Improvisação. Uma palavra (e um movimento) que nos possibilita tanta libertação, mas que nos assusta assim que a ouvimos pela primeira vez. Recordo-me de quando a minha professora de dança me pediu para improvisar ao som de uma música: tinha oito anos, estava sozinha no centro da sala, nunca tinha improvisado e só conseguia pensar em como não sabia por onde começar. A improvisação dá-nos uma total liberdade que, em simultâneo, nos pode facilmente afastar da nossa zona de conforto, embora seja nessa zona que nos reencontramos com a nossa criatividade e com a nossa essência. Descobri-me através da improvisação, naquele dia, quase há vinte anos. Até ao dia de hoje, é para mim uma poderosa ferramenta que permite escutar o meu corpo e silenciar a mente. A improvisação é uma janela aberta para o meu interior.

Utilizada para inúmeras finalidades, desde a terapêutica ao lazer, a improvisação é uma técnica que explora o movimento espontâneo. Pode ser usada em qualquer idade ou nível: quer no ponto de partida para uma coreografia, quer como aquecimento no início de uma aula. A prática da improvisação emerge nas décadas de 1960 e 1970, quando vários artistas sentiam a necessidade de quebrar com os padrões convencionais da Dança Moderna da primeira metade do século XX. Vários coreógrafos e bailarinos dessa época inspiraram-se em movimentos do quotidiano, como caminhar na rua, para criarem performances únicas, que nunca se repetiam da mesma forma. Foi ainda nesse período que surge a célebre técnica Contacto-Improvisação, criada por Steve Paxton, que explora a conexão de um corpo em relação a outro através de partilha e troca de peso, toque e consciência corporal.

Muitos coreógrafos utilizam a improvisação como ponto de partida da criação artística, como forma de permitir que surjam novos movimentos além dos padrões habituais. A improvisação atende também à individualidade e à possibilidade de tornar bailarinos em co-criadores, contribuindo ativamente com a sua criatividade. Na maior parte das vezes, os movimentos desenham-se em redor de uma ideia geral, de um ponto de inspiração. A partir dos resultados, os coreógrafos organizam os movimentos, introduzem variações ou repetições, e estruturam as suas coreografias.

Quando improvisamos, autorizamos que todo o nosso corpo e mente estejam dedicados ao desafio. Ao invés de um movimento robótico de repetição, os movimentos surgem dentro de nós. Não ativamos apenas a nossa estamina e músculos, mas focamos ainda a nossa atividade cerebral para nos concentrarmos no momento presente. De facto, um dos maiores benefícios desta técnica é o seu potencial meditativo. Improvisar como ferramenta de meditação não exige nada mais além de foco. Silenciando o autojulgamento e as inseguranças que possam surgir, o nosso interior abre-se por completo através dos movimentos que vão surgindo, um atrás do outro. No final de uma sessão de improvisação, a generalidade dos participantes sente-se mais relaxado, com a energia renovada e mais confiante em encarar os desafios do dia-a-dia. O maior benefício da improvisação é, sem dúvida, a conexão que impulsiona - com nós próprios e com os outros. Deixando as expectativas para trás e permitindo dar lugar à criatividade, conectamo-nos mais profundamente com um estado de calma e exploração, ligando-nos ao outro através da nossa expressão corporal.

Quando somos membros de uma plateia, esquecemo-nos muitas vezes que o espetáculo que estamos a ver pode ter surgido a partir do trabalho de improvisação. Há, por parte dos intérpretes, um compromisso em aceitar tudo o que possa surgir - o que é provavelmente dos maiores desafios quando se está em palco. A improvisação em tempo real, quando bem executada, não faz parecer ao público que está a assistir a movimentos espontâneos que surgiram naquele momento. Apesar do resultado ser inesperado e sempre diferente, muitos dos artistas preparam-se com algumas regras que ajudam a manter um excelente resultado final, como escolher movimentos base ou definir em avançado a velocidade dos movimentos. Na vida, improvisamos constantemente. No movimento, improvisar é a abrir uma janela para a aceitação, bem-estar, criatividade e conexão. Embora não saibamos muitas vezes por onde começar, dar tempo e espaço na nossa rotina para a improvisação pode enriquecer o nosso dia e a nossa forma de estar na vida. Começar por dançar ao som de uma música que gostemos pode ser um excelente ponto de partida. Registar os estados de espírito que foram surgindo ao longo desse momento de improvisação irá ajudar a compreender qual o impacto positivo que essa experiência teve em nós. Improvisar em grupo é uma poderosa ação que traz autoconfiança e empatia com os outros. Porque não começar já hoje?

-Sobre Inês Carvalho-

Inês é bailarina e professora, gestora de comunicação cultural e escreve regularmente sobre o que mais gosta: dança. A mente inquieta levou-a a criar a agência de comunicação Diagonal Dance. O corpo inquieto levou-a a dividir o seu tempo entre Portugal e o Reino Unido.

Texto de Inês Carvalho
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