“Temos menos de 10 anos, portanto, não há outra opção”, afirma Bianca Castro, ativista climática, com 20 anos de idade. “Não será por vontade política, mas sim pelas pessoas, porque não vamos parar de exigir e vamos ser cada vez mais disruptivos”. A jovem, que integra a Greve Climática Estudantil, desde o seu início, em Portugal, é uma das estudantes que reclama por justiça climática, uma luta interseccional, que não se esgota na redução das emissões de gases com efeito de estufa. É apenas uma de dezenas de jovens que querem sensibilizar e consciencializar outros tantos para esta problemática. Em comum, estão cansados da inação política, denunciam o greenwashing, dizem que a crise climática não se resolve com escovas de bambu ou copos reutilizáveis e, por isso, apelam à mobilização.

Bianca é natural de Odemira. Aos 17 anos mudou-se para Lisboa, para ingressar num curso de representação. "Foi quando o Fridays for Future a nível internacional surgiu. Quando estávamos a ver a Greta Thunberg, pela primeira vez, a ir ao parlamento sueco”, conta a jovem, que, assim que soube que havia um grupo de pessoas a juntar-se em Portugal, quis também fazer parte. "Acho que há uma grande invencibilidade no ar, quando vemos milhões de pessoas e, maioritariamente, jovens a sair às ruas por uma causa”, refere. “Eram jovens que, se calhar, nunca pensaram que a política fosse uma coisa para eles, mas sentiram que tinham algo a dizer e a responsabilidade de fazê-lo. Acho que esse poder de termos milhões e milhões de pessoas nas ruas é uma coisa de outro mundo, mas infelizmente não nos leva à ação que é ainda precisa.”

A Greve Climática Estudantil começou, em Portugal, em março de 2019, com a organização da primeira greve às aulas pelo clima internacional, no seguimento da convocatória do Fridays for Future internacional. Desde então, o coletivo tem-se organizado em núcleos locais espalhados um pouco por todo o país.

Diogo Martins juntou-se ao núcleo do Algarve, onde vive, mal este se formou. Já tinha participado na greve climática de 15 de março de 2019, em frente à Assembleia da República, e na de 27 de setembro do mesmo ano. Foi depois de perceber que as suas ações individuais, para tentar ter um modo de vida mais sustentável, não eram suficientes para responder ao desafio que o planeta enfrenta: “Quando comecei a fazer ativismo é que compreendi que estes comportamentos individuais, apesar de fazerem a sua diferença, não são suficientes para travarmos a crise climática, e foi aí que comecei a perceber a importância e também o poder da ação coletiva”.

Menos palavras, mais ação

O movimento Fridays for Future começou em 2018, quando Thunberg declarou greve às aulas às sextas-feiras, na Suécia, para forçar alguma ação em relação ao clima. Desde então, tornou-se num protesto global.

Mas as várias manifestações e os milhares de jovens nas ruas, um pouco por todo o mundo, parecem não estar a lograr no sentido pretendido por estes ativistas. “Continuamos a não ser ouvidos.” Para Bianca, “foi sempre muito mais palavras do que a ações por parte das instituições e dos governos. Não é suficiente.” Embora se tenha dedicado mais atenção a esta problemática, isso “não se traduziu em mais ação. Traduziu-se em greenwashing, em falsas soluções, e fracas ambições, que não nos vão levar a lado nenhum”, denuncia. “A ciência diz-nos que temos menos de 10 anos para, basicamente, mudar tudo.”

Através de greves climáticas, vigílias, palestras nas escolas, entre outras iniciativas próprias, ou com entidades parceiras, o coletivo de estudantes tem erguido cartazes e “gritado” por justiça climática. Querem “mudar esta economia baseada em lucro e transformá-la numa economia que é baseada no verdadeiro interesse das pessoas e no próprio conceito de justiça climática”, explica a Bianca, “que encara as alterações climáticas como um problema político e bastante complexo de justiça social.”

“Não é apenas sobre reduzir emissões, é sobre não deixar que sejam as mesmas pessoas de sempre a pagar todas estas crises, porque sabemos que a nossa sociedade tem discriminações estruturais”, clarifica.

“As pessoas que estão na linha da frente da crise climática estão também na linha da frente da crise económica e da crise social, e não podemos deixar que estas discriminações continuem a propagar-se. Portanto, é mesmo mudar o sistema em si, o sistema que criou esta crise. Não podemos resolvê-la dentro do sistema que a criou."

