*Esta é uma crónica da Sara Barros Leitão, inicialmente publicada na Revista Gerador de julho, lançada no dia 18 de julho de 2020 e foi um texto escrito no dia 25 de março

Quando este texto for publicado, é natural que continuemos ainda em casa.

As recomendações que nos chegaram davam conta do fecho de actividades «não essenciais». O teatro foi uma delas.

No espaço de quatro dias, fecharam-se todos os teatros do país. Só mais de uma semana depois se fecharam centros comerciais. Fecharam-se teatros antes de se fechar escolas, antes de se fechar estádios, e muito antes de se fechar fronteiras.

O teatro sempre foi um lugar perigoso. A história conta-nos que foi no teatro que aconteceram as maiores tragédias, em palco e fora dele. Foi no teatro que se deram os grandes incêndios, os reais e os incêndios de ideias perigosas. Os teatros foram palco de revoluções, na ficção e na vida, foram lugares de proclamação, de ideias e de conquistas, e também lugares de aprisionamento e de tortura.

Ao longo dos anos, o teatro reinventou-se a cada ameaça. Quando surgiu a ópera, por todo o lado se profetizava o inevitável fim do teatro. E quanto mais a ópera crescia em cor, dimensão e ostentação, mais o teatro reduzia, simplificava, até se redescobrir numa sala-estúdio apenas com um actor e uma cadeira. Quando surge o cinema, as salas de teatro transformaram-se em cineteatros, acreditando que era desta que o teatro morria de vez, afinal, o cinema era a janela para mundo. Hoje, essa janela cabe dentro de nossa casa, e é o cinema que está a tentar sobreviver entre plataformas streaming e conteúdos online.

O teatro resistiu a todas as ameaças porque a sua essência é o encontro entre pessoas. Nada substitui o acelerar do coração quando estamos fisicamente em frente a alguém. O teatro só precisa de duas pessoas para acontecer: uma que faz, e uma que vê.

Até hoje, ninguém duvidava que essa equação pudesse ser ameaçada. O teatro era o último bastião do encontro humano, da partilha e da empatia.

Numa resposta imediata e irreflectida, os artistas começam a partilhar e a produzir trabalