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Inspirações que encontramos lá fora: Bancos de tempo – onde a moeda vale mais do que dinheiro

Nas inspirações que encontramos lá fora da Revista Gerador 40, falamos de bancos de tempo.

Texto de Analú Bailosa

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Se o grau académico, os rendimentos e as condições de acesso à saúde de uma pessoa variam devido a uma série de fatores, as 24 horas do dia são as mesmas para toda a humanidade. Ainda que a gestão do tempo esteja relacionada à realidade socioeconómica de cada indivíduo, é do princípio de igualdade de posse desse recurso que parte a ideia dos bancos de tempo. Trata-se de um artifício da economia solidária que possui como moeda de troca as horas despendidas em serviços voltados à comunidade, promovendo a confiança e a colaboração entre pessoas de diferentes contextos.

As primeiras referências históricas a transações baseadas no tempo datam do século XIX e mencionam a sua popularidade entre os grupos anarquistas e socialistas da altura, na Europa e nos Estados Unidos. Em 1973, Teruko Mizushima foi a responsável pela fundação do primeiro banco de tempo do mundo, em Osaka, no Japão. Uma hora dedicada a atividades requisitadas por membros do Banco de Trabalho Voluntário, atual Rede Voluntária de Recursos Humanos, corresponde a um crédito que pode ser trocado por outra hora de serviços no futuro – uma lógica pensada especificamente para as mulheres cuidadoras de idosos.

A iniciativa foi internacionalizada no início dos anos 90 pelo norte-americano Edgar Cahn. No livro No More Throw-Away People, o professor de Direito definiu os cinco valores da lógica dos bancos de tempo: todos têm um valor; alguns trabalhos estão além de um preço monetário; ajuda recíproca; fortalecimento das comunidades; e respeito por todos os seres humanos.

Tendo o tempo investido sempre o mesmo valor, não existem tarefas mais valiosas do que outras. Em países como a Itália e o Reino Unido, as horas passadas a cuidar da casa de um vizinho, por exemplo, podem pagar procedimentos de estética ou aulas de diversas áreas. Os bancos de tempo, também estabelecidos em diversos locais da América Latina, funcionam ainda através de trocas indiretas, ou seja, os serviços não são sempre realizados entre os mesmos dois membros.

O caso português

O Graal, movimento internacional de mulheres, inspirado pelas atividades da associação catalã Salud y Família, implementa a ideia do banco de tempo em Portugal. Aberta em 2002, a agência de Abrantes é a primeira das 25 que hoje existem, as quais somam 1900 membros pelo país. Da mesma forma, a proposta portuguesa promove o encontro entre a oferta e a procura de serviços disponibilizados, reunidos numa lista constantemente aberta a novas sugestões.

Eliana Madeira, coordenadora da Rede Nacional do Banco de Tempo, sublinha o princípio estruturante da reciprocidade. Apesar da forte ligação à noção de voluntariado, a representante não considera a iniciativa como caritativa, uma vez que olham para cada indivíduo «como um ser humano com as suas vulnerabilidades, que precisa dos outros e pode, potencialmente, beneficiar do tempo das outras pessoas». Eliana enfatiza igualmente a estimulação dos talentos dos membros e a dispensa de certificações para realizar as tarefas requisitadas. «Não há qualquer intenção de que as pessoas se sacrifiquem por outras, mas que expandam o seu bem-estar, que façam aquilo que efetivamente gostem e que obtenham ajuda para fazer exatamente aquilo que é mais custoso para si», afirma ao Gerador.

O balanço dos 20 anos do Banco de Tempo de Portugal é positivo, garante a coordenadora, mas a ação não escapa dos obstáculos de uma sociedade individualista e presa aos bens materiais, em que «para ser, é preciso ter». Somente ao remeter o valor do dinheiro para segundo plano, continua Eliana, a cooperação é facilitada e permite o êxito de uma conceção de solidariedade mais igualitária e próxima do companheirismo. É desta forma que o conceito, na sua opinião, se configura como uma resposta social revolucionária, visibilizando as capacidades e necessidades de grupos discriminados, como as pessoas com deficiência, migrantes e mais velhas.

Tempo (não) é dinheiro

Mais recentemente, em 2022, o governo da Suíça anunciou a implementação da iniciativa como uma medida de saúde pública, cujo funcionamento parece retomar a ideia de Teruko Mizushima para o cuidado de idosos. As horas investidas, pela juventude, nesse acompanhamento são registadas pela segurança social e disponibilizadas como créditos para que os jovens recebam, quando mais velhos, o mesmo apoio.

Ainda no ano passado, a capital chinesa anunciou um esquema semelhante, no qual as horas de trabalho podem ser resgatadas quando os cidadãos completam 60 anos ou, antes disso, doadas a familiares e amigos a partir desta idade. Em Pequim, o acúmulo de dez mil horas garante, inclusive, uma vaga num lar de cuidados do estado.

Seja o banco de tempo pensado exclusivamente como uma política de combate ao envelhecimento da população mundial ou um projeto de entidades não-governamentais que abarca quaisquer demandas, Eliana Madeira acredita que o essencial é a rutura da analogia reducionista entre tempo e dinheiro. «Tempo é a matéria-prima de que são feitas as nossas vidas», conclui.

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