Raspanetes, e apartes, a jovens músicos em crescimento e outros mais velhos que nunca pensaram no assunto

Caras compositoras, excelentíssimos compositores, admiráveis instrumentistas, prezados técnicos, indispensáveis produtores, estimado público, querida mãe e demais envolvidos no quotidiano do consumo musical nacional e do mundo em geral.

Por aqui, muito se tem falado de criatividade. De como enfrentar a folha em branco, de pensar as ideias a partir do mundo à nossa volta — à nossa frente, na verdade. Poucos devem ser aqueles que olham, de facto, para o lado, quanto mais para trás, muito menos para cima.

Pergunto-vos: quando foi a última vez que olharam para o céu ou para o tecto da vossa sala? Deixem-me dizer-vos que quando se fala em fazer música é especialmente perigoso não pensar em 360º.

Gostava de ter tempo e paciência para conversar convosco, de ouvir o que têm para dizer. O que estão a fazer e o que ambicionavam criar daqui a cinco anos. A verdade é que não me interessa rigorosamente nada. Não me apetece ouvir ideias, ainda por cima as vossas. Serão muito fracas certamente. E sabem porquê? Vocês não fazem ideia nenhuma do que estão a fazer. Isto de compor música porque “eu quero” e porque “estamos num país livre” já me enerva.
            Se aqui vieram, e já que cá estão, vamos aproveitar para vos clarificar as ideias e pôr tudo em pratos limpos. Procuraremos identificar o verdadeiro e maior problema da criação musical original, levantando, para isso, ideias como a génese do conceito devidamente sustentado, o potencial expressivo do gesto sonoro e a primeira letra do glossário do universo das ideias musicais.

Escrevam isto: hoje será o dia do primeiro passo para atingirem aquilo que poderá ser, se trabalharem muito e tiverem sorte, o início de uma carreira de aprendiz nisto que é ser um eterno aluno e perseguidor da verdadeira criatividade consciente.

Ah, e não se esforcem para vir tirar dúvidas quando chegarem ao fim. Se não perceberem até lá, não valerá, certamente, a pena explicar.

O que seria do contabilista se não conhecesse a matemática?

O que seria de um pastor que não gostasse da natureza?

O que seria do pasteleiro se não soubesse fazer… creme de pasteleiro? — lá está.

Ser compositor — ou outra coisa qualquer — exige que se conheça a matéria de trabalho de uma forma extremamente aprofundada, quase molecular. O importante, para podermos focar o tema, é guardarem o seguinte: devemos conhecer a matéria prima da criação musical (o som, para os mais distraídos!) nos seus diferentes contextos e habitats, antes de pôr mãos à obra. Não quero com isto dizer que a solução para a música original de valor está dependente da leitura de tratados de harmonia do séc. XVII ou de decorar os cálculos necessários para a compreensão da velocidade de propagação sonora no mesmo gás em temperaturas distintas.

Também não acho que o vosso problema seja apenas a falta de capacidades técnicas — há instrumentistas de grande nível que não conseguem improvisar duas frases, quanto mais compor uma obra. Com calma, resiliência, acesso ao YouTube e um computador minimamente capaz de instalar uma versão crackada do Live, qualquer um, em duas horas, faz uma cantiga.

Poderíamos dizer que a maior adversidade passa pela falta de capacidade de investigação, sumarização e compreensão de quão banais são as vossas referências. Isto levar-nos-ia a outra discussão, em torno da importância de realizar um verdadeiro estado da arte antes de partir para a criação propriamente dita.

Seria ainda interessante pôr em cima da mesa a velha ‘não-questão’ da incapacidade do artista contemporâneo em justificar a sua utilidade social. Mas como já vos tenho dito, o tempo é escasso, a paciência nula e não me pagam para falar de mais do que um assunto.

A minha proposta passa por mostrar-vos uma visão diferente do mundo. Visão o tanas, audição! É de música e de ecologia sonora que falamos.

Toda esta introdução serve apenas para dizer que de nada serve conceber música se não tivermos consciência do ecossistema sonoro em que ela irá habitar.

De uma perspectiva mais geral e macroscópica, aceitemos o mundo sonoro à nossa volta como uma grande peça electroacústica que podemos ouvir quando e onde quisermos. O passo seguinte será compreender que esta grande peça se divide em três grandes categorias de fontes sonoras.

A Geofonia é composta pelos sons naturais deste calhau rotativo suspenso no espaço. Falo da chuva, do mar, do vento ou da trovoada.

E porque está na moda, tornemos isto interactivo: cliquem aqui!

