Ao longo das últimas duas décadas, o papel da educação artística no desenvolvimento de competências de crianças e jovens tem ganho relevância um pouco por toda a Europa. A sensibilidade cultural e criativa representa cada vez mais uma prioridade no contexto educativo e, por isso, não é de admirar que a dança seja uma atividade que tem vindo a ser incluída em currículos educativos. Mesmo que maioritariamente presente como atividade extracurricular, países como a Alemanha, Grécia, Reino Unido e Portugal já incluíram oficialmente a dança nos programas académicos - embora integrada na disciplina de Educação Física. Por cá, surge apenas no ensino básico e secundário, contrariamente aos restantes, onde está presente desde o primeiro ciclo. É, por esta razão, inevitável levantar a seguinte questão: por que não começar mais cedo?

A dança na infância traz inúmeros benefícios que vão muito além de impulsionar a prática de atividade física. Mais do que potencializar a consciência corporal e rítmica, a dança permite às crianças explorarem ao máximo a sua criatividade, já que usa a linguagem corporal para comunicar. Utilizar uma comunicação não-verbal permite descobrir emoções e sensações que não podem ser representadas em palavras. A dança desenvolve, ainda, uma maior consciência de multiculturalidade, por se focar primariamente em algo que todos temos em comum: o nosso corpo. Vários estudos apontam também para o desenvolvimento de auto-estima, auto-confiança ou até socialização entre as crianças que praticam dança regularmente.

Dançar em contexto escolar permite uma fuga ao tradicional ambiente de sala de aula, criando um momento de descoberta e novas possibilidades em termos de mobilidade, memória e superação de desafios, sejam eles motores ou cognitivos. A educação psicomotora é defendida por vários académicos, sobretudo na educação pré-escolar e primeiro ciclo do ensino básico, pois permite que as crianças aprendam desde cedo a tomar consciência do seu corpo, a situarem-se no espaço, a adquirir coordenação e criatividade. São precisamente estes os princípios que constituem a base de uma aula de dança para crianças, que explora sobretudo a energia, a autonomia, o movimento criativo e o desenvolvimento de vários estímulos, como o tátil, visual ou auditivo.

O estilo de dança praticado não é, de todo, o critério mais relevante. O importante é mover. Combinando a prática artística e motora, a dança é capaz de enriquecer o currículo escolar e contribuir para o desenvolvimento de crianças e jovens mais conscientes de si e dos outros, que superam desafios e aprendem a explorar novas ferramentas criativas. Por todas as razões apresentadas, a resposta à pergunta inicial é óbvia e necessária: sim, devemos começar a incluir a dança no currículo escolar mais cedo.

-Sobre Inês Carvalho-

Inês é bailarina e professora, gestora de comunicação cultural e escreve regularmente sobre o que mais gosta: dança. A mente inquieta levou-a a criar a agência de comunicação Diagonal Dance. O corpo inquieto levou-a a dividir o seu tempo entre Portugal e o Reino Unido.

Texto de Inês Carvalho
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