Bianca Castro

Há muitos interesses financeiros e económicos por detrás da resolução da crise climática, acredita Diogo, para quem o combate às alterações climáticas seria “muito fácil” se governos e instituições se movimentassem e se unissem para tal. “Enquanto houver este contínuo crescimento económico, esta contínua filosofia de crescimento económico infinito e contínuo, num planeta que é finito, não vamos conseguir ter a mudança que queremos”, considera. “É nesse sentido que, tanto os governos, como as instituições, têm falhado em dar resposta. Porque, efetivamente, há lucros, há dinheiro por trás. Interessa, claro, aos empresários, continuarem a lucrar, ao invés de fazerem toda uma mudança, toda uma adaptação, toda uma reestruturação."

Para o jovem, natural de Albufeira, os avanços feitos pelas grandes empresas poluentes ou são “muito pequenos” ou mesmo nenhuns – a generalidade continua na mesma – e a exploração de combustíveis fósseis constitui um dos principais problemas climáticos. “Vemos todos os anos picos, a concentração de gases com efeitos de estufa a aumentar, ano após ano”.

“Para fazermos esta mudança, no tempo que a ciência nos diz, não é suposto lucrar, nestes primeiros anos de transição para uma economia descarbonizada”, analisa o ativista climático com 19 anos de idade. “É impossível lucrar, porque as mudanças que temos de fazer são tão rápidas, tão drásticas e tão repentinas que, nestes primeiros anos, as empresas têm de fazer um investimento, têm de fazer toda uma reestruturação e uma mudança até 2030, para travarmos o caos climático.”

A finalidade de obter lucro é assim encarada como uma das principais condicionantes que reprimem as organizações a avançar na transição energética. Por isso, a Greve Climática Estudantil, defendendo que essa mudança deve ser encabeçada pelo setor público, tem procurado fazer pressão política sobre os governantes. “Não é que o setor privado não esteja capaz para fazer essa transição. Mas, como temos os interesses da população, que quer travar o caos climático, assegurar a sua vida e assegurar o futuro das próximas gerações e, depois, temos a questão do lucro das empresas, e mesmo que estes dois interesses estranhamente se alinhassem, mesmo que houvesse essa disponibilidade, no setor privado, para fazer esta transição, nunca seria tão rápido e nunca conseguiríamos resolver a tempo a crise climática, antes de ativarmos tipping points, que são chamados pontos de viragem”, elucida.

Uma luta interseccional

A mudança é urgente e, segundo estes ativistas, apenas será possível fechando as infraestruturas mais poluentes, mas sem nunca esquecer os trabalhadores. Aqueles que também “estão na linha da frente da crise” e “que mais vão sofrer, agora, com a crise climática” são uma das principais preocupações nesta luta. “Não é só fechar as indústrias poluentes, as fábricas, as centrais termoelétricas, as refinarias. Isso é um grande vazio”, argumenta Diogo. “Na verdade, cortar emissões é o mínimo que temos de fazer, porque justiça climática, que é sempre norteada por princípios de justiça social, defende que estes trabalhadores devem ser sujeitos a planos de requalificação profissional, para depois poderem ser integrados noutros setores de atividade e estes empregos não se perderem.”

A Greve Climática Estudantil faz parte da campanha Empregos para o Clima, que “visa combater a precariedade laboral e climática e lutar por um mundo socialmente justo e ambientalmente são”, pode ler-se no website, “através da criação de emprego público digno e estável em setores estratégicos”, como a energia, transportes, floresta ou construção, “para reduzir as emissões de gases de efeito de estufa na atmosfera.” O seu mais recente relatório, lançado no passado mês de maio, indicava ser possível cortar as emissões de gases com efeito de estufa em 85 % até 2030 e, ao mesmo tempo, criar 200 mil empregos. Estes trabalhos, defendem os ativistas, devem ser, prioritariamente, para aqueles que perderam os seus postos, aquando da transição energética. “Se Portugal tem de cortar até 2030 74 % [das emissões], é até mais 11 % do que aquilo que devíamos estar a cortar”, nota o jovem. “Mas, aí está, não fica só no vazio que é o mínimo de cortar emissões, porque os trabalhadores precisão de condições asseguradas, e as pessoas precisam de ter o seu sustento para viver.”

Aos olhos destes jovens, não existe justiça climática sem justiça social ou mesmo racial. São lutas interseccionais. “As soluções que apontamos para lutar contra a crise climática têm também de fomentar uma sociedade cada vez mais justa e de não deixar ninguém para trás”, reforça Bianca. É o caso dos trabalhadores em infraestruturas que emitem elevadas quantidades de gases com efeitos de estufa. “Há de facto indústrias que vão ter de acabar, como a indústria fóssil, mas isso não pode fazer com que nenhuma pessoa fique sem emprego, sem trabalho.”