Dez horas — dez! — de sons relaxantes de chuva e um bocadinho de vento nas árvores. É logo preocupante pensar que o ser humano sentiu a necessidade de gravar sons calmos da natureza para ouvir no seu sofá do trigésimo terceiro andar de um arranha-céus de uma grande cidade, enquanto usa headphones isoladores de ruído externo. É um triste “venha para fora cá dentro”. Enfim.

Sendo a Geofonia a grande constante sonora no planeta, a Biofonia assume-se como uma segunda camada, muito mais activa e diversificada. Falamos dos sons produzidos por animais: o ladrar dos cães, o chilrear dos pássaros, os passos dos leões a caçar gazelas, o miar de um gato preso numa árvore, os cangurus ao soco… por aí!

Tirem um bocadinho e ouçam este exemplo.

Foi fácil, não foi?


            Agora põe este a tocar e tenta focar-te no texto.

A terceira grande fonte sonora é a Antropofonia que, como o nome indica, pretende classificar todos os sons que o Homem produz: a fala nas mais diversas línguas, a tosse, os berros, os risinhos na fila de trás da sala de aula e, claro, a música. É aqui que começa o nosso calvário. Como nos problemas de todas as ecologias, foi também o Homem o criador do problema que tentamos aqui resolver: a poluição sonora e a massiva contaminação do ecossistema com ruídos constantes, desgastantes e desnecessários. Numa frase simples, há demasiado ruído por todo o lado. Do ar-condicionado que não se cala, do trânsito constante mesmo em tempos de pandemia e confinamento mundial, o raio da vizinha que berra com o filho todo o santo dia, os camiões do lixo — já repararam que nunca há uma hora boa para os camiões do lixo passarem? E claro, não nos podemos esquecer da música. As estéticas, a cultura dos diferentes povos, os pré-conceitos estilísticos, a globalização, a música comercial, a Internet. Os clones em que nos vamos tornando uns dos outros. O dilema das escolhas fáceis e óbvias aquando do primeiro esboço na tal assustadora folha em branco. Há tanta música em todo o lado que nem me apetece compor mais. Eu já nem ouço música, estou farto! É musiquinha dos anúncios da televisão, é musiquinha quando vou às compras, é a merda das músicas de natal, são as jam sessions todas iguais, é o meu vizinho da frente que agora tem a mania de “matar saudades dos tempos em que tocava para centenas de pessoas ao rubro todas as sextas à noite” (coitado, era DJ num rodízio brasileiro perto da praia). Com toda esta azáfama, perdemos o ambiente que nos é favorável para pensar com tempo e espaço e, consequentemente, mergulhar no processo criativo pleno e contemplativo. Sabem? Gosto de me contemplar, e ainda mais enquanto crio. Deve haver pouca gente com esta capacidade. Mas adiante...

Antes de considerar discutir todas estas questões, julgo ser mais importante reflectir sobre o acto de escutar e os seus diversos níveis de aprofundamento.

No seu “Traite des Objets Musicaux”, o compositor Pierre Schaeffer, sugere quatro fases inerentes ao processo de escuta: escutar (écouter), ouvir (ouïr), perceber (entendre) e compreender (comprendre):

Entenda-se Escutar (écouter) como a percepção humana ao som. Percepcionar algo que existe e preparar o ouvido para a etapa seguinte. Ouvir (ouïr) pretende explicar um processo mais  atento ao som como individualidade aural; ou seja, discernir a localização da fonte sonora, a sua  direcção,  intensidade e  o  seu  timbre,  criando  uma  ideia  abstracta  de  intenção,  que  nos  leva  ao  passo seguinte: Perceber (entrendre) direcciona-nos à interpretação de  uma  intenção  no  gesto  sonoro,  catapultando-nos,  então,  para  a  etapa  final:  Compreender  (comprendre).  É aqui que somos capazes de desconstruir o som.  Conseguimos retirá-lo do seu contexto e origem, ouvindo-o como um som singular, entendendo ainda as suas múltiplas perspectivas e utilidades — para compor, por exemplo!

A esta perspectiva aural  podemos  chamar  de  escuta  reduzida  (écoute  réduite),  que  se  caracteriza pela intenção de ouvir o som simplesmente como um som, acabando com a ligação  semântica e simbólica ligada a determinado objecto.   

