A Academia Gerador realizou, em 2021, um estudo em que questionou os portugueses sobre quais seriam as maiores dificuldades que os jovens enfrentam hoje em dia. Pedimos aos inquiridos que classificassem, numa escala de 1 a 10, em que 1 significa “nada difícil” e 10 significa “muito difícil”, as seguintes áreas:  habitação, emprego, educação, família, tempo para vida social e para lazer, conexão social, e saúde mental e bem-estar.

Ao observarmos os resultados, compreendemos que os portugueses consideram que, hoje em dia, as maiores dificuldades enfrentadas pelos jovens estão relacionadas com a habitação (comprar ou alugar casa), atribuindo-lhe, em média, 8.7 pontos. Em segundo lugar surge o emprego (conseguir autonomia financeira, trabalho estável e/ou na área de formação). De seguida, avaliada com 7.4, surge a dificuldade de conseguir constituir família. 
Só depois, com classificações menores que 7, surgem os outros aspectos: a saúde mental, a educação, o tempo para o lazer e para a vida social, e, por último, com uma classificação abaixo de 6, a conexão social. 

Depois de analisar estes dados, o Gerador decidiu lançar uma nova rubrica investigativa, composta por 7 entrevistas, realizadas a 7 jovens diferentes.

Todas as semanas iremos abordar, junto de um entrevistado, um dos temas trazidos à discussão por este questionário. Na entrevista passada, falámos com Mariana Duarte Silva sobre o tempo para a vida social e para lazer, hoje, é o tema da Saúde Mental que nos traz aqui. 

Classificada apenas com 6.9 na média geral, é interessante observar que, para os mais jovens, entre os 15 e os 24 anos, a saúde mental surge logo em terceiro lugar, com uma avaliação ligeiramente superior à da média nacional e que, até à faixa etária dos 35-44 anos, este aspecto surge sempre avaliado com mais de 7 pontos. Porém, os mais velhos são quem mais desvaloriza as dificuldades relacionadas com esta mesma dimensão. 

Já as mulheres, atribuem pontuações mais elevadas a todas as dificuldades propostas mas, no entanto, é na saúde mental que também se vê uma maior discrepância em relação à média das pontuações dadas pelos homens.

Natural do Brasil, Kariula Barraló é uma psicóloga júnior de 31 anos, que viu em Portugal a sua segunda casa. Há cerca de seis anos, continuou os seus estudos em Psicologia, os quais se viu obrigada praticamente a recomeçar porque as equivalências curriculares que trazia consigo do Brasil não eram compatíveis como esperava.

O seu interesse começou logo após terminar o secundário. Queria trabalhar com pessoas nas áreas Humanas numa ótica mais social. Entrou então para o curso de Psicologia e após se iniciar no Brasil partiu rumo à Europa. Depois de fazer o curso no Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais e da Vida - ISPA realizou um estágio na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa - FCT NOVA, num gabinete de apoio que a Universidade disponibiliza a todxs xs alunxs. Terminou o mestrado em 2019 e realizou o seu segundo estágio, desta vez profissional, meses depois para se poder inscrever na Ordem dos Psicólogos e exercer. Foi então que chegou ao Centro ABCReal Portugal, um centro de Reabilitação e Melhoria da Qualidade de Vida de Crianças, Adolescentes e Adultos.

Após terminar o seu estágio foi mãe pela segunda vez e, desde então, procura um local que a abrace tanto quanto o faz com a Psicologia Clínica. O desejo seria trabalhar junto das comunidades e prestar-lhes o apoio que tanto desejam e procuram.
Kariula esteve à conversa com o Gerador onde partilhou as suas reflexões enquanto psicóloga, utente e pessoa que pretende colmatar e repensar a Psicologia em Portugal.

Gerador (G.)- Tendo como ponto de partida a tua tese Comportamentos autolesivos e ideação suicida nos jovens,acho que seria importante perceber de que se trata esta realidade nxs jovens, atualmente.

Kariula Barraló (K.B.) - Sim, a minha tese na altura foi sobre comportamentos autolesivos e ideação suicida em adolescentes. Então, apliquei questionários nas escolas em adolescentes, o objetivo do meu estudo era investigar a relação dos comportamentos autolesivos com o funcionamento familiar na perceção das mães. O facto é que a maioria dos adolescentes, mesmo no meu pequeno grupo, apresentava esse tipo de comportamento.

G. - Depois dessa análise conseguiste perceber de que forma o seio familiar pode ou não incitar a esse tipo de comportamento?

K.B. - Bem, a verdade, é que são diversas as variáveis. Não podemos resumir a uma em específico como a causadora desse comportamento, mas no meu estudo, por exemplo, encontrei uma correlação positiva entre o tipo de funcionamento familiar e os comportamentos autolesivos. Quanto aos pais, no início, eu tentei recolher informação, mas a participação dos pais no estudo foi tão limitada que eu vi-me obrigada a excluir a amostra dos mesmos. Eles não responderam aos questionários e me pareceu que não queriam participar nessas questões.

G. - O porquê desta falta de interesse e distanciamento? Até porque este é também um factor que pode influenciar no desenvolvimento dxs jovens e das crianças.

K.B. - Eu creio que passa também por uma questão cultural. É uma opinião própria, porque este aspeto nada tem que ver com o meu estudo, mas é como se essa parte da participação nas questões escolares, na maioria das vezes, fosse uma responsabilidade só da mãe. É como se o pai se abstivesse. Não quer dizer que sejam todos os pais assim, claramente, mas naquela amostra foi o que retirei.

G. - Tendo ainda em consideração esta questão, olhemos para os números. Classificada apenas com 6.9 na média geral, os mais jovens, entre os 15 e os 24 anos, consideram a saúde mental como a terceira maior dificuldade, numa análise do seu dia-a-dia. Atendendo ainda ao contexto que vivemos no último ano, acreditas que existiu uma maior preocupação perante a informação em relação à Saúde Mental ou esta ainda se encontra 'localizada' no vazio?

K.B. - O contexto de pandemia trouxe-nos uma luz, diria, no que toca ao pensar e falar sobre a Saúde Mental. Discutiram-se mais temas relacionados a saúde mental nesse último ano e a influência na vida dos adolescentes e jovens, sobre a ansiedade; o isolamento; o facto de não terem convívio com os pares, o que é também muito importante.

Existiu também um aumento de procura de ajuda a nível da Saúde Mental, ou seja, alguns dos adolescentes que já tinham uma predisposição para ter algum tipo de perturbação, isso também se acentuou porque ficaram descontextualizados. No caso, a escola é muito importante para eles se desenvolverem, para se expressarem, mas isto é olhando para um contexto geral.

O investimento que Portugal faz nesta área da saúde mental é precário. Não vejo que tenha existido uma grande mudança dos últimos tempos até agora. No último ano eu faço parte da Ordem dos Psicólogos e eles têm trabalhado muito a nível de promover a Saúde Mental. Fazem-nos chegar muito conteúdo e disponibilizam vários artigos para lermos e para estarmos cada vez mais atentos a estas questões.
Este último ano eu não estou a trabalhar/estudar e, por essa razão, esta opinião parte muito da percetibilidade que eu tenho, em jeito mais leigo, claro que sempre com alguma pesquisa.

G. - O que não deixa de ser relevante ou válido, claro. Tenho ainda outros dados em que gostava de te ouvir. Já numa faixa etária superior, de 35-44 anos, a Saúde Mental é também um aspeto que surge sempre avaliado com mais de 7 pontos. Porém, os mais velhos são quem mais desvaloriza as dificuldades relacionadas com esta mesma dimensão. Existe um aumento e reconhecimento da importância da Saúde Mental. Ainda assim, e tendo em conta a participação adulta na tua tese, por exemplo, consideras que este tema tem vindo a registar uma maior abertura e preocupação a nível social ou ainda vive numa mentalidade preconcebida?

