Mas antes, 
permitam-me a interferência:

Tudo não começou quando Max Mathews programou um computador para cantar Daisy Bell em 1961, ainda assim, é aqui que vamos começar.

Em 1957 – parece que me enganei – Max Mathews criou MUSIC, o primeiro programa de computador capaz de síntese sonora. Isto é, de criação musical usando processos digitais posteriormente convertidos em som que os nossos cérebros consigam interpretar. Antes de avançar, note-se: ouvimos com o cérebro, não com os ouvidos. Se não acreditam, façam o pequeno exercício de cantar, em silêncio, na vossa cabeça, o “Atirei o Pau ao Gato” ou uma daquelas músicas que, depois de se ouvir, se perpetua na nossa memória até que o foco mude – e, eventualmente, sempre muda.

Em 1955 – e recuamos mais uma vez no tempo; o foco, porém, ainda é o mesmo – Max Mathews[1] começou a trabalhar nos Laboratórios Bell como “Acoustic Researcher”, função que só me atrevo a traduzir literalmente como Investigador Acústico, sugerindo, assim, que Max Mathews não se tratava de um simples ser-humano, mas um que nos lembra uma personagem de um livro de ficção científica com capacidades para lá da dos comuns mortais, um herói que nos lembra que há mais formas de ouvir. Há quem só se lembre de que realmente ouve quando tem uma otite.

Numa entrevista conduzida por Curtis Roads, Max Mathews conta como a música criada com computadores foi recebida com uma combinação de cepticismo, medo e uma completa falta de compreensão. A comunidade de músicos dividia-se, de um lado tínhamos o compositor, entusiasmado, interessado e sedento por descobrir novos sons e explorar potencial, o seu e o do computador como motor para criação; por outro lado, o performer, nesses tempos, receoso dos danos que estes desenvolvimentos poderiam trazer à sua carreira. Max Mathews, pioneiro da computação musical, liderou uma nova etapa, não meramente uma mudança, mas um novo passo, não um passo numa nova direcção, mas sim uma nova perna ou duas, e um braço ou dois, e um cérebro ou dois, quem sabe até, uma nova ideia ou duas, quer para os compositores quer para os performers.

Em 1913, – o tempo e o foco, agora em direcções opostas – o pintor Luigi Russolo escreveu A Arte dos Ruídos, um manifesto futurista no qual nos pediu que abandonássemos a todo o custo a ideia de que existem sons puros e que iniciássemos a conquista da variedade infinita do som-ruído. Este manifesto foi escrito numa carta ao seu amigo e compositor futurista Francesco Balilla Pratella.

Saliento aqui o último parágrafo deste seu manifesto, desta sua carta:

“Meu querido Pratella, eu submeto ao teu génio futurista estas novas ideias, e convido-te a discuti-las comigo. Eu não sou músico, por isso não tenho preferências acústicas ou obras para defender. Eu sou um pintor futurista que projecta numa arte que ama profundamente a sua vontade de renovar tudo. É por isto – mais audaz que o mais audaz músico profissional, totalmente despreocupado com a minha aparente incompetência, sabendo que a audácia me favorece de todas as prerrogativas e de todas as possibilidades – que concebi a renovação da música através da Arte do Ruído.”

“A pior das atitudes é a indiferença.”

Obrigado, Hessel.

Em 2010, – o foco e o tempo encontram um espaço em comum – Stéphane Hessel usou os seus 93 anos de idade para nos motivar a uma insurreição pacífica com o seu ensaio Indignai-vos. Hessel não aborda, aqui, directamente, questões artísticas e, ainda assim, Indignai-vos foi um dos livros mais relevantes no desenvolvimento do meu pensamento artístico durante a minha licenciatura em Jazz (Piano) na ESMAE.

Ainda em 2010: “Como não posso fazer nada, desenvencilho-me como posso.” Aos dezoito anos, comecei a tocar música de que não gosto, sendo mal pago, trabalhando demasiado para as condições que me eram dadas, esforçando-me o suficiente para fazer um bom trabalho e sendo recompensado com a ignorância das minhas vontades e dos meus conhecimentos ao longo de onze anos de estudos musicais. Foi necessária uma indignação interior em resposta a esta nova condição profissional que me era apresentada, contrariar a expectativa que me fora dada do que seria a minha vida como músico profissional neste país para que, com a ajuda de alguns bons professores, pudesse encontrar outras músicas, outros sons e, inevitavelmente, outras formas de criar.

“A todos aqueles e aquelas que irão fazer o século XXI, dizemos com afecto:

Criar é resistir.

Resistir é criar.”

É com esta máxima que Stéphane Hessel termina Indignai-vos, com um apelo à criação. Este livro foi-me dado a ler e foi-me lido numa aula simples com um nome impróprio ao mundo académico: Leituras Oblíquas. Claro está que este nome não é o nome que consta no meu currículo de curso, nomes destes não refletem a necessidade científica e pedagógica que justificam a atribuição de créditos na burocracia pomposa e exacerbada da academia. Nesta aula foram-me dadas bolachas e chá e livros e colegas com quem ler e discutir. Uma aula semanal, uma insurreição pacífica uma vez por semana.

