No mês em que se assinala o Dia Internacional da Mulher (8 de março), é impossível não refletirmos sobre o papel da dança como uma poderosa ferramenta de ativismo pela igualdade de género. Numa área artística predominantemente estereotipada como feminina, há, todavia, uma disparidade quando olhamos para os cargos de liderança do setor, com uma maioria de diretores artísticos do sexo masculino. Quem nos alerta é a plataforma norte-americana Dance Data Project, que nos mostra que há ainda muito trabalho a ser feito. No entanto, temos também muito para celebrar neste mês da mulher - a história da dança moderna está repleta de grandes coreógrafas que usaram o palco como um local de reflexão e discussão, quebrando barreiras e perceções do corpo feminino - tradicionalmente visto como frágil e imaculado no ballet clássico na viragem do século XX. Caminhando lado a lado com diferentes movimentos e vagas feministas, a história da dança contemporânea cruza-se, inevitavelmente, com igualdade de género e o que significa ser mulher, sobretudo numa arte que comunica com o corpo.

Nos finais do século XIX, enquanto na voz de Elizabeth Cady Stanton amplificava a primeira vaga feminista, que apelava  à necessidade da mulher tomar controlo sobre a sua própria vida e funções na sociedade, como o direito ao voto, o ballet europeu ganhava cada vez mais popularidade do outro lado do Atlântico, afirmando-se como o principal estilo de dança a uma escala global. Nessa altura, a dança era maioritariamente recreativa e praticada para fins de exercício físico ou sociais, como era o caso das danças de salão. Porém, foi precisamente nesse contexto que surge uma das grandes figuras que mudou para sempre a história da dança: Isadora Duncan. Considerada por muitos como a “mãe” da dança moderna, Duncan desconstruiu a imagem do ballet clássico ao explorar um movimento livre, onde a fluidez de movimentos e a corrida estavam fortemente presentes. Embora fortemente criticada no seu tempo, os seus figurinos e conceitos de movimento, inspirados pela mitologia Grega, enalteciam uma figura feminina que queria desprender-se de antigos padrões e trazer uma nova cena cultural.

Ainda na América da primeira vaga feminista, há um outro nome incontornável da dança moderna, Martha Graham. Apesar de nunca se ter intitulado feminista, o seu trabalho colocava (e ainda coloca) frequentemente a mulher como o centro da narrativa. Martha Graham opôs-se também aos padrões tradicionais do ballet e à sua estética, que enfatizava uma figura irreal do corpo feminino. Em vez disso, desenvolveu um corpo feminino vigoroso, forte. O seu repertório está cheio de personagens femininas que experienciam uma conexão poderosa com a sua própria natureza através da energia das contrações, um movimento revolucionário que conecta o ser humano com a sua própria fisicalidade. Nas suas últimas peças, houve uma priorização da beleza da forma humana, independente do seu género. Tal como Graham, a coreógrafa expressionista Mary Wigman emancipou o corpo feminino do género binário, distanciando-se do conceito homem/mulher e levando a palco um corpo feminino liberto que se liberta das representações de género. 

As primeiras décadas do século XX foram marcadas por novos artistas que desenvolveram novas formas de movimento e de criação artística. Contrastando com esta atmosfera de experimentação e inovação, os movimentos feministas passavam então por vários altos e baixos, chegando à década de 1960 com dúvidas sobre a “revolução sexual” e o seu verdadeiro impacto. Impulsionada por essa dúvida, surgia então a segunda vaga feminista. Ao mesmo tempo, a Judson Memorial Church em Nova Iorque abria as suas portas para um coletivo de artistas que rejeitavam os padrões recentemente desenvolvidos na dança moderna. A Judson Dance Theatre baseava-se no experimentalismo e improvisação, reunindo Lucinda Childs, Trisha Brown e Yvonne Rainer. Em comum, tinham a vontade de mudar a forma como o corpo da mulher era visto e objetificado. Inspiradas por esta ideia, estas três artistas redefiniram a noção de performance, dando maior valor ao lado conceptual - tendência que se foi afirmando nas décadas seguintes. Na Europa, a icónica Pina Bausch tornava-se também uma das figuras mais arrojadas do mundo da dança. O feminismo carimbado no seu trabalho era real e visceral, onde a mulher está constantemente numa dualidade entre as representações sociais e a sua própria natureza. Pina foi dos grandes nomes da terceira vaga feminista do final dos anos 80, embora não tenha sido a única. A canadiana Marie Chouinard é ainda outro nome a destacar. Apesar de o seu trabalho muitas vezes não ser considerado dança, mas sim ‘body art’ ou ‘performance art’, foi uma artista que explorou como ninguém questões relacionadas com a mulher, nomeadamente sexualidade e género. Marie é provocadora, controversa em palco, trazendo um corpo de género não-binário que se focava primariamente nos impulsos internos do corpo, e não numa figura masculina ou feminina.

Chegando ao novo século e a uma quarta vaga feminista, bastante influenciada pelo universo digital, o feminismo é levado a palco inspirado nas ideias de identidade de género, discriminação e abuso. A luta pela igualdade de género inspirou, inspira e, certamente inspirará a criação coreográfica, que levanta essas questões usando a ferramenta mais poderosa: o corpo.

Em Portugal

São também várias as coreógrafas que redefiniram a dança contemporânea no nosso país. E foram precisamente algumas delas que serviram de mote para a edição de 2020 do festival GUIdance, em Guimarães, que deu destaque a alguns dos grandes nomes femininos da dança nacional, como é o caso de Vera Mantero, Tânia Carvalho e Marlene Monteiro Freitas.

-Sobre Inês Carvalho-

Inês é bailarina e professora, gestora de comunicação cultural e escreve regularmente sobre o que mais gosta: dança. A mente inquieta levou-a a criar a agência de comunicação Diagonal Dance. O corpo inquieto levou-a a dividir o seu tempo entre Portugal e o Reino Unido.

Texto de Inês Carvalho
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