Experimentar vem do latim experimentum, que significa ensaio ou prova. Não me parece uma informação muito elucidativa, nem pretendo aprofundá-la, mas parece-me um bom começo, não só porque anuncio, de uma forma sucinta, o assunto a abordar, mas também porque demonstro uma pesquisa prévia, fazendo com que o leitor depreenda que haverá uma coerência intelectual e académica necessária para que este texto seja levado a sério. Mas será que quero assumir, logo de início, que isto é para ser sério? O que ganho com isso? Será que o leitor, ao ler isto, não vai achar que é um texto enfadonho e desiste? Ui, já começo a fazer perguntas… é melhor fazer um parágrafo.

Agora que reparo, gastei um parágrafo, ainda não abordei o assunto, já tornei isto numa grande balbúrdia, mas mantenho uma vontade de não carregar na tecla de apagar. Bastava carregar nessa tecla com a setinha para a esquerda e voltar a escrever tudo e, provavelmente, já alcançava um texto muito mais coerente e estilizado. E era mais fácil! É de conhecimento geral que seguir as normas e padrões dá muito menos trabalho. Mas então, porque é que estou a escrever aquilo que devia estar a apagar? Ui, agora veio uma pergunta perigosa. Respondo ou deixo pairar a expectativa? Parágrafo!!

Uma folha em branco é aterrorizadora. Percebe-se que cria propositadamente tensão para o meu lado. Podia ter uma atitude positiva, acreditando que iria receber palavras bonitas, mas não, apenas olha para o facto de que, inevitavelmente, será uma folha de rascunho. É a primeira folha, queria o quê? Alguma tinha de ser. Eu, para não ter de encarar esta situação, ando há uma semana para começar a escrever, pensando: qual será o melhor começo? Qual será a estrutura do texto? Qual a primeira palavra que uso? E andei nisto até começar a ver a data de entrega a aproximar-se. Ganhei coragem e comecei a escrever. Começar com a etimologia da palavra não foi um bom começo, admito, apesar de soar melhor na minha cabeça. Mas foi o necessário para assumir que “perdido por cem, perdido por mil”. Comecei por escrever sem rumo, a escrever por escrever quando, ainda a meio do processo, me apercebi de que este texto tinha potencial. Não comentei nada com o leitor para o manter entretido, mas comecei a explorar o material, a destilar as possibilidades que surgiram. Manter o interesse do leitor é importante. É para ele que escrevo e, como tal, por muito que eu queira experimentar, tenho a consciência de que o produto final terá de ser algo apetecível. Apetecível como um abraço da nossa mãe.

Vou aproveitar este momento, em que o leitor está distraído a pensar nos maravilhosos abraços da mãe, para tentar perceber o porquê de gostar do que já escrevi. A isso chama-se análise: memorizem! Por outras palavras, é o momento em que paro e reflito sobre o que foi feito. Aproveito igualmente para refazer algumas frases e corrigir alguns erros de português. Mas perguntam os caros leitores que, entretanto, se esqueceram dos abracinhos da mãe…. Foda-se, voltei a lembrá-los dos abracinhos da mãe.

Este é um momento importante para a vida deste texto. Estejam especialmente atentos os impulsionadores educativos — pais, professores, irmãos mais velhos e tias solteiras. Eu sou o agente que pode terminar ou continuar este texto! Basta um passo em falso e este texto morre e torna-se numa ideia falhada. Não pensem que estou a hiperbolizar, isto é matar ou morrer. A minha vontade enquanto experimentador (tentei encontrar uma palavra melhor, mas a solução do Google era enólogo) é continuar. No entanto, tenho medo de errar. Aqui entra o agente educativo, no meu caso sou eu mesmo, que avalia a ideia e a questiona com o experimentador. Tudo é questionável. Quanto mais questionarmos, maior é a probabilidade de alcançar uma boa solução[1].  Neste preciso momento, estou a ler e a questionar se o referido abraço deva ser da nossa mãe, ou se expando para todas as mães e cada um escolhe a mais indicada, ou as mais indicadas. Isso poderá ter vantagens e desvantagens. Por um lado, ganho tempo, porque o leitor vai estar entretido a escolher o abraço mais acolhedor. Por outro, corro o risco de escolherem a minha, o que é algo que me pode apoquentar. Dividir o seu miminho com a minha irmã já me exige muita tolerância. Parágrafo!!!

A pergunta é o que nos faz criticar o trabalho e perceber os seus pontos fortes e fracos. É necessário reler tudo e perceber quais as características distintivas deste texto, de que é que estou a gostar e de que forma consigo adaptar isso à minha necessidade. Isto é transversal a qualquer domínio profissional, artístico, etc… O importante aqui é eu (agente pedagógico) ter consciência de que, como ponto de partida, nada está errado. Pode haver coisas que estão descontextualizadas, outras que precisem de ser exploradas para ser credíveis, outras que necessitem de ser (re)elaboradas para que o público as compreenda. Esse é o trabalho que eu tenho de fazer para que este texto deixe de ser apenas uma ideia e alcance a sua materialização.

