Nota de rodapé ao Sein und Zeit, de Martin Heidegger, tradução para o inglês por John Macquarrie e Edward Robinson, página 57 (Blackwell Publishers Ltd 1962).

Imaginem a seguinte situação: um artista erige uma imponente obra de arte. Esse criador sabe, no coração e dentro do mundo da arte em que se insere, que atingiu algo valioso. O crítico, que tem a custódia da hermenêutica, escreve uma coluna dizendo: trata-se de uma obra tão boa, que não estou certo de que o artista saiba o quão boa é. É compreensível o que quer dizer: o criador encontra-se num grau de intuição superior ao de dedução do crítico; e o crítico num grau de dedução maior que o de intuição do criador. Esta posição dá-lhe confiança para fazer asserções mais universais e duradouras, impondo as suas razões sobre a obra. O que aconteceu aqui foi um movimento de hierarquização e de preconceito, em que a dedução do crítico está acima da intuição do artista, nada que surpreenda numa sociedade hiper-crítica. Naquela coluna, um juízo ético está implícito. E sabemos de Kierkegaard que de tudo podemos inferir juízos éticos, inclusive dos nossos próprios juízos estéticos, uma vez que o coração tem razões que a razão desconhece, (não é assim, Pascal?). Não querendo parecer místico de mais, a obra perfeita seria de tal modo que nem a intuição se sobreporia à dedução nem vice-versa. Seria o ponto de encontro de todo o ser humano. Acredito que, se uma obra de arte atingisse esse ponto de encontro, ninguém lhe ficaria indiferente. Seria essa a Aletheia, o perfeito desvelar, em que verdade é igual a realidade. No entanto, e nesta cláusula subscrevo a ambiguidade ética de Beauvoir, num estrito plano imanente, esse ponto de equilíbrio é humanamente impossível. E a explicação é simples: não somos Deus.

       Para o presente texto, tomo como exemplo Heidegger que, por algum motivo, pretendeu refugiar-se naquilo que serviu de um desvelar para ele — a poesia, mais especificamente, Hölderin. Mas Heidegger, se for intelectualmente honesto, não pode ditar que seja a poesia ou um autor alemão (tramado seria para um português, que chegaria a uma pseudo-aletheia através de uma tradução manhosa) que nos permite chegar à Arte. Ele pode ter estado lá perto, mas não chegou o suficiente para que a desvelação de Hölderin substitua a Revelação que se encontra na Bíblia. A minha tese é simples: Heidegger descristianizou o conceito de aletheia. Munindo-se de uma hermenêutica musculada, esvaziou o conceito de aletheia que estava reservado a revelar, para o cingir ao âmbito filosófico e o definir como desvelar. Os críticos e os académicos são seduzidos por escavações arqueológicas e por neologismos, como bons pós-modernos que são, mas nem todos os caminhos vão dar a Heidegger. Se virmos Heidegger como máquina, (recorramos por instantes aos devaneios deterministas de Deleuze), esta é um produto da filosofia medieval, de Agostinho de Hipona, de Kierkegaard, de Nietzsche e de tudo o mais que se nos escapa. Ora, já G. K. Chesterton dizia que Nietzsche era um pensador tímido porque, sempre que encontrava uma dificuldade, encobria essa dificuldade com uma metáfora material. Quando escrevia super-homem estava a esconder a formulação mais simples, o melhor dos homens, de modo a fugir às questões éticas que lhe tirariam o chão. Parece que Nietzsche está a roubar o trabalho aos poetas. A filosofia devia ser clara, porque é que Nietzsche opta pelo hermetismo dissimulado? As suas metáforas, além do mais, parecem prescientes de bandas desenhadas. Numa sociedade devidamente especializada e sectarizada, não devíamos dar lugar a tamanhas indecências multidisciplinares, nem compactuar com isso. Sem querer heideggerizar o texto, devo dizer que Nietzsche escrevia aos berros e, por conseguinte, só se ouvia a si mesmo. Na escrita, é essencial que ouçamos os outros a falar connosco nos dedos. Se Chesterton já via uma timidez subtil nos modos de Nietzsche, então que dizer de Heidegger? Dos filósofos, Heidegger foi o mais tímido dos tímidos (expressão que faria os hebraicos sorrirem). Tal timidez leva-o, no final da sua vida, a dedicar-se a escritos místicos e religiosos. Talvez Heidegger tenha percebido o problema da sua aspiração desamparada. Se te tornas aquilo que conheces, porque não permaneceu Heidegger católico para sempre? Talvez porque a sua aletheia secular se deu quando ele só conhecia a Alemanha nazi. O nosso conhecimento nunca é suficiente. De outra forma, tornamo-nos escravos do contexto e a aspiração e a sujeição é uma pescadinha de rabo na boca, termo comezinho para paradoxo (reparem como abstrai de um jogo de linguagem para outro). Os paradoxos não nos tiram do sítio, imobilizam o pensamento. Nietzsche e Heidegger não foram filósofos muito gentis, Ortega Y Gasset diria. Se os pós-estruturalistas são tão devotos ao Ser e Tempo de Heidegger, como se de uma bíblia do século XXI se tratasse, deviam ter tido consciência de que, antes de interpretarem Heidegger à meia-luz de uma ideologia progressista, a hermenêutica de Heidegger não é perfeita nem original (no sentido de génesis).

