Hoje celebram-se 47 anos desde a Revolução dos Cravos, uma data que trouxe a democracia, a liberdade de expressão e, consequentemente, o crescimento da dança em Portugal. Se durante o regime do Estado Novo tínhamos um público tímido, que pouco ou nada contactava com espetáculos de dança, as décadas de democracia que se seguiram foram consumando a forte vontade em criar, redefinir e expandir o setor da dança nacional e acompanhar as fervilhantes tendências de movimento que se afirmavam nos Estados Unidos e por vários países da Europa.

Dançar é (e deve ser) um ato político. Como meio primordial de comunicação, há no corpo a possibilidade de questionar, repensar e agir em sociedade. Nos anos que antecederam o 25 de abril, o corpo e o movimento estavam, porém, longe desse seu propósito. Tal como nos diz Dora Silva da Fonseca no artigo “O Processo Criativo na Nova Dança Portuguesa”, a história da dança em apresentações ao público é relativamente recente, com um baixo fluxo de produção artística em contraste com restantes países europeus onde, ao longo do século XX, emergiam artistas que se inspiravam em nomes como Martha Graham, Mary Wigman ou Rudolf von Laban para redesenhar a estética da dança moderna.

Por cá, víamos surgir a primeira companhia de dança nacional somente em 1940, a Verde Gaio, impulsionada por António Ferro e alinhada com a política cultural estabelecida pelo Secretariado de Propaganda Nacional. Inspirado pelos espetáculos em Portugal dos Ballets Russes de Diaghilev, Ferro apoiou a criação da Verde Gaio, dirigida então por Francis Graça, numa simbólica fusão entre a política e a arte. O Balé Verde Gaio, ou o Grupo de Bailados Portugueses Verde-Gaio, tinha no folclore a base do seu repertório e começou a intensificar as suas apresentações ao público na década de 1950. Nesse mesmo período, algumas companhias estrangeiras apresentavam-se pontualmente em Lisboa, como é o caso do Sadler’s Wells Ballet, ou a companhia de José Limón. A programação de dança não era prioritária e o público estava pouco orientado a receber esta expressão artística. No entanto, é nesta atmosfera que vários bailarinos começam a desenvolver a sua atividade, culminando na criação do Ballet Gulbenkian em 1961 - a grande companhia de dança portuguesa do século XX.  

Com a queda do regime ditatorial e a construção da democracia em Portugal, assistimos também ao surgimento da Companhia Nacional de Bailado, em 1977, num período de um intenso desenvolvimento cultural. Havia a vontade, a estrutura (e a liberdade) de criar novas estéticas e um novo repertório. A dança tomava novas linguagens performativas, desde o ballet à dança contemporânea. Houve também uma aproximação entre a dança e o teatro, dando espaço a novas representações em palco.

É neste ambiente de expansão criativa que, acompanhando o crescimento das companhias de dança, vários artistas independentes encontram espaço para desenvolverem as suas práticas. Nascia então a Nova Dança Portuguesa, inspirada pela Nova Dança europeia e pelas suas possibilidades em termos de exploração conceptual, criação de movimento e em olhar o corpo em palco de novas formas. Na década de 1980, vários bailarinos portugueses regressavam a Portugal depois de terem saído para estudar no estrangeiro, e traziam novas práticas, conceitos e abordagens. Da mesma forma, vários artistas estrangeiros fixavam-se no nosso país, estabelecendo uma dinâmica de maior abertura e troca de conhecimentos.

Sendo a dança contemporânea um motor de quebra do tradicional e da norma, os grandes nomes da Nova Dança portuguesa contribuíram para a diversidade do panorama artístico, expandindo ao mesmo tempo a dança para outros pontos do país e atenuando gradualmente a centralização em Lisboa. Nomes como Paula Massano, Paulo Ribeiro, João Fiadeiro, Vera Mantero, Madalena Victorino ou Francisco Camacho.

Embora o desenvolvimento da dança em Portugal tenha sido tardio, correu a passos largos nos últimos anos do século XX para acompanhar um cenário europeu de dança contemporânea onde coexistem companhias de dança e artistas independentes. Com uma gradual aproximação da dança ao teatro, a dança portuguesa é, hoje em dia, plural. Se hoje celebramos o 25 de abril de 1974 e a democracia, lembramo-nos que ela nos deu o que temos hoje: a liberdade em pensar e agir coletivamente. E a dança fez, faz e fará questão de honrar esse legado.

-Sobre Inês Carvalho-

Inês é bailarina e professora, gestora de comunicação cultural e escreve regularmente sobre o que mais gosta: dança. A mente inquieta levou-a a criar a agência de comunicação Diagonal Dance. O corpo inquieto levou-a a dividir o seu tempo entre Portugal e o Reino Unido.

Texto de Inês Carvalho
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