Qual é o papel da dançaterapia no nosso bem-estar emocional? Podemos tratar da nossa saúde mental através do movimento? No mês em que se celebra o Dia Mundial da Saúde Mental (10 de outubro), olhamos para o papel desta prática e a sua evolução em Portugal.  

Entro no Pequeno Auditório do Teatro Rivoli, no Porto. No backstage o nervosismo é crescente. Falta pouco para a estreia, é hoje. Seis meses depois da primeira sessão de dança na Unidade de Psiquiatria do Centro Hospitalar de São João, o nosso grupo do projeto ‘Movimente’ sobe ao palco pela primeira vez. Sim, ao palco, esse monstro que nos engole entre a escuridão da plateia e as luzes dos projetores. E se não conseguirmos? E se nos esquecermos da coreografia? O medo toma conta da respiração, anestesia o corpo… Não consegue a nossa mente ser o maior de todos os monstros? O público começa a entrar e trocam-se os últimos olhares por entre os rompimentos. Estamos prontos. Começamos a dançar e em cada movimento respiramos mais fundo, o coração palpita menos. Estamos completamente entregues ao nosso corpo e a este momento. Os aplausos da plateia validam a sensação de dever cumprido, não pelo espetáculo terminado, mas sim por todo o processo — por termos deixado a dançaterapia entrar no nosso caminho.

Rita Fortuna, terapeuta ocupacional do Centro Hospitalar de São João, também subiu pela primeira vez ao palco para acompanhar o grupo. E para ela também não restam dúvidas, a dança é um ótimo veículo para uma intervenção eficaz na saúde mental de um indivíduo: “quando esta forma artística é usada num contexto terapêutico, promove as competências cognitivas, emocionais e físicas e a integração social através do envolvimento criativo do indivíduo. Há um sentimento de presença e identidade de grupo, a aceitação social, o aumento da autoestima e diminuição da ansiedade. Estes são alguns aspetos trabalhados através da expressão corporal e da criação artística em torno do movimento, do corpo e da música”.

Mas há, de facto, um poder terapêutico na dança? A própria história da humanidade sugere-nos que sim. Ao longo de milhares de anos, a dança é utilizada em rituais para cura de doenças, celebrações de nascimentos ou até em cerimónias fúnebres. Esta capacidade de traduzir as nossas emoções mais viscerais traz ao movimento um importante papel na compreensão dos nossos sentimentos e, consequentemente, da nossa mente. Foi precisamente esta ideia que, na primeira metade do século XX, inspirou a norte-americana e pioneira da dançaterapia Mary Whitehouse a olhar a dança de uma nova forma: não somente como uma expressão artística recreativa, mas como uma atividade capaz de contribuir positivamente para a saúde mental dos seus praticantes. Através da interação do corpo e da mente, era então possível explorar em detalhe a personalidade de um indivíduo, levando-o por uma jornada de autoconhecimento e cura. O corpo passa então a ser visto como uma importante ferramenta, quando combinado com a Psicologia e Psiquiatria. Os resultados dos primeiros tratamentos de dançaterapia levaram a que, nos anos cinquenta, recebesse o estatuto profissional nos Estados Unidos, culminando na criação da American Dance Therapy Association, em 1966.

Deste lado do Atlântico, o estatuto da dançaterapia não está (ainda) estabelecido da mesma forma em todos os países, com algumas nações europeias a reconhecerem e validarem mais esta prática do que outras. Por cá, existe também a Associação Europeia de Dança Movimento Terapia, com membros em países como Alemanha, Grécia, Espanha, Reino Unido, Holanda, Polónia, Rússia ou Itália. Em Portugal, há somente uma organização que integra esta associação – a Associação Portuguesa de Dança Movimento Terapia (PRAIA APMD), que disponibiliza recursos e desenvolvimento profissional neste campo. No entanto, a falta de uma formação académica atrasa o crescimento da dançaterapia no nosso país. Com um único mestrado na área (na Universidade Autónoma de Lisboa) suspenso em 2007, a maioria dos profissionais em Portugal concluíram a sua formação no estrangeiro. Mas este caminhar lento da dançaterapia em Portugal não é, de todo, hesitante ou preguiçoso — cada passo é impactante e são já muitos os projetos que se têm vindo a desenvolver desde o início dos anos 2000, altura em que se iniciou o primeiro projeto de dança movimento terapia no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. Atualmente, são vários os terapeutas espalhados de norte a sul e tem-se vindo a intensificar o número de workshops e formações nesta área, que é também várias vezes combinada com outras vertentes da arteterapia, como é o caso da pintura ou da música.

O processo é chave no método da dança movimento terapia. Embora vários projetos culminem em apresentações públicas, é no estúdio que o tratamento acontece. As sessões têm como principal objetivo captar a linguagem não-verbal de cada indivíduo e encontrar o significado por detrás de cada movimento. Desta forma, o terapeuta é capaz de mergulhar no inconsciente de cada praticante, ajudando-o a tornar esse fluxo de informação consciente, de forma a ser identificado e verbalizado. Baseando-se nos avanços constantes nas áreas da Psicologia e Psiquiatria, comunicação não verbal e neurociências, o movimento torna-se na porta de entrada para a nossa mente. Para tal acontecer, é fundamental a criação de um espaço seguro, que vai além do movimento – a questão da socialização assume também um papel fundamental, havendo espaço para conversa e para convívio. Embora uma sessão de dançaterapia obedeça a alguns princípios comuns, como os exercícios de improvisação, o processo de cada praticante é bastante individual, o que pode levar a um receio inicial em abraçar esta jornada de descoberta. No entanto, os resultados não enganam – é uma jornada que melhora drasticamente a nossa saúde mental, dando-nos uma maior capacidade de socialização, maior autoconfiança e memória, consciência corporal e capacidade de relaxamento.

Apesar dos avanços da dançaterapia em Portugal, há ainda quem olhe para a dança como meramente recreativa, não lhe atribuindo qualquer potencialidade terapêutica. Porém, os resultados falam por si: o impacto positivo do movimento pode ajudar a reencontrarmo-nos através do nosso corpo, numa era em que nunca se falou tanto na importância de preservarmos a nossa saúde mental. Num mundo que nos afasta constantemente do nosso corpo (e da nossa espiritualidade), a dançaterapia permite-nos voltarmos a ele para voltarmos a nós. E essa é, sem dúvida, a cura de que precisamos.

-Sobre Inês Carvalho-

Inês é bailarina e professora, gestora de comunicação cultural e escreve regularmente sobre o que mais gosta: dança. A mente inquieta levou-a a criar a agência de comunicação Diagonal Dance. O corpo inquieto levou-a a dividir o seu tempo entre Portugal e o Reino Unido.

Texto de Inês Carvalho
gerador-entre-movimentos