       Todos os livros poderiam ser representados como tentativas de círculos, exceto, diriam os pós-modernos, os livros pós-estruturalistas, que estão preocupados em que o círculo não seja um círculo — esse é o seu círculo característico. Portanto, desfeita esta desonestidade intelectual, todos os livros querem justificar-se a si mesmos. Esta é a tendência humana. O único livro capaz de se justificar a si mesmo foi a Bíblia, porque ela foi a Revelação, a Aletheia. A Bíblia é o círculo perfeito, a hermenêutica absoluta. O ser humano, desde a sua origem, ainda não conseguiu provar o contrário, e não foi por falta de tentativa. Não devíamos usar aqui os princípios falsificacionalistas de Karl Popper? Não devíamos assumir a Bíblia como o paradigma da sociedade? Porque nos escondemos em hermenêuticas de hermenêuticas de hermenêuticas e nos entregamos ao erotismo acéfalo? Desistimos de pensar? No geral, eu estou convicto de que sim. E quem não desiste, vive num tormento, alienado, perdido e condenado pela liberdade, como andei até me ter sentado para começar a entender-me. Talvez seja disto que precisamos. Uma hermenêutica de nós mesmos.

Voltando aos círculos, há livros que estão mais próximos do Círculo Perfeito que outros. O Ser e Tempo é o livro do século XX que mais próximo está da Bíblia, por isso foi também o mais acreditado. Heidegger usa os princípios da hermenêutica cristã, o que o aproxima mais da realidade. O único problema do Ser e Tempo é que é um quase-círculo. Não se justifica a si mesmo. E por ser o mais próximo da Revelação foi, também, o que mais seduziu. E por ser tão perto da Aletheia, ele é o mais perigoso dos livros. Porque deixou uma parte essencial da realidade de lado—Deus, novamente, nomeando chrónos para senhor da galáxia. Substituamos o Ser e Tempo pelo Ser e Deus, não tenhamos vergonha de não sermos os criadores de nós mesmos. É necessário recuar na linhagem histórica da ontologia, à falta de melhor termo. Substituir a ontologia do devir pela ontologia do Ser — Ipsus per se subsistens — aquele que se justifica a si mesmo. Círculo perfeito.

       É curioso perceber que um dos fragmentos de Heraclito, que serviu de mantra para a ontologia do devir, é retirada do pouco contexto que temos de Heraclito (porque retirar frases dos pré-socráticos fora do seu contexto é permitido pela lei pós-moderna, uma vez que Heidegger também o fez). Essa frase é, e acho que todos conseguimos fazer uma oração a ela: Não se pode percorrer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado; por causa da impetuosidade e da velocidade da mutação, esta se dispersa e se recolhe, vem e vai. (Amen). Se assumirmos esta frase como a máxima da nossa existência, estamos em patamar escorregadio e as consequências estão à nossa vista. No entanto, há mais duas frases de Heraclito, que T. S. Eliot escreveu como mote do seu Four Quartets, que são desvalorizadas, (talvez, propositadamente (inclusive na entrada da Wikipedia)): Although logos is common to all, most people live as if they had a wisdom of their own; e The way upward and the way downward are the same. Então como é que Heraclito pode ter escrito coisas tão aparentemente contraditórias? Talvez porque Heraclito, na posse do seu logos, conseguia maravilhar-se com a eterna renovação da criação divina.

       Da mesma forma que os livros deviam ser aspirações a círculos perfeitos, também as obras de arte deviam sê-lo. Ser um constante exercício de subtração de um ego que tende a impor-se sobre a realidade. De saber que há algo anterior a mim. De me questionar a mim primeiro antes de criticar o outro. Quando interiorizo isto, estou pronto para a arte.

Laurentîus de Rudigus, dezembro de 2020

-Sobre Laurentîus de Rudigus

Laurentîus de Rudigus (n. 1961) descreve-se várias vezes como um perscrutador megalómano do mundo. Tem frequentes ataques de ansiedade, quase esgotamentos, por se sentir impotente face à loucura e arrogância infinitas da sua própria espécie, mas resolve o problema quando vê o seu pequeno neto aos fins de semana. Escreve quase sempre para a sua melhor leitora — a gaveta. Há muito tempo que se decidiu resguardar da nova vida social que nos prende aos ecrãs, e vive num estrito triângulo cujos vértices são o escritório, o café-clube de filosofia e casa, esta a que chama, com ironia salvífica, a sua torre de marfim.

– Sobre a Interferência –

A Interferência – Associação de Intervenção na Prática Artística é um colectivo artístico do Porto com trabalho direcionado para a criação e formação na área da nova música que pretende explorar os limites da percepção e do gosto musical entre os diferentes públicos, alicerçada na clareza narrativa como arma necessária para uma intervenção social. Através dos Cursos e Workshops Interferência, tem criado oportunidades acessíveis de formação especializada a jovens e graúdos interessados em conhecer mais e melhor o mundo que os rodeia. Paralelamente programa concertos de jovens artistas através do Ciclo de Concertos: Electrónica Sem Pastilhas; e com a digressão de criações internas, como SUPRAHUMAN (2019)  QUEM FALA ASSIM (2020) tem-se apresentado em espaços como a Porta-Jazz, Café Concerto Francisco Beja (ESMAE) Casa das Artes (Porto), Auditório do Conservatório de Música de Coimbra e Braga, Teatro Municipal Sá de Miranda (Viana do Castelo), Fábrica da Criatividade (Castelo Branco), O’culto da Ajuda ou Gnration.

Texto de Laurentîus de Rudigus
Ilustração de Sónia Teixeira
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