K.B. - Eu acho que no último ano, sim. Houve uma maior abertura, até porque foi disponibilizada uma linha de apoio psicológico através do Sistema Nacional de Saúde 24, onde as pessoas podiam ligar, porque nessa altura muitas pessoas registavam um elevado índice de ansiedade e creio que começaram a olhar para essas questões e procuraram ajuda. A realidade é que eu não estou na clínica e não consigo ter uma perceção tão específica, mas sei que a procura de ajuda psicológica aumentou, isto porque também surgiram mais oportunidades de trabalho. Tenho colegas que partilham o facto de terem mais pacientes com esse tipo de dificuldade.

G. – Sobre a linha de apoio, a Voz Amiga, pelo que sabemos registou-se também um maior contacto até mesmo por parte dos mais jovens...

K.B. – Eu penso que os jovens mostram uma maior abertura na busca de ajuda/apoio psicológico em relação aos mais velhos. Aquele tabu de que ‘psicólogo é só para quem é louco e quem tem problemas mentais’ creio que nesta nova geração é um tipo de pensamento que vem diminuindo cada vez mais. O psicólogo pode ajudar de muitas outras formas, inclusive a lidar com as questões surgidas durante a pandemia, como a solidão, ansiedade e com as questões normais do desenvolvimento nessa fase da vida.

G. – A informação que se foi difundindo no último ano pode ter ajudado, mas consideras que há muito ainda por abordar respetivamente à Saúde Mental, à sua consciencialização e prevenção?

K.B. - Claramente.Se a pessoa tem uma dor física, vai ao médico, toma um medicamento e aquilo fica mais ou menos resolvido. Já quando se trata da saúde mental, é como se fosse algo abstrato. As pessoas, por vezes, estão depressivas e isso é muito desvalorizado, mesmo dentro da família. Eu acho que ainda temos de avançar muito no sentido de valorizar mais esta questão da saúde mental. Sinto que não há disponibilidade de serviço de Psicologia para todos no sistema nacional de saúde. A fila de espera por esse serviço é gigante para um único psicólogo responder a demanda. É complicado. Como disse, eu sinto que o nosso trabalho é desvalorizado, o que não nos permite fazer muito pelas pessoas.

G. - E mais uma vez isto pode estar ligado com a questão cultural, ou seja, a sociedade portuguesa ainda se deixa perder perante a desvalorização e importância da saúde mental?

K.B. - Sim. Isto já vem lá detrás. É uma questão cultural. Se as pessoas percebessem que procurar um psicólogo para ajudá-las no seu dia-a-dia é uma boa opção, talvez não fosse tão problemático. Na sua maioria, só procuram um psicólogo quando estão num estado limite, quando a questão está muito agravada.  Se uma pessoa procurar apoio psicólogo por iniciativa própria tem de pagar e não são todas as pessoas que tem essa condição financeira. Isto porque se fizer o pedido através do Sistema Nacional de Saúde fica em fila de espera e as questões têm de ser resolvidas agora e não daqui a seis meses ou daqui a um ano. Se as pessoas tivessem mais oportunidades de acesso a esse serviço se calhar procuravam mais vezes o psicólogo e isso ajudaria a melhorar a saúde mental e a combater esse mesmo estigma.

G. - Falamos de uma realidade que teria também de ser ultrapassada mesmo a nível institucional?

K.B. - Exatamente. O investimento é muito baixo, não só nos serviços de saúde, mas também nas escolas. Às vezes é um psicólogo para um agrupamento de escolas, que é gigante. É óbvio que não consegue dar conta de tudo nem de toda a demanda.

G.- Ainda sobre a nossa recolha de dados as mulheres, atribuem pontuações mais elevadas a todas as dificuldades propostas mas, no entanto, é na saúde mental que também se vê uma maior discrepância em relação à média das pontuações dadas pelos homens. Falamos aqui de imensos fatores e realidades envolvidos, a maternidade é também uma delas e que se verifica muito precária no que toca ao apoio psicológico?

