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Entre Movimentos: Entrevista a Hugo Marmelada

Foi num espetáculo do pavilhão francês da Expo98 que Hugo Marmelada descobriu a sua paixão pela dança, um amor que o levou aos quatro cantos do mundo como bailarino de grandes companhias como It Dansa (Espanha), Bounce Streetdance Company (Suécia), Carte Blanche (Noruega) ou a famosa Batsheva Dance Company (Israel). Em 2012, conquistou ainda o segundo lugar do prémio ‘Melhor Performance’ e o prémio do público no Festival Internacional de Solos de Estugarda, com uma peça da sua autoria. Tudo isto sem nunca deixar de entrar numa boa battle de hip-hop. A sua versatilidade estende-se também para fora do palco: atualmente de volta a Portugal, tem-se redescoberto como coreógrafo, intérprete, professor e curador do Festival Solo(s) na MONO Lisboa. Estivemos à conversa com o Hugo para saber mais sobre a sua completa carreira, assim como a sua experiência como professor de Gaga — método de movimento do célebre coreógrafo Ohad Naharin.

"When Monday Came" choreography of Ina Christel Johannessen
Photo by Yaniv Cohen

Gerador: Começaste o teu percurso nas danças urbanas. O que te fez começar a dançar?

Hugo Marmelada: Olhando para trás, houve uma figura com um papel importante no meu percurso: a minha mãe. Ela queria ser bailarina e, na altura, não teve o apoio dos pais. Por isso, depois de terminar os estudos, esteve sempre envolvida no mundo da dança — o que me levou a contactar com a dança desde muito cedo. Mas o momento que realmente me despertou a vontade de dançar foi quando fui à Expo 98, com 11 anos, e vi um espetáculo de hip-hop no pavilhão francês. Eu tinha o passe de acesso de 15 dias e então voltei a ver esse espetáculo várias vezes... Cheguei até a falar com os artistas! Foi a partir daí que decidi que também queria dançar e desenvolvi um forte interesse pela cultura hip-hop. Embora naquela altura não houvesse tanto acesso à informação e Internet para pesquisar, consegui encontrar aulas de danças urbanas e, aos 14 anos, comecei a estudar na Academia de Dança Contemporânea de Setúbal, com maior foco no clássico e contemporâneo. Foi assim que tudo começou.

Aos 16, ganhei a competição europeia ‘MTV Shakedown’ e participei num videoclipe do Usher, do tema “Yeah”. Nessa altura, comecei também a dar aulas de hip-hop e a receber convites para participar em convenções, para dar workshops, tive oportunidades de trabalho de norte a sul do país, também em projetos de dança contemporânea, óperas, trabalhos comerciais... Tanta coisa! Tinha, de facto, muitos projetos, mas não estava a conseguir conquistar o meu maior objetivo: entrar numa companhia de dança. Queria ter um trabalho regular, com menos instabilidade. Menos precário. Decidi que estava farto e que queria mudar de carreira. Então, aos 21, começo a estudar design gráfico — o que acabou por ser uma experiência superinteressante e enriquecedora, já que sempre gostei também da parte visual da cultura hip-hop: os graffitis, o design de moda, o estilo criativo dos videoclipes. Mas essa fase fez-me perceber que não conseguia estar oito horas por dia em frente a um computador, que o caminho não podia ser por aí — que tinha de ser na dança! Desviei-me da dança para voltar a ela ainda com mais força e vontade. Foi bom perceber o porquê de querer voltar, que era mesmo aquilo que eu queria. Então, voltei, e felizmente muitos novos projetos chegaram.

G: Olhando para o teu trajeto, quais são as maiores qualidades artísticas que recebeste do teu background em danças urbanas?

HM:  Sem dúvida que, a um nível mais técnico, foi a capacidade de executar tantos isolamentos no corpo. A forma como tenta segmentar o movimento, explorar novas formas e dinâmicas, torna o hip-hop num estilo muito original. Aliás, a ideia de originalidade está muito presente na cultura hip-hop. No clássico ou moderno, sentimos, por vezes, que temos de ser iguais aos outros, enquanto que no hip-hop tu podes — aliás, deves ser quem tu és, deves ser original.

