicção de Mónica Calle no sentido de montar um percurso. E, em suma, de habitar uma casa.

Um aprimoramento, uma continuidade porque, no fundo, a performance é o que permanece[4]: na partilha dos corpos, nos lugares de identidade, nos modos que nos fazemos e construímos.

Reinventar memória, refazer escrita, relançar sementes, também é este o meu intuito relatando a minha afinidade com este Escuro processual. Na plateia, nas oficinas ou neste exercício de linguagem – com a única exigência de encontrar uma busca pela vitória do menor.

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                                                            Quarto do fundo, 21 de maio de 2021

Querida Mónica,

amanhã escrevo-te uma carta[5], sim? Não vou fazer novamente um exercício com temporalidades a fingir. Já o tempo parece estar além (aquém) do humano.

Um beijo,
António


[1] Cf. Mónica Calle | Culturgest.
[2] Cf. Marques (2020).
[3] Cf. Folha de sala em https://pre2018.culturgest.pt/2009/parades.htm#gsc.tab=0
[4] Cf. Schneider (2011).
[5] Cf. Marques (prelo).

FICHA TÉCNICA
CRIAÇÃO E ENCENAÇÃO
Mónica Calle

MÚSICA
Joseph Haydn

INTERPRETAÇÃO
Tiago Mansilha, Guilherme Barroso, Sofia Dinger, José Miguel Vitorino, Renée Mussenga Vidal, Miguel Ferrão Lopes, Carla Madeira, Carolina Varela, Isac Graça, Pedro Portela, Diogo Oliveira, Rui Dias Monteiro, Miguel Coutinho, Andreia Araujo, Julien Bonnin e ainda, Bruno Candé Marques.

DESENHO DE LUZ
Daniel Worm

FOTOGRAFIA
Rita Carvalho

DIREÇÃO DE PRODUÇÃO
Sérgio Azevedo

PRODUÇÃO
Casa Conveniente / Zona Não Vigiada

COPRODUÇÃO
Culturgest, Câmara Municipal de Almada

APOIO FINANCEIRO
Câmara Municipal de Lisboa

Bibliografia
Barthes, Roland (1980), O Prazer do Texto, Lisboa, Edições 70.
Direitinho, José Riço (2018), O Escuro que te Ilumina, Lisboa, Quetzal Editores.
Schneider, Rebeca (2011), Performing Remains: Art and War in Times of Theatrical Re-enactment, New York, Routledge.
Marques, António Figueiredo (2020), Corpos entrevisto, ou como recomeçar, texto do Programa de Sala do Ciclo Este é o Meu Corpo de Mónica Calle, Teatro Nacional São João, Porto. http://bitly.ws/dYpW
Marques, António Figueiredo (prelo), “Carta-performance: pensamento artístico e mise-en-scène enunciativa”, Sinais de Cena, Lisboa, Orfeu Negro.

-Sobre António Figueiredo Marques-

António Figueiredo Marques: sou investigador (Performance & Cognição: ICNOVA – FCSH-UNL) e doutorando em Comunicação e Artes. Reflito e escrevo na área dos Estudos de performance e comunicação, com interesse em intermedialidade, dramaturgias, linguagem e narratividade.
Sou redator e coeditor da CRATERA, site do grupo P&C. Membro da ESTAP desde 2019.
Enquanto performer destaco as formações com Tiago Vieira, Miguel Moreira, Mónica Calle, Renato Ferracini (Lume Teatro, BR) e Yael Karavan (UK).

Texto de António Figueiredo Marques
Fotografias de Rita Carvalho
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