K.B. - Eu como psicóloga diria que sim, mas como utente do Serviço Nacional de Saúde e como grávida, duas vezes, esse tipo de serviço nunca é oferecido. As gestantes nem sequer ouvem falar sobre isso, sobre essa possibilidade de ter um acompanhamento psicológico nessa altura. Se ela tiver num hospital e passar por uma situação mais delicada, nesses casos oferece-se apoio psicólogo hospitalar para intervir. Seria de todo do nosso interesse que houvesse porque a mulher passa por muitas transformações no período da gestação e está mais vulnerável, ajudaria a todos os níveis.

G.- Durante o teu período de formação e de estágio sentiste alguma evolução sobre todos estes pontos que fomos abordando?

K.B. - Eu não sinto uma evolução significativa. Muito sinceramente, como trabalhei com crianças com necessidades especiais, uma das coisas que eu sentia falta era trabalhar com aqueles pais e mães. São muito solitários. Eu acho que além do trabalho com as crianças também deveríamos de realizar algum tipo de trabalho com estes pais porque eles precisam de falar sobre aquilo. Talvez um grupo onde eles pudessem partilhar experiências e percebessem que não estão sozinhos. No entanto, não há nenhum tipo de apoio. Eu sinto que, nos últimos tempos, a única coisa que eu vejo de diferente é a linha de apoio que falávamos há pouco. É como se não houvesse mesmo preocupação com a saúde mental da população. Não há um trabalho de prevenção, mas sim o trabalho de atuar em situações específicas em algo que já está muito avançado, e isso é muito mau. Se tivéssemos esta facilidade de prevenção poderíamos prevenir muitas realidades e situações.

G.- Prevenir ao invés de atuar? De que de que se trata?

K.B. -Eu acho que primeiro devíamos de dar oportunidade a todas as pessoas terem acesso ao serviço de psicologia. Não podemos falar de prevenção se não damos oportunidade, além disso o acesso à informação é muito importante. As pessoas precisam de ter mais informação em relação à saúde mental, para que possam identificar de que se trata, para poderem procurar ajuda e evitar que a situação chegue num ponto limite. Pela minha experiência, vejo que as pessoas conseguem identificar o seu estado de saúde, no entanto, não procuram ajuda, porque não têm condições financeiras. Como o acesso a esse serviço é limitado, pensam que têm que lidar sozinhas com a situação. Algumas pessoas eventualmente conseguem,  outras pessoas simplesmente não conseguem e depois terminam num quadro que vai piorando e acabam na medicação. Não é que eu seja contra a medicação, ajuda, mas é preciso também ter em conta um apoio psicológico em conjunto. Eu acho que seria mais da oferta de serviço para a população e também mais informação, até a nível do audiovisual, cultural , partindo da sua influência na sociedade. Se pudéssemos também desmistificar de que o psicólogo é somente para quem tem um problema mental seria bom. O psicólogo também serve para o autoconhecimento, para a reflexão e para nos tornarmos mais independentes.

Ficha Técnica

O universo do estudo é constituído por indivíduos com idade igual ou superior a 15 anos, residentes em Portugal Continental e Ilhas. A Amostra, com 1.200 entrevistas validadas, foi estratificada por região, sexo e escalão etário, em Portugal Continental, e por Ilhas, e distribuída em cada estrato de acordo com a repartição da população alvo em cada estrato. As entrevistas foram realizadas de 22 de março a 27 de abril de 2021, através de um questionário aplicado online utilizando o método CAWI (Computer Assisted Web Interview). Os resultados são apresentados com um nível de confiança de 95%. A margem de erro para a média na escala 1 a 10 é de 0,13 pontos e a margem de erro para a proporção é de 2,12 pontos percentuais.

Texto de Patrícia Silva
Fotografia da cortesia de Kariula Barraló

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