Nem sempre as relações culturais entre países são verdadeiramente reconhecidas, nem tão pouco celebradas, sendo muitas vezes enquadradas apenas num plano simbólico de cooperação e convivência. Mas existem exceções. Em 2006, celebrou-se a primeira edição do Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura, que distingue “um autor, pensador, criador ou intérprete vivo, ou uma pessoa coletiva sem fins lucrativos, que, por intermédio da sua ação nas áreas das artes e da cultura, tenha contribuído significativamente para o reforço dos laços entre os dois Estados e para um maior conhecimento recíproco da criação ou do pensamento”.

Até hoje, o mesmo prémio distinguiu figuras portuguesas e espanholas, entre elas o tradutor e ensaísta espanhol Perfecto E. Cuadrado ou a cantora e intérprete portuguesa Mariza. Na sua 5.ª edição, em 2014, foi a vez da escritora portuguesa Lídia Jorge ser distinguida com a mesma honra.

Partindo da atribuição desse prémio, Lídia Jorge salienta, em entrevista ao Gerador, a importância das relações culturais entre os dois países, refletindo igualmente sobre o papel da literatura, que deve manter uma “vocação universal”, como forma de “resistência pacífica à homogeneização e ao elogio da banalidade”. Deste mote, a autora de romances como O Dia dos Prodígios ou Os Memoráveis, salienta também o papel da literatura na reflexão sobre a história contemporânea de ambos os países que se vai interligando.

“Tanto a integração na Europa Comunitária, quanto a cultura tecnológica que está a transformar as sociedades, aproxima os percursos atuais dos nossos dois países. Os mesmos dilemas em face da captura dos recursos por parte de alguns, a mesma pulverização dos partidos, os mesmos ressurgimentos de formações populistas saudosas de poderes autocráticos. Desafios muito semelhantes na erradicação da pobreza e da iliteracia. Enfim, não somos gémeos, mas continuamos irmãos”, sustenta.

Gerador (G.) – Em 2014, venceu o Prémio Luso-Espanhol de Arte e Cultura, que distingue autores ou criadores que, por intermédio da sua ação artística, tenham contribuído significativamente para o reforço dos laços entre Portugal e Espanha. O que significou para si receber este prémio, tendo em conta também a sua temática?
Lídia Jorge (L. J.) – Quando este prémio me foi atribuído, haviam sido distinguidas figuras nas áreas da poesia e da tradução, do ensaio académico e da música. Que um júri me tivesse escolhido como elemento de ligação entre os dois países, na área da Narrativa, deu-me imensa alegria. Foi como se a admiração nunca escondida que tenho pela cultura espanhola, me tivesse sido retribuída com juros de estima.

G. – Considera importante que exista um prémio que enaltece culturalmente a relação entre os dois países?
L. J. – O Prémio Luso-Espanhol de Cultura lembra que existem laços culturais profundos e contínuos ao longo da História dos dois países, relações que merecem ser sublinhadas e promovidas. O mundo contemporâneo, subserviente a modelos culturais hegemónicos que tendem a anular as especificidades de culturas de expansão mais recatada, precisa que a voz diversa seja valorizada. A literatura, a arte das palavras, mantendo por natureza uma vocação universal, é, no entanto, um dos grandes espaços de resistência pacífica à homogeneização e ao elogio da banalidade. Este prémio, que deveria ser reforçado e promovido, chama a atenção para o valor do intercâmbio cultural entre Portugal e Espanha, e serve de contraponto aos interesses materiais que nem sempre aproximam os nossos dois países. Ele diz que a vizinhança é um bem, a partilha, um desiderato, e lembra que a proximidade, além de nos fazer irmãos nos torna amigos, e admirativos, reciprocamente. Este prémio bem que poderia ter dois patronos, como por exemplo, Unamuno-Almada. Unamuno, porque compreendeu os portugueses e respeitou-os. Almada, porque viveu a cultura madrilena, deixou-se influenciar por ela, impregnou-se da vitalidade artística espanhola.

G. – Como olha para a relação cultural entre Portugal e Espanha?
L. J. – As relações culturais entre Portugal e Espanha fazem-se sobretudo entre pessoas de um lado e de outro, comarca a comarca, cidade a cidade. Os espanhóis gostam de uma certa quietude e delicadeza portuguesa, os portugueses admiram a vitalidade e a criatividade espanholas. Entre nós, essa história de que de Espanha nem bom vento nem bom casamento, acabou. É um resquício de algumas gárgulas de pedra que lembram o passado. Mas é preciso compreender que os centros de legitimação dos valores culturais se encontram no mundo anglo-saxónico, designadamente o norte-americano, e esse poder de decisão exterior faz com que no ponto de vista de valorização Portugal e Espanha sejam dois países colonizados. Na Europa, os centros de legitimação estão em Paris e Berlim. Receio que, em voz baixa, os decisores culturais dos nossos países sintam que apostarmo-nos mutuamente é um pequeno desperdício. Em contrapartida, cidade a cidade, a troca faz-se porque também nos entendemos exatamente sobre isso.

