«We reason of these things with later reason

And we make of what we see, what we see clearly

And have seen, a place dependent on ourselves.»

Wallace Stevens, Notes Toward a Supreme Fiction

“Es necesario apuntar al tiempo que se conoce,

dirigirse al hombre con el que se convive”

Ángel González  

Numa época tão prendada em ataques e ofensas, achaques e remoques, vilanias de todo o jaez e ímpares desdéns e desprezos por tudo quanto se constitua como alternativa à aceleração e disforia informativa correntes – convém que o poeta se coloque, antes de mais, no seu devido lugar e humildemente se defenda.

            Para tal, pode e deve começar por defender a sua própria existência.

            Sendo poeta todo e qualquer indivíduo que se sinta forçado, implicado, empurrado, sabe-se lá por que alegrias ou tormentos, a escrevinhar algo que deseja ou ambiciona ser poesia – talvez devesse começar por defender-se garantido a si mesmo, esse estranho inclino de si próprio, que só escreve, que só pode escrever, por magnânimo desejo e dever: esse sentir-se forçado, implicado, a escrever deve ser, o mais possível, imperativo e categórico. Qualquer razão exterior, que não seja tão simples e a priori, talvez devesse ser preterida.

Na nossa vizinha Espanha, um grande poeta como Jaime Gil de Biedma, deixou de escrever pouco após os quarenta anos e quando lhe perguntavam por que raio não escrevia, tão simplesmente respondia: “lo normal no es escribir, lo normal es leer”.

            Nesta perspectiva, o acto de escrever é assumido como numa anomalia, uma bizarria até, se quisermos. Um delírio, podemos acrescentar.

            E, por isso mesmo, escrever torna-se inevitavelmente um tormento e uma alegria, a respeito do momento ou das suas causas. Uma paixão com altos e baixos, glórias e derrotas, como qualquer amor que se digne ser verdadeiro. Bem sei que a paixão, o amor, a alegria e o tormento são palavras antigas e pouco dadas aos tristes ares do nosso tempo. Os grandes ideais desabaram com o fim das grandes narrativas ideológicas, é comum dizer-se. Mas o poeta pode e deve escolher resistir ao cinismo. Porque se ele escreve com base nesse imperativo superlativo e interior, ele já está inconscientemente a resistir desde o princípio. A resistir contra a fugacidade dos calendários, dos relógios, dos fatais compromissos com coisíssima nenhuma.

A necessidade de parar para escrever equivale sempre ao desejo de combater o horrível fardo do tempo, de que Baudelaire falara no seu Spleen de Paris. Quem escreve, resiste contra o suposto (ou imposto) inevitável. Se é verdade, como escreveu Horácio, que tudo está condenado à morte, tanto nós como as nossas obras (“debemur morti nos nostraque”) – não é menos verdade que certas obras, entre as quais a horaciana é um magnum exemplo, atingem a única vitória possível contra a morte: atrasá-la fora pelos séculos. E é por isso que a poesia não tem de alinhar com o que se diz na praça pública, muito menos se deve retirar para o campo, onde, bem sabemos, é fácil escutar o canto dos pássaros e contemplar o sereno crescimento das urtigas e outras mais daninhas espécies.

A poesia, dizia, pode e deve interferir na pólis. Mas deve fazê-lo com os seus próprios meios: que não são as feiras e festinhas da malta dedicada ao culturalismo, está claro. Utilizando a língua, a gramática de todos os homens que nela habitam e pensam, pode e deve corrompê-la; desmontando clichés e lugares-comuns de toda a ordem e origem, pode até servir-se deles, mas deve subvertê-los (c.f. Alberto Pimenta, Hans Magnus Enzensberger, Samuel Beckett, Adília Lopes, et coetera, et coetera.)

Temos de voltar a confiar no poder da página onde o texto jamais se cala. Temos de voltar a acreditar no abismo que o texto abre dentro de nós, e, simultaneamente, preenche. Cada um de nós pode e deve regressar ao dever moral de querer ser mais através do que lê ou escreve. A poesia, a literatura, tem de deixar de pedir desculpa por existir. E de cada vez que um livreiro nos perguntar se o livro que queremos comprar é para oferecer ou enfeitar a estante da casa nova da tia Ermelinda, devemos respeitosamente sair, bater a porta com lírico estrondo, e não mais regressar.