O fim da exploração de combustíveis fósseis, o decrescimento da aviação, o investimento na ferrovia são algumas campanhas que têm sido levadas a cabo pelo coletivo, que conta já com nove núcleos em território nacional – Alcácer do Sal, Algarve, Aveiro, Caldas da Rainha, Évora, Lamego, Lisboa, Montijo e Viseu.

“Há pouco tempo até tivemos uma vitória para o movimento por justiça climática, que foi já não termos contratos de exploração de combustíveis fosseis ativos em Portugal. Havia apenas mais dois. Em 2015, tínhamos 15 e, finalmente, temos zero”, regozija, mas sem nunca baixar os braços: “ainda falta revogar a lei que permite que haja novas explorações.”

Também recentemente, o coletivo, juntamente com o Climáximo, realizou um inventário das infraestruturas mais poluentes, a nível nacional, no que toca às emissões de gases com efeito de estufa. O relatório foi elaborado no contexto do Acordo de Glasgow – um acordo internacional assinado por mais de uma centena de organizações e movimentos por todo o mundo e que “tem como propósito tomar a iniciativa que os governos e instituições internacionais não tomaram, ao criar uma ferramenta alternativa para ação e articulação do movimento pela justiça climática”, lê-se no website da Climáximo. “A partir, daí vão-se focar no que realmente é preciso fechar”, diz Bianca.

É preciso uma mudança sistémica, não individual

Comprar escovas de bambu, reduzir o consumo de carne, não utilizar plásticos de uso único, reciclar, nada disto, dizem estes ativistas climáticos, é suficiente para reverter a crise que enfrentamos. “A verdadeira mudança tem de ser sistémica”, sublinha Bianca, falando numa espécie de manipulação por parte das organizações para fazer crer que estes atos são fundamentais para resolver o problema do clima: “Vemos anúncios, até de empresas que são das mais poluentes, que nos dizem que temos de deixar de usar plástico, ou deixar de fazer isto ou aquilo, quando isso não é verdade, e quando são essas empresas que estão a emitir mais e estão, deste modo, a tentar enganar o consumidor, de forma a que nós próprios nos reduzamos a meros consumidores e não percebamos o poder político que temos enquanto sociedade.”

Apesar de assistir a uma maior consciencialização da população relativamente à crise climática, a jovem considera que, muitas vezes, o foco do problema está errado: “Esta consciência acaba por ser esta coisa enganadora de acharmos que somos nós que temos culpa e que temos de mudar os nossos atos individuais, quando todos estes atos individuais que nos dizem que temos de mudar também constituem um ato de privilégio.” Como exemplo, a estudante aponta a questão dos transportes, clarificando que “nem toda a gente tem a oportunidade de deixar de usar transporte individual, quando não temos opções viáveis de transportes públicos”. Daí a luta que o coletivo tem travado pelo investimento, em Portugal, na ferrovia, apresentada como uma alternativa mais sustentável também à aviação. “Há uma gap enorme entre a percentagem da população que usufruiu e a percentagem de emissões que aquilo acarreta”, elucida.

Diogo concorda: “Não são estas pessoas, muitas das quais recebem o ordenado mínimo, que vão poder escolher ter um modo de vida mais sustentável, poder escolher como se transportam, a comida que colocam em cima da mesa, porque isso é o seu rendimento que, já por si, escolhe.” “A percentagem da população de classe média-baixa é a que menos responsabilidade tem”, garante, afirmando que não será através de comportamentos individuais, que não podem ser adotados por toda a população, que se resolverá a crise climática.

“Não podemos forçar as pessoas a seguir determinados comportamentos, quando não existem opções. Não há soluções para que elas próprias possam implementar isto no dia a dia delas.”

Diogo Martins

Para Bianca, os atos individuais são relevantes “para criarmos o planeta que queremos de uma forma ética, mas não são politicamente eficazes”. Mas vai mais longe, apoiando-se na ciência. “Matematicamente, se juntássemos cerca de mil pessoas e, durante toda a nossa vida, fizéssemos tudo o que nos é dito sustentável – uma pessoa que só quer saber do clima, não viaja, não tem nada descartável –, pouparíamos que cerca de 480 mil toneladas”, aponta. “Mas depois olhamos para a central de Sines, que emitia num ano 6 milhões.”

Literacia climática

Para garantir que a educação ambiental chega a cada vez mais pessoas, a Greve Climática Estudantil criou a iniciativa “Climaticamente Falando”, um projeto que leva palestras até às escolas e que conta com a colaboração de uma série de outras organizações, como a Climáximo, a EcoPsi, a ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável, a OceanHu, entre outras.