Além disso, o sentido de comunidade, porque acho que a comunidade do hip-hop é talvez a mais unida. Quando fazia projetos no estrangeiro, a primeira coisa que fazia quando chegava a uma nova cidade era descobrir onde estava o pessoal do hip-hop. De alguma forma, era muito mais fácil para mim conectar-me com as pessoas do hip-hop do que propriamente com algumas pessoas com quem trabalhava em projetos. Porque é uma cultura que acolhe quem gosta de dançar e é criativo. Claro que há também quem não tenha esta atitude, mas pelo menos eu tive sempre sorte de me sentir incluído e nunca empurrado para fora.

G: Cada vez mais as danças urbanas fazem parte do vocabulário da dança contemporânea. Pensas que é algo já bem estabelecido ou há ainda trabalho a fazer no que toca a aceitar e utilizar as danças urbanas em dança contemporânea?

HM: A cena incrível do hip-hop é que desafia constantemente as capacidades físicas, o que penso que acabou por inspirar outros estilos de dança a usarem as danças urbanas. E acho que é isso que define o que é dança contemporânea de hoje em dia, com vários estilos. Mas acho que devemos sempre perceber de onde é que estes estilos vêm, qual é a história, o contexto cultural que está por detrás. Sem cair em apropriação cultural ou do movimento — o que acontece quando não há contexto, quando não há razão para utilizar um estilo de movimento, quando não há um trabalho por detrás disso. Eu acho que isso é muito, muito importante. Estamos numa fase em que precisamos de ter esse cuidado. Não é simplesmente adotar uma determinada estética de movimento, porque o contexto vai muito além dele. O hip-hop tem um historial de minoria, de revolução. É importante que esse contexto não seja esquecido.

"When Monday Came" choreography of Ina Christel Johannessen
Photo by Yaniv Cohen

G: Estiveste em várias companhias internacionais, inclusive na famosa Batsheva Dance Company. Como foi essa experiência?

HM: Depois de ter recomeçado a minha carreira profissional aos 21, aceitei um projeto na Suécia — o meu primeiro trabalho com o Ohad Naharin, diretor artístico da Batsheva. Foi um projeto de seis meses onde fizemos uma tour pela Suécia com mais de sessenta espetáculos. A partir dessa altura, tornou-se um sonho entrar para a companhia. Mas o tempo foi passando, aceitei outros desafios e pensei que era algo que já nunca iria acontecer. Tinha, então 30 anos, e estava na Noruega como freelancer, depois de três anos na Carte Blanche. Foi aí que recebi um convite para me juntar à Batsheva Dance Company e mudar-me para Israel.

Claro que não podia recusar esta oportunidade, acho que se o fizesse não ia ficar contente comigo mesmo. Então fui e estive lá dois anos e entrei nas peças “Venezuela”, “Last Work”, “Hora”, “Mamootot”, “The Hole” e também na criação da Marlene Monteiro Freitas para a Batsheva, “Canine Jaunâtre 3”.

Uma coisa que eu gostei muito desta experiência — e que gosto no trabalho da Batsheva — é a quebra do convencional, sobretudo em relação à relação público-espetáculo. Repensa-se a disposição do público em relação aos artistas, de como é que a dança pode ser apresentada.

G: Para o público que não está tão familiarizado com o trabalho da Batsheva Dance Company e do coreógrafo Ohad Naharin, consegues resumir brevemente em que consiste o movimento Gaga?

HM: Para mim, Gaga é uma oportunidade de conectar com o corpo, de explorar as suas capacidades e os seus limites. Mas fazê-lo em ligação com o cérebro. Portanto, é a conexão do meu corpo com a minha capacidade mental de imaginar, de me focar ou de me deixar levar por uma sensação. É uma constante pesquisa de como é que o “eu” interage com esta máquina que é o corpo. É tentar redescobrir o corpo a cada dia, porque cada dia somos diferentes. Como é que eu estou com o meu corpo mesmo quando eu não me quero mover? Como é que eu me conecto com a dificuldade em sentir? Por isso, para mim Gaga é incrível porque permite uma constante pesquisa e descoberta.

G: Qual o impacto que Gaga tem tido em democratizar a dança fora do palco? Sobretudo Gaga/people.

HM: Em Gaga/people, pessoas de qualquer idade a partir dos dezasseis anos, com experiência ou sem experiência em dança, reúnem-se em conjunto, o que cria uma atmosfera fantástica e única, pois talvez de outra forma estas pessoas não se cruzariam. Apesar de Gaga/people ser direcionada para um público geral, para bailarinos profissionais pode também ser uma oportunidade de interagir com a dança e sentir o corpo de uma forma diferente em relação às sessões de Gaga/dancers, que são destinadas a bailarinos com formação. 