            Posto isto, os poetas poderão continuar a lamentar-se, e com razão, do curto alcance das suas palavras. Poderão continuar a relembrar-nos até à exaustão, e fá-lo-ão impregnados de certeza, que a poesia é uma arte com uma audiência de trezentas ou quatrocentas pessoas, no seu tempo. No seu triste país. Mas continuarão a errar, ao limitarem a análise em torno da sua eficácia com base nesses dados tão podres.

A poesia, ao contrário do seu tempo, não cabe entre as margens das folhas de excel. É já demasiado tarde até para continuarmos a chorar pelo facto de sermos tardios. Não tarda nada, isto acabar-se-á e, nessa altura, acharemos que afinal “ai, ai de nós, tão cedo que era!” Não pretendo com estas palavras louvar os poetas carreiristas, prenhes de optimismo e aptidão para leiloar versos no Instagram. Entre estes e os primeiros, vitimados pela inevitável bílis negra que afecta qualquer ser preocupado com isto de se estar vivo e ter a cabeça bem erguida acima do umbilical medo – tendo a empatizar mais com os primeiros. Aliás, a minha mensagem é dirigida a esses, aqueles em quem a boa-fé ainda impera, por mais que os derrote. Aos restantes, os vaidosos pelintras que proferem frases do género (início de citação): “a poesia não salva o mundo, mas salva o minuto” (fim de citação) ou raio que os parta a eito – envio os meus mais sinceros votos de muitos amores e caipirinhas, em Copacabana ou Vendas Novas. O mundo é um palco e é-se dondoca onde se quiser. No entanto, nestes tempos amorfos, em que ao dia seguinte à invasão do capitólio se segue somente o telejornal em formato Big Brother, convém recordar que a poesia sempre serviu como contraponto à falsidade e ao imediatismo.

A poesia, quando é limpa e íntegra, por mais obscura que às vezes seja, tem sempre a nobre vocação de aproximar pessoas e diluir fronteiras, como escreveu Manuel de Freitas. Há uma corrente que prende, que deve prender o poeta, à mesa onde os homens comem; usurpando Jorge de Sena, poeta zangado mas também fascinante e fascinado que recordava com alegria as visitas ao seu velho amigo Artemidoro, no National Gallery.

            Por isso peço, enquanto leitor, agradecido a todos os poetas que me ajudam a combater a certeza da morte e a temerosa fugacidade do tempo, que não vos deixeis cair na tentação de ceder ao zeitgeist.

            Somos sempre contemporâneos da merda, escreveu o já citado Manuel de Freitas. Mas não é por isso que temos de ser ou comer merda, forçosamente.

*Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico

-Sobre Hugo Miguel Santos-

É livreiro, dramaturgista, serve finos, gosta de ler
e, tal como o Sr. Bartleby, preferia não escrever.

– Sobre a Interferência –

A Interferência – Associação de Intervenção na Prática Artística é um colectivo artístico do Porto com trabalho direcionado para a criação e formação na área da nova música que pretende explorar os limites da percepção e do gosto musical entre os diferentes públicos, alicerçada na clareza narrativa como arma necessária para uma intervenção social. Através dos Cursos e Workshops Interferência, tem criado oportunidades acessíveis de formação especializada a jovens e graúdos interessados em conhecer mais e melhor o mundo que os rodeia. Paralelamente programa concertos de jovens artistas através do Ciclo de Concertos: Electrónica Sem Pastilhas; e com a digressão de criações internas, como SUPRAHUMAN (2019)  QUEM FALA ASSIM (2020) tem-se apresentado em espaços como a Porta-Jazz, Café Concerto Francisco Beja (ESMAE) Casa das Artes (Porto), Auditório do Conservatório de Música de Coimbra e Braga, Teatro Municipal Sá de Miranda (Viana do Castelo), Fábrica da Criatividade (Castelo Branco), O’culto da Ajuda ou Gnration.

Texto de Hugo Miguel Santos
Fotografia de Patrícia de Brito Pereira
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