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Eu não tenho amigos(as) portugueses(as):
Brasil-Portugal e o mito dos países irmãos

Gessica Borges, escritora e doutoranda na Universidade do Minho, parte da sua experiência pessoal para depois, acompanhada de diversos autores, nos contar como as feridas deixadas pelo colonialismo ficaram por sarar. Ao mesmo tempo, lança também as sementes para que se pensem possíveis caminhos para o futuro.

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Quando recebi o convite para escrever este ensaio, a palavra “lusotropicalismo” saiu do e-mail para me atingir como um soco no estômago. Fiquei pensando no que teria para dizer sobre essa temática, ou se ao menos queria dizer alguma coisa. Afinal, da minha perspectiva como mulher, negra, imigrante, brasileira e acadêmica, o lusotropicalismo nada mais é do que uma máscara colonial que, na impossibilidade de ser arrancada, encontra suas formas de se reinventar e voltar aos palcos travestida de pauta pós-colonial. Será? 

Pus-me a refletir sobre luso, sobre os trópicos, sobre os ismos que hoje nos assombram nas práticas e ciências sociais. Se, no íntimo, gostaria de arrancar esta palavra do meu vocabulário, precisava fazê-lo pela raiz. E a raiz da minha indisposição com o lusotropicalismo reflete uma experiência ainda mais pessoal do meu lugar de fala: eu não tenho amigos(as) portugueses. Não há nada nesse país que me faça lembrar fraternidade, cooperação, sequer afeto. Se Brasil e Portugal são irmãos, sinto-me uma “ovelha negra”1 na família. E a mesma sensação assola colegas brasileiros e brasileiras, dentre os mais de 200 mil que aqui vivem, e que comigo dividem suas dores de não-pertencimento. 

O que poderia ser apenas um melodrama pessoal acaba por escancarar uma ferida aberta há mais de quatro séculos, nunca tratada como devido, e por isso ainda tão determinante na epiderme social e política que Portugal e suas ex-colónias comunham: a ferida colonial. De fato, como afirma a psicóloga portuguesa e doutora em comunicação Lurdes Macedo em seu artigo “Da necessidade de desconstrução do "equívoco lusocêntrico": 

Pelo lado dos povos ex-colonizados, é sobretudo através do género melodramático que se recordam os atos de dominação de que foram alvo no passado. (...) O medo de ressurgimento das ameaças do passado e a mágoa quanto às atrocidades vividas noutros tempos leva a que os povos insistam na luta contra os seus inimigos históricos, no intuito de eliminar eventuais perigos. Os conflitos do passado moldam, desta forma, os conflitos do presente. (Macedo, 2015, p. 160-161).  

Se partilhamos a língua portuguesa, traços culturais e, numa perspectiva mais profunda, até o sangue, com o advento da miscigenação racial e — incontornavelmente — da exploração brutal de mão de obra escrava, partilhamos também uma dor que tem muitas vertentes. Desta forma, a memória coletiva da barbaridade serve a muitos de nós, imigrantes brasileiros(as) e de países africanos outrora ex-colónias, como um recurso simbólico que legitima a agenda política do presente e futuro.


Mas não somos os únicos apegados ao passado. Na comunidade geocultural construída sob o julgo português, há também uma extensão simbólica do período colonial, ou como diria o sociólogo português Moisés de Lemos Martins, uma “nostalgia imperial” (2011, p. 75). Essa nostalgia coloca novamente Portugal no centro de uma “comunidade” que deveria ser descentralizada e plural, e impede que o país se redefina identitariamente para além do seu passado de dominação e exploração. Estamos falando, como diria o historiador camaronês Achille Mbembe (2017. p. 87) de uma “fantasia predatória” que forja e preserva a cosmovisão e modo de existir ocidental da sociedade portuguesa, especialmente naqueles que ainda se apoiam — conscientemente ou não —  em sua brancura eurocêntrica.

Em seu livro “Portugal a lápis de cor. A Sul de uma pós- colonialidade”, Sheila Khan analisa traços sociológicos de Portugal pós-descolonização de suas possessões africanas.  A autora diz que o país acolheu “outros rostos, outras vidas com outras vivências, outras narrativas e outros modos de estar e ser”, mas “estas outras presenças humanas permanecem, ainda, socialmente ignoradas e marginalizadas, não obstante a existência de uma profilaxia politicamente correcta de Portugal como país ‘lusotropicalista’ e, como tal, multicultural” (Khan, 2015, pp. 42-43). Lê-se: “Seja bem-vinda toda a gente! Mas cuidado com [insira aqui sua categoria subalterna]”. 

Na mesma linha, em entrevista recente a um jornal brasileiro, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos reflete: "As classes dominantes em Portugal sempre que pensam em África ou no Brasil ainda é para tirar alguma riqueza ou obter vantagem" e “Brasil e Portugal são irmãos por uma causa que não é bonita, e deviam fazer um exame de consciência: que irmandade é esta? Foi essa irmandade que tornou as sociedades excludentes.”. O exame de consciência e exercício de descolonização que propõe o sociólogo, a exemplo de Grada Kilomba, Sheila Khan, Miguel Vale de Almeida, entre outros, é, infelizmente, uma quimera, com poucos dispostos a enfrentar. Há, sem dúvida, uma dificuldade latente em discutir quaisquer que sejam as consequências e marcas ainda presentes de colonialidade na sociedade portuguesa e uma das consequências disso é, precisamente, o afastamento — simbólico, mas também real — que me leva à triste constatação que ilustra o título deste texto.