Só este ano, já foram realizadas mais de 50 palestras, desde o início de março. “Foi ótimo podermos transmitir a mensagem nas escolas e podermos sensibilizar naquele local, que é onde a sensibilização, exatamente, deve começar, para as pessoas se envolverem mais no ativismo e nesta causa”, refere Diogo.

Uma das reivindicações que o coletivo estudantil fez na greve do passado dia 19 de março foi tornar o estudo das alterações climáticas e ecologia parte do currículo obrigatório em todas as disciplinas de aprendizagem essencial, nas escolas públicas e privadas do país. “Precisamos de generalizar estas informações, estes conhecimentos, para que mais pessoas possam tomar consciência da gravidade, das verdadeiras proporções da crise climática e, com base nessa informação, elas tornarem essa indignação em luta, em resistência, em ações nas ruas, em mobilização.”

As pessoas, o novo foco da luta climática

A inação política e governamental, nos últimos anos, levou o movimento pela justiça climática a nível mundial a mudar o foco da sua luta, das instituições para as pessoas, como explica Bianca: "Já percebemos que não é a falar para as instituições e para os governos que vamos chegar a algum lado, mas, sim, vai partir das pessoas e vai partir do poder das pessoas nas ruas”. A assinatura do Acordo de Glasgow é disso reflexo.

Para a jovem ativista, existem soluções, mas não existe vontade política, “porque continua a ser o lucro que está acima de tudo” e “que rege todas estas ações políticas que estão a ser tomadas”. E Portugal, “um país privilegiado, em termos das alterações climáticas”, não foge à regra. “Não estamos a sentir assim tão fortemente, como já imensos países estão a sentir, países em que também temos empresas neocolonialistas a atuar”.

O problema não é do futuro, é de presente, frisa. “Costumo dizer, muitas vezes: ouvimos sempre que a nossa está a arder, mas as casas das pessoas que estão na linha da frente da crise climática já estão a arder há décadas, e os nossos governos continuam a pôr mais fogo nesses incêndios.”

Sobre o Acordo de Paris, constata que este já “se revelou ineficaz”, uma vez que “não só as metas não estão a ser cumpridas, como já existem relatórios científicos que nos dizem que, mesmo que fossem cumpridas, nos iam levar a um aumento de cerca de mais de 3º C, quando sabemos que o limite é 1.5.” E acrescenta, relativamente à meta da União Europeia de 55 % das emissões até 2030: “Nessas emissões não contam, por exemplo, os transportes internacionais e são baseadas em níveis de 1990. Portanto, se fossem baseados em níveis de 2018, víamos que a redução, na verdade, ainda é menos ambiciosa do que aparenta ser.” E termina: “São todas estas falsas contas, números de jogos, ou até números contabilísticos para nos enganarem, mais uma vez, e parecer muito mais ambicioso, o que, neste momento, não é nada. Nem é a questão de sermos mais ambiciosos, é a questão de sequer sermos ambiciosos, em primeiro lugar.”

O relógio continua a contar

No início da pandemia da Covid-19, ouvimos, por diversas vezes, que o planeta se estava a curar sozinho. A ciência já veio mostrar o contrário. A crise sanitária e o consequente abrandamento económico, as restrições de circulação, a redução de tráfego aéreo e a limitação da produção industrial fizeram diminuir temporariamente as emissões de gases com efeito de estufa, no ano passado, mas mesmo assim o impacto não foi muito percetível nas concentrações atmosféricas. De acordo com o relatório anual da Agência Internacional de Energia lançado em abril passado, em 2021, as emissões de dióxido de carbono devem registar o segundo maior aumento anual da história, à medida que as economias globais vão retomar atividade e investir em combustíveis fósseis para recuperar da pandemia.

A crise sanitária relegou o tema das alterações climáticas para segundo plano, e Bianca compreende que, neste momento, o foco das pessoas seja outro, porque “nem toda a gente tem a mesma urgência nesta luta e nem toda a gente tem a possibilidade de ter esta luta como a sua mais urgente”. Mas Diogo relembra que, apesar da gravidade da pandemia, a crise climática não pode esperar que a pandemia esteja resolvida: “O relógio continua a contar, o tempo nunca parou e estamos cada vez mais perto de não conseguirmos limitar o aquecimento global a 1.5º C, que é aquilo que mais defendemos.”

Texto por Flávia Brito
Fotografias cedidas pela Greve Climática Estudantil

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