É nesta intenção de dissecar o universo sonoro que acredito estar a génese do primeiro passo para o equilíbrio do ecossistema sonoro e, daí, a procura da verdadeira originalidade. Sou muitas vezes confrontado com uma posição egoísta: “Eu faço a minha música para mim, porque gosto, porque sou livre de a fazer. Quem não quiser que se mude!”. Partindo destas afirmações, a discussão tende a terminar com: “Achas justo o teu vizinho amontoar sacos de lixo e demais tralha à porta do vosso prédio?”

            Mas para não me alongar mais, (tenho coisas sérias para fazer) deixo-vos algumas questões para refletirem na paz ensurdecedora da vossa casa:
            - De que forma é que a minha música contribui para o equilíbrio sonoro?
            - Quão irresponsável é o acto de compor novas obras?
            - Como é que se utiliza o ecossistema sonoro e os seus espaços em branco para a criação de nova música?
            - Quais seriam os valores mínimos de uma tabela de multas pela composição de más obras?
            - Para quando a criação do comité centralíssimo que decide qual é a música que vale a pena ser ouvida?

Enfim! O mais problemático de tudo isto é a curadoria desta rubrica achar que haveria outros artigos mais urgentes de publicar antes deste.

Tenho dito.

Até à próxima.

Professor Neca,
no sofá de minha casa, de chinelo azul clarinho, em frente à lareira, com um copo de vinho,
Janeiro de 2021

Coisas que o Professor Neca acha já que deviam ter lido:

Silence, Lectures and Writings - John Cage

Traite des Objets Musicaux - Pierre Schaeffer

Anthology of Essays on Deep Listening - Pauline Oliveros

The Windmills of my Mind – Musings about Haydn, Kant, Sonic Ecology, and Hygiene - Marcello Sorce Keller
The Tuning of the World - R. Murray Schafer

Sons e Silêncios da Paisagem Sonora Portuguesa - Carlos Alberto Augusto
Le Cordon Bleu: Todas as técnicas culinárias - Jeni Wright, Eric Treuille
Astérix na Córsega - R. Goscinny e A. Uderzo

-Sobre Manuel Brásio-

Músico e criativo ligado à composição e sound design para concerto, teatro, dança e cinema, baterista e percussionista freelancer; professor e formador nas áreas da criatividade musical; sócio sobrevivente da AISCA, sócio fundador e coordenador de actividades da Interferência juntamente com José Tiago Baptista; colabora ainda no projecto FabLab Porto de João Barros, na equipa da Digitópia/Casa da Música e no projecto performativo Melífluo. Licenciado em Composição na ESMAE; Mestre em Multimédia: Música Interactiva e Design de Som pela FEUP; Compositor editado pelo Mic.pt e pelo mpmp; colabora frequentemente com o Teatro do Montemuro; escreveu “Bom dia Sophia” para oboé solo, uma encomenda da RTP/ANTENA2 para o Prémio Jovens Músicos 2018; Foi ainda director artístico, compositor e intérprete de SUPRAHUMAN obra em digressão da Interferência em 2019 com o apoio da DGARTES, Centro Nacional de Cultura, IPDJ e Antena 2. De momento, apresenta-se em digressão com QUEM FALA ASSIM, um concerto multimédia, produção Interferência em colaboração com a Associação Portuguesa de Gagos no qual divide a criação e direcção artística com José Tiago Baptista.
Tem dias em que acorda em modo Professor Neca e ninguém o atura. Isto foi um cheirinho para não sobrar sempre para os mesmos.

www.manuelbrasio.xyz / www.interferencia.pt

– Sobre a Interferência –

A Interferência – Associação de Intervenção na Prática Artística é um colectivo artístico do Porto com trabalho direcionado para a criação e formação na área da nova música que pretende explorar os limites da percepção e do gosto musical entre os diferentes públicos, alicerçada na clareza narrativa como arma necessária para uma intervenção social. Através dos Cursos e Workshops Interferência, tem criado oportunidades acessíveis de formação especializada a jovens e graúdos interessados em conhecer mais e melhor o mundo que os rodeia. Paralelamente programa concertos de jovens artistas através do Ciclo de Concertos: Electrónica Sem Pastilhas; e com a digressão de criações internas, como SUPRAHUMAN (2019)  QUEM FALA ASSIM (2020) tem-se apresentado em espaços como a Porta-Jazz, Café Concerto Francisco Beja (ESMAE) Casa das Artes (Porto), Auditório do Conservatório de Música de Coimbra e Braga, Teatro Municipal Sá de Miranda (Viana do Castelo), Fábrica da Criatividade (Castelo Branco), O’culto da Ajuda ou Gnration.

Texto de Manuel Brásio
Fotografia de Clara Araújo
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