Como a ideia de Gaga é a exploração do nosso corpo para não ficarmos sedentários nele, é uma ótima forma de desbloquear e redescobrir o corpo. E toda a gente tem acesso a isso em Gaga/people, o que é super interessante, porque nós todos temos um corpo a descobrir, que é diferente a cada dia, não apenas para os bailarinos.

G: Estás a ensinar Gaga em Portugal. Como é que os portugueses têm recebido esta nova linguagem de movimento?

HM: Muito bem! Tem sido maravilhoso ver a diversidade de pessoas nas aulas. Já tive uma grávida, pessoas com mais de sessenta anos... É tão bom ver como as ideias que são lançadas por mim são depois respondidas de formas diferentes nestes corpos, à maneira de cada um, com a sua própria interpretação. As aulas não impõem qualquer pressão, pois não têm que corresponder a um determinado padrão ou técnica. Talvez em Gaga/people pensemos mais no porquê de dançarmos e qual é o genuíno prazer de o fazer.

Neste momento, estou a dar aulas às segundas-feiras na MONO Lisboa. Tem havido também pedidos para que dê aulas de Gaga/dancers, mas neste momento tenho dado prioridade às aulas de Gaga/people regulares, pois acho que nestas sessões um bailarino profissional também pode desenvolver as suas capacidades. E é ótimo ver esta sinergia de bailarinos e não-bailarinos nestas aulas de Gaga/people, estão no mesmo espaço a partilhar esta experiência, o que pode ser inspirador para os dois grupos.

Recentemente, fui também convidado pelo Victor Hugo Pontes para dar aulas de Gaga no Estágio de Dança de Aveiro.

G: No regresso a Portugal, sentiste alguma diferença na dança nacional comparativamente a quando saíste?  

HM: Quando comecei a minha carreira profissional, tinha que fazer audições com dança clássica. O facto de ser do hip-hop não era uma vantagem. Para conseguir os trabalhos em dança, tinha que ter técnica clássica, o que nunca foi o meu maior forte. Depois destes anos, é mesmo interessante ver como estas barreiras foram sendo destruídas. Temos atualmente por exemplo, o Marco da Silva Ferreira, que vem das danças urbanas, o próprio Victor Hugo Pontes que usa B-Boys... É ótimo ver a diversidade que temos agora em Portugal, no que toca à dança apresentada em palco. É tão bonito ver, por exemplo, a Marlene Monteiro Freitas e outros tantos a dar cartas internacionalmente. Felizmente, temos organizações como os estúdios Victor Cordón e outras que estão a fazer  preços mais acessíveis para que bailarinos freelancers possam manter a sua forma física.

Estas são todas as diferenças que encontro em Portugal agora. Mas relembro que vivi 8 anos no estrangeiro e que ainda estou a descobrir a atividade artística em Portugal. O que se mantém igual, infelizmente, é a precariedade. Eu acho que é triste o facto de não ser nada fácil ser artista em Portugal. Parece que temos de ser contabilistas, produtores, videógrafos e muito mais para conseguir ser artista.

G: Como é a comunidade de dança em Portugal? E como é que a dança em Portugal é olhada lá fora? 

HM: Mais uma vez, o maior problema da comunidade da dança em Portugal é a precariedade. É preciso ter uma estrutura que funcione para se fazer o trabalho, não só cá mas também internacionalmente. Para podermos ir ao estrangeiro, temos que sobreviver no nosso país - e todos os que têm conseguido fomentar o seu trabalho em Portugal têm sido reconhecidos no estrangeiro. Acho que os artistas portugueses têm um grande potencial artístico e somos bastante reconhecidos no estrangeiro. No entanto, tendo em conta as dificuldades que existem de acesso ao apoio financeiro torna-se complicado o desenvolvimento e crescimento dos nossos trabalhos artísticos.

-Sobre Inês Carvalho-

Inês é bailarina e professora, gestora de comunicação cultural e escreve regularmente sobre o que mais gosta: dança. A mente inquieta levou-a a criar a agência de comunicação Diagonal Dance. O corpo inquieto levou-a a dividir o seu tempo entre Portugal e o Reino Unido.

Texto de Inês Carvalho
Fotografias de Tiago Lopes
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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