Como agente educativo, o meu trabalho não termina com as perguntas. Faço-as para ajudar à reflexão. Não obstante, tenho de estar disponível para apresentar sugestões, ou melhor, sugerir meios para que o experimentador alcance essas soluções, preferencialmente por ele. O agente terá de estar disponível (e feliz) com os possíveis resultados, diferentes dos seus, encontrados pelo experimentador. Este é, provavelmente, o maior desafio para um pai, para um professor, para um irmão mais velho ou para a tia solteira. (Vejam que bem, voltei a usar a mesma piada, o que por um lado fortalece a estrutura do trabalho, mas por outro pode indiciar falta de criatividade). Atenção, este momento do processo pode tornar o agente educativo num simples agente reprodutivo de criadores em série. Para tal, basta que apresente inicialmente as suas ideias ou descredibilize o experimentador e as suas propostas. Isto faz-vos lembrar alguém? Eu sei, todos nós conhecemos uns quantos. (Olha, olha, o autor a ser maroto e impertinente.) Como agente educativo, digo-vos que temos de ser duros connosco e não cairmos nesta tentação. Provavelmente, o processo demorará mais, mas o resultado pode ser algo que nos surpreenda, ou então o experimentador, por ele, compreenderá que a sua solução não é a adequada. Em qualquer um dos casos, o experimentador está a aprender, o que é lindo. É exatamente esse o papel que eu, o agente educador, estou a fazer comigo, o experimentador. Estou a deixá-lo escrever e explorar algo que, provavelmente, será uma má opção, pelo menos para conseguir atingir o objectivo inicial de falar dos seus seminários didáticos musicais. Também já lhe deixei um tópico a lembrá-lo de que seria bom, e coerente, tentar explicar o título, mesmo que fosse com uma piada foleira. Mas não posso deixar de frisar que, enquanto agente educador, também estou bastante divertido e curioso para descobrir como é que ele vai resolver estes problemas.

Vou dizendo o que estou a escrever e começo a ficar receoso. Pareço um narciso bipolar, alguém com quem o leitor não vai querer encontrar-se na rua e muito menos convidar para um café. Da minha parte, compreendo perfeitamente. Fico mais preocupado se existir algum leitor que, mesmo assim, ainda se sinta confortável por partilhar o mesmo espaço comigo. Bem, voltando à temática:

Mas experimentar é para todos? É! Basta ter o conhecimento básico de uma linguagem, ferramenta, temática, … e conseguir respirar. Aqui têm um exemplo disso: eu, o explorador! Não sou escritor, nem ensaísta, nem argumentista, apenas Baptista. Nunca fiz um workshop de escrita criativa, nunca escrevi muitas cartas, nem tão pouco consigo escrever mensagens no telemóvel. Tenho os dedos grossos e carrego em várias letras ao mesmo tempo. Aprendi as regras básicas de escrita na escola e vou lendo alguns escritores (esses sim, dominam a arte da conjugação das palavras). No entanto, apesar de não dominar a técnica, sou humano e, inerentemente, um criativo, logo, sou ascendente experimentalista. Posso tornar esta característica mais inata se fizer muitos trabalhos experimentalistas, ou se vir, com espírito crítico, outros trabalhos.

Para os mais lerdinhas, fica aqui um esquema daquilo que é uma abordagem pedagogicamente válida para o processo da exploração:

0. Ouvir, ler, estar receptivo ao mundo;

1. Experimentar/brainstorming;

2. Adotar uma ideia;

3. Experimentar a ideia;

4. Parar e analisar/questionar o resultado. É aqui que entra o formador! É neste momento que podemos achar que afinal a ideia não é assim tão boa, ou que não é isto que pretendemos. Se isso acontecer, voltamos ao ponto 1;

5. Organizar as ideias numa sequência lógica;

6. Voltar repetidamente ao ponto 4 as vezes que forem necessárias;

7. Yupi!!! Produto final.

A Interferência tem isto. Isto tem nome. Isto é Anticatacresofonia.


-Sobre José Tiago Baptista-

O seu percurso musical inicial, apesar de relevante, foi banal. O seu auge académico, até ao momento, é ser mestre em Ensino da Música — Variante Composição e Análise Musical, pela Universidade de Aveiro, onde materializou, em tese, as suas reflexões sobre a potencialidade e necessidade da música contemporânea na prática pedagógica de ensino de Teoria e Análise Musical. A vida do José não passa apenas pelos estudos, mas enfim… pesquisem. Importante referir que o autor desta biografia, apesar de ser o próprio a escrevê-la, nunca deixou de escrever na 3ª pessoa. Chama-se profissionalismo.

– Sobre a Interferência –

A Interferência – Associação de Intervenção na Prática Artística é um colectivo artístico do Porto com trabalho direcionado para a criação e formação na área da nova música que pretende explorar os limites da percepção e do gosto musical entre os diferentes públicos, alicerçada na clareza narrativa como arma necessária para uma intervenção social. Através dos Cursos e Workshops Interferência, tem criado oportunidades acessíveis de formação especializada a jovens e graúdos interessados em conhecer mais e melhor o mundo que os rodeia. Paralelamente programa concertos de jovens artistas através do Ciclo de Concertos: Electrónica Sem Pastilhas; e com a digressão de criações internas, como SUPRAHUMAN (2019)  QUEM FALA ASSIM (2020) tem-se apresentado em espaços como a Porta-Jazz, Café Concerto Francisco Beja (ESMAE) Casa das Artes (Porto), Auditório do Conservatório de Música de Coimbra e Braga, Teatro Municipal Sá de Miranda (Viana do Castelo), Fábrica da Criatividade (Castelo Branco), O’culto da Ajuda ou Gnration.

Texto de José Tiago Baptista


[1] Não estou com isto a dizer que um padre, apenas por acreditar em dogmas, não pode ser um bom explorador.

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