G. – A sua obra ficcional tem, por diversas ocasiões, interpelado a nossa história recente, dos últimos anos do Estado Novo às alegrias, crises e desilusões do Portugal democrático. Sente que nesta história, em especial nas últimas décadas, existem laços comuns com aquilo que é história recente de Espanha?
L. J. – Depois da Segunda Guerra Mundial, as democracias europeias ficaram ladeadas de dois blocos de ditaduras, a Leste as ditaduras comunistas, a Oeste as duas ditaduras peninsulares. Franco e Salazar manejaram ditaduras que se diziam piedosas. De modos diferentes, nem uma nem outra o foram. Estiveram unidas e bem unidas no comando que permitia a perpetuação dos pobres de pão e de cultura. Mas o regime caiu em Portugal por uma revolução, e em Espanha por uma transição, como o livro de Javier Cercas, Anatomia de um Instante, o demonstra bem. O ajuste de contas em Portugal foi imediato, o ajuste de contas em Espanha ainda parece continuar. Mas tanto a integração na Europa Comunitária, quanto a cultura tecnológica que está a transformar as sociedades, aproxima os percursos atuais dos nossos dois países. Os mesmos dilemas em face da captura dos recursos por parte de alguns, a mesma pulverização dos partidos, os mesmos ressurgimentos de formações populistas saudosas de poderes autocráticos. Desafios muito semelhantes na erradicação da pobreza e da iliteracia. Enfim, não somos gémeos, mas continuamos irmãos.

G. – Numa entrevista que deu em 2012 abordou o facto da geração de escritores que surgiu depois do 25 de Abril ter retomado, de alguma forma, um debate sobre a ideia de identidade portuguesa. Diria que o mesmo processo se passou também com os escritores espanhóis, do período pós-Franco?
L. J. – Sim, acho que sim. Mas de modo diferente. Os escritores portugueses têm vindo a fazer um confronto com a experiência traumática que foi a Guerra Colonial, sobretudo na relação com África. África continua a ser o cerne de uma Literatura que se define por tentar colocar-se em face da distância – Quem somos, porque fomos? Como é que um país que estendia a mão à caridade, pobres de pedir, se imaginava cabeça de um império majestoso? Dá que pensar sobre o nosso sentido de irrealidade, que nos caracteriza. De Espanha, estou longe de poder definir com rigor, mas a minha ideia é que os escritores espanhóis, numerosos e diversos, têm uma produção de qualidade elevada, centrada na aventura ontológica, na viagem, na própria experiência artística, mas o que mais sobressai para o exterior é a Literatura de memória em torno da Guerra Civil Espanhola e das humilhações regionais. Acho que em relação à questão da identidade, a Literatura portuguesa diz que loucos somos. A Literatura espanhola diz que humilhados fomos.

G. – Existem autore(a)s espanhóis com que se identifica e que tenham tido um impacto relevante na sua obra?
L. J. – Os escritores atuais de que gosto são muitos. Não abro a lista porque me iria esquecer de alguns, e sobre outros cruzo o grande valor literário com a amizade dedicada, como é o caso de Rosa Montero, maravilhosa companheira. Mas posso dizer que há duas escritoras espanholas que determinaram a minha vida. Duas catalãs. Carmen Laforet e o seu livro Nada, essas páginas singulares com as quais me cruzei aos dezassete anos e me fizeram crer no poder da narrativa escrita sobre a experiência pessoal enquanto reflexo do tempo histórico. E, mais tarde, A Praça do Diamante de Mercè Rodoreda, esse livro comovente, que me fez acreditar que não é necessário sofisticar a dor, mas, nua e crua, ela pode ser transfigurada assim mesmo, tal como se sente.