O foco, às vezes, perde-se assim para encontrar outras coisas, novas coisas. Imagino quantas vezes terá Max Mathews perdido o foco para que eventualmente o seu trabalho o levasse a encontrar uma nova direcção, novos timbres e novas abordagens tecnológicas e musicais. Repare-se como também o pintor Luigi Russolo decidiu escrever um manifesto sobre uma arte que, aparentemente, não dominava, uma arte que não era o seu foco, e consequentemente desenvolveu um vasto trabalho como compositor e criador de novos instrumentos.[2]

Sento-me agora a escrever-vos isto, o piano a meu lado, já velhinho e com algumas mazelas, esteve fechado todo este tempo, embora me exija um relance ou dois quando a memória se desloca ao passado, porém, este mesmo portátil onde agora escrevo, comprado há pouco mais de um ano e com um aspecto muito pouco musical é a ferramenta que uso diariamente para compor e criar. Até ler Hessel pensava que o meu foco havia mudado, que saltara do piano para a electrónica. O problema nesta última frase é o significado atribuído à palavra foco.

Recentemente, comecei a desenhar, eu que nem uma conta de somar desenhava direito sem que as duas linhas do símbolo de adição se confundissem com o número sete! Agora, alguns meses depois de ter começado esta aventura, começo a desenhar no metro e no comboio como forma de viajar para além da óbvia deslocação no espaço. Tenho usado os gestos da mão que desenha para pensar, para sair da minha zona de conforto, para ver linhas e formas onde antes apenas via objectos e pessoas. E, como esperava que assim acontecesse, no meio desses gestos da mão que desenha, encontrei novas ideias musicais, novas vontades para a criação.

Falamos do foco como um ponto de convergência, lugar físico ou mental onde se concentra a nossa atenção e esquecemo-nos de que esse ponto é simultaneamente um lugar de origens, um gesto de insurreição pacífica.

Tudo não começou quando em 1961 Max Mathews nos deu Daisy Bell interpretada por um computador, ainda assim é para este momento da História que viajo quando penso numa introdução à música electroacústica. Fascina-me imaginar como terá sido ouvir aquela voz digital, como terá sido viver as reacções que esse momento suscitou. Porque o que me fascina nesse momento não é o computador, é Daisy Bell.

Daisy Bell, composta por Harry Dacre em 1892, também conhecida como “Bicycle Built For Two”.  Quando Dacre, compositor inglês, viajou pela primeira vez para os Estados Unidos viu-se obrigado a pagar um imposto sob a bicicleta que trazia consigo ao que o seu amigo William Jerome, compositor americano, lhe terá respondido: “It’s lucky you didn’t bring a bicycle built for two, otherwise you’d have to pay double duty.” Harry Dacre viria, então, a usar a expressão “Bicycle built for two” na sua canção Daisy Bell.

O que é que isto tem que ver com música electroacústica e tecnologias da música? Aparentemente? Tudo.

Acrescento o que já me foi dito: o potencial da tecnologia não está naquilo que permite, mas nas suas limitações. Indignai-vos! Lembremo-nos de que quem cria, no fundo, quem é possuidor de pensamento criativo, é cada um de nós. Nós que não precisamos – não sempre – da mais recente actualização, do mais recente sintetizador, da mais recente máquina para criar, até mesmo na criação de uma máquina. É simples e um tanto clichê e, ainda assim, não deixo de sentir que a insurreição pacífica, a encontro sempre no gesto da mão que desenha. É isso. O gesto, esse lugar aglomerador de tempo e de foco.


– Sobre Ricardo M. Vieira

Licenciado em Jazz-Piano pela ESMAE, integra a equipa da Digitópia da Casa da Música como compositor, sound designer e performer, Ricardo M. Vieira tem desenvolvido trabalho com Ýli, Melífluo e com a INTERFERÊNCIA. O seu foco encontra-se domado e convenientemente catalogado em ricardomvieira.com

– Sobre a Interferência –

A Interferência – Associação de Intervenção na Prática Artística é um colectivo artístico do Porto com trabalho direcionado para a criação e formação na área da nova música que pretende explorar os limites da percepção e do gosto musical entre os diferentes públicos, alicerçada na clareza narrativa como arma necessária para uma intervenção social. Através dos Cursos e Workshops Interferência, tem criado oportunidades acessíveis de formação especializada a jovens e graúdos interessados em conhecer mais e melhor o mundo que os rodeia. Paralelamente programa concertos de jovens artistas através do Ciclo de Concertos: Electrónica Sem Pastilhas; e com a digressão de criações internas, como SUPRAHUMAN (2019)QUEM FALA ASSIM (2020) tem-se apresentado em espaços como a Porta-Jazz, Café Concerto Francisco Beja (ESMAE) Casa das Artes (Porto), Auditório do Conservatório de Música de Coimbra e Braga, Teatro Municipal Sá de Miranda (Viana do Castelo), Fábrica da Criatividade (Castelo Branco), O’culto da Ajuda ou Gnration.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

Texto de Ricardo M. Vieira




[1] Remembering Max – A Tribute (csounds.com)

[2] “Intonarumoris”, Luigi Russolo, 1913

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