Durante o último ano em que estive a ensaiar um espectáculo, ligámos aquecedores, ventoinhas, usámos combustível, luz e água. Medimos o nosso impacto ambiental, e a única compensação possível seria devolver ao planeta 47 árvores.

Nunca tinha plantado uma árvore e, ao contrário de tudo o que esperava, aquele tornou-se um dos dias mais importantes do meu ano.

Dividimo-nos em grupos, junto com outros voluntários, e fiquei com pessoas que não conhecia. Juntos, cavámos buracos, apanhámos terrenos cheios de pedregulhos, ajudámo-nos, partilhámos instrumentos de trabalho, fomos buscar água para quem estava a ficar mais cansado, contámos histórias e ficámos muito tempo em silêncio, concentrados na tarefa. De cada vez que alguém plantava uma árvore, gritava-se o número alto, para que todos soubessem em quantas íamos.

Ao fim da manhã, sentámo-nos numa pedra a partilhar uma merenda e olhámos o horizonte em conjunto. Foi neste dia que conheci uma das pessoas mais inspiradoras. Foi ele quem pacientemente me explicou como cavar um buraco. Explicou-me que devia encontrar uma pequena clareira de terra junto a algumas rochas que iam ajudar a reter a água. Explicou-me a sentir as raízes com as mãos e a ver os veios na terra. De todas as vezes que passava por mim dizia: «Não tenhas pressa, não te preocupes. Quem devolve o planeta ao planeta nunca está a fazer mal. Tens o teu tempo, cada um tem o seu. E está tudo bem.»

Enquanto olhávamos para o horizonte, ele disse-nos: «Eu morava ali em baixo, do meu quarto conseguia ver a serra. Uma noite ardeu tudo, eu devia ter uns cinco ou seis anos, e nesse dia prometi que ia devolver a floresta à floresta. Aquela imagem nunca mais me saiu da cabeça. Depois a terra engoliu o meu filho, de maneira que há mais de vinte anos que venho aqui plantar árvores, é a única maneira de estar perto dos dois.»

Dei por mim a prometer o mesmo. Tirámos todos uma fotografia, e prometemos encontrar-nos dentro de cinquenta anos, naquele dia, naquele lugar, para vermos as árvores que tínhamos plantado. É que plantar árvores não é sobre ti, é sobre os próximos. É sobre um tempo que já não é o teu, mas que tens de deixar bem preparado. É sobre plantar o que colheste, sobre devolver o que recebes.

*Esta é uma crónica da Sara Barros Leitão, inicialmente publicada na Revista Gerador de janeiro.

-Sobre a Sara Barros Leitão-

É do Porto, e atualmente trabalha como atriz, criadora, encenadora, assistente de encenação e dramaturga. Feminista, ativista por todas as desigualdades, incoerente e a tentar ser melhor, revolucionária quanto baste, é uma artista difícil de domesticar. É a autora da crónica «Manual de Sobrevivência» na Revista Gerador.

Texto de Sara Barros Leitão
Fotografia de Matilde Cunha
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