Neste ponto da escrita, percebi, inclusive, que na tentativa de legitimar a minha própria análise sobre as razões para este afastamento, procurei me blindar teoricamente somente de teóricos(as) portugueses(as). É este tipo de reflexo involuntário de preservação que molda a minha experiência como imigrante, mesmo depois de cinco anos do dia em que cruzei o Atlântico pela primeira vez. 

E do que me preservo? Poderiam perguntar os mais ingênuos. Me preservo do tratamento discriminatório do governo português aos meus contemporâneos, do espectro de estereótipos negativos que nos marcam, das acusações de que o português (ou “brasileiro”) que falo e escrevo é corrompido e inferior, com suas próclises e gerúndios. Dos rac/mach/sex/paternal ismos subtendidos ou explícitos nas interações sociais que, com boa vontade e até esperança, tentei construir. Me preservo, afinal, desta falsa perspectiva luso-fona/cêntrica/trópica que se apresenta, na verdade, como uma forma de neocolonialismo. A plasticidade e empatia inata dos portugueses a que se referiu Gilberto Freyre em sua pseudo-teoria lusotropical ainda não me ofereceu um aperto de mão. Pelo contrário, me seguiu nas ruas e supermercados com seu olhar inquisidor. 

Me interessa a irmandade prometida pela diplomacia entre Estados, desde que venha acompanhada de escuta, reparação histórica, de reconhecimento dos privilégios e violências que se perpetuam estruturalmente na sociedade portuguesa. Me interessa uma ontologia em que podemos co-existir com as nossas diferenças, e não com o apagamento ou negação delas sob o slogan de que “somos todos humanos”. Me interessa uma amizade que consiga enxergar e refletir criticamente entre seus pares sobre a verdade cruel denunciada pelo artista Rodrigo Saturnino: “Não foi descobrimento, foi matança". Continua a ser matança — epistêmica, psicológica, e física: lembremos Danijoy, Bruno Candé, Giovani Rodrigues, entre outros. 

Amigos não matam. E, dentre os muitos medos que me assolam como imigrante neste país, ser radical quanto à minha preservação não é um deles. Radical, raiz… semente. Como jardineira de um paradigma decolonial, é esta semente que gostaria de plantar através deste texto. Quem sabe, assim, poderia incluir um “ainda” antes do advérbio do título, e recriar uma história PT-BR onde a irmandade seja um verbo possível. 

1- Expressão popular pejorativa que designa alguém que é diferente, que não se enquadra nos padrões aceitos pela sociedade ou família em que vive.

Referências Bibliográficas

Khan, Sheila. (2015). Portugal a lápis de cor: a sul de uma pós-colonialidade. Coimbra: Almedina, 2015. 133p.

Macedo, Lurdes (2015). Da necessidade de desconstrução do "equívoco lusocêntrico" in Martins, Moisés Lemos. (Eds.) (2015). Lusofonia e interculturalidade. Promessa e travessia. CECS/Húmus. http://www.lasics.uminho.pt/ojs/index.php/cecs_ebooks/article/view/2200/2117

Martins, Moisés Lemos (2011). Globalization and Lusophone World. Implications for Citizenship. In Pinto, M. & Sousa, H. (Eds.) Communication and Citizenship. Rethinking crisis and change. (IAMCR Conference, 2010). Coimbra: Grácio Editor/CECS, pp. 75-84.

Santos, Boaventura Sousa de. (2022, Dezembro 06). Portugal só pensa no Brasil para tirar vantagem, diz sociólogo português. Ecoa UOL. 

https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2022/12/06/portugal-ainda-pensa-no-brasil-pra-tirar-vantagem-diz-sociologo-portugues.htm

- Sobre Gessica Borges -
Gessica Borges nasceu e foi criada no extremo sul de São Paulo (Brasil), região do Grajaú, e migrou para o Porto (Portugal) em 2017. É comunicadora social licenciada pela Universidade Anhembi Morumbi (Brasil), mestre em Estudos Africanos pela Universidade do Porto (Portugal), com pesquisa sobre memória, identidade e resistência através de história oral de mulheres negras brasileiras. Atualmente é doutoranda em Estudos Culturais pela Universidade do Minho (Portugal) e faz parte da equipa do projeto “MigraMediaActs – Migrações, media e ativismos em língua portuguesa: descolonizar paisagens mediáticas e imaginar futuros alternativos” (CECS).  

É escritora autodidata desde a infância e poeta de coração com poesias publicadas em antologias brasileiras, incluindo “Poetas Negras Brasileiras” (Editora de Cultura, 2021). Também atua como ativista em coletivos antirracistas portugueses como o Núcleo Antirracista do Porto (NARP) e União Negra das Artes (UNA).

*Este ensaio foi inicialmente publicado a 17 de janeiro de 2023.

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