G. – De alguns anos a esta parte, tem surgido em ambos os países um debate mais permanente sobre memória história, seja pelas ditaduras que tiveram ou, por exemplo no caso português, pelo processo de descolonização. Uma vez que os seus livros também se podem enquadrar neste contexto, considera que a literatura deve ter essa preocupação de desconstruir e refletir sobre os acontecimentos históricos?
L. J. – A Literatura é um sistema impuro, tal como as línguas que as suportam. A linguagem é a sua matéria-prima, mas a vida pessoal e histórica é o seu motor. Na Literatura encontra-se, de forma não reflexiva, o espelho das vivências íntimas, fruto do confronto com as circunstâncias exteriores de onde o poder de uns sobre os outros assume um lugar dominante. A História com maiúscula só por vezes entra na Literatura. Mas os seus reflexos, sim, estão sempre lá. A história dos seres humanos, seus anseios e deceções, conforme as épocas, os regimes, as batalhas. A reflexão na Literatura não é sistemática nem conceptual, resulta da descrição espontânea da vida. Nas palavras de Carlos Fuentes, trata-se de uma Segunda História, a que ensina aos homens como se sonhou, e como se sofreu. Nos tempos que estão à porta, a Literatura talvez seja o salvo-conduto para não perdermos a memória de como somos frágeis e vulneráveis.

G. – Neste período recente, marcado pela pandemia, tem-se falado bastante da reflexão que o mesmo pode produzir. Sabemos também que este tem sido um período difícil para si, em termos pessoais. Como podemos perspetivar o futuro a partir deste momento? A arte e a cultura podem ter um papel importante a desempenhar na nossa redefinição enquanto humanidade?
L. J. – Sim, a Arte e a Cultura, tal como a entendemos até aqui, distintas do puro entretenimento, vão ter de ser valorizadas no futuro próximo. Não me parece que a cultura tecnológica possa desenvolver-se divorciada da cultura tradicional, tal como as artes clássicas, a Música, a Pintura, a Literatura, o Teatro, a Dança ou o Cinema a projetaram até há pouco. Creio que vai ser necessário um equilíbrio que terá de ser reivindicado. Vai ser necessário apostar abertamente na conjunção e não na disjunção das duas culturas. Mas como se vai processar essa batalha que está à vista, não sei. Ainda por cima, os dias que atravessamos deixam tudo em aberto. Se por um lado se percebe de forma gritante que as Artes são o estabilizador das sociedades, por outro lado, a crise económica que resultará da pandemia fornecerá todos os argumentos necessários para os inimigos das Artes e da Cultura as reduzirem a nada, ou quase nada. 

G. – O livro terá um papel a desempenhar nesta reflexão pós-pandemia? De que forma é que isto pode influenciar o trabalhar dos próprios escritores, em especial os mais jovens?
L. J. – O livro literário, no seu amplo sentido de Poesia, Narrativa, Teatro e Ensaio, não pode deixar de ser a pedra angular da formação e de informação para as outras Artes. O livro promove, como nenhum outro meio criativo, o reforço da subjetividade, a disciplina do sentimento, a memória da mudança, a dialogia da alteridade. Sobre os jovens nada posso dizer, a surpresa está com eles. Sobre o que estamos a viver, este exemplo de como somos vulneráveis, e de como a História se repete, cada um deles estará a erguer o seu texto próprio, surpreendente, por certo. Mas é impossível que não fiquem marcados por um tempo que mostra as ruas vazias e os habitantes das cidades desaparecidos. Que mostra como a Terra dispensa a vida dos homens. Como o triunfalismo técnico e económico desmorona de um momento para o outro. Como o progresso pode ser uma linha ascendente, mas não é uma linha reta, antes uma linha quebrada. Como somos uma espécie que transfigura e por isso não somos animais, mas ao mesmo tempo podemos desaparecer que a Terra e o Espaço continuarão indiferentes sem nós. E por outro lado, talvez os jovens escritores de hoje sejam tocados pela corrida da Ciência, em simultâneo para se encontrar uma vacina, e talvez fiquem impressionados como as relações de vizinhança se estreitaram, e, de súbito, a família e os amigos, os cientistas, os médicos e até a maior parte dos políticos, se tornaram a barca da salvação dos nossos dias. Os escritores jovens trarão a novidade do seu novo olhar, mas por certo que hão de pensar que se estamos sozinhos na Terra, como ensinou Camus, ao menos temo-nos uns aos outros.

Esta entrevista surgiu no âmbito do programa EP COLAB 2020, promovido pela AECID – Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, Embaixada de Espanha em Portugal e o Gerador, é um programa de atividades digitais que pretende colocar em contato artistas e entidades culturais espanholas e portuguesas. Descobre mais aqui: https://gerador.eu/ep-colab2020/

Texto de Ricardo Ramos Gonçalves
Fotografia de Frank Ferville

Gerador é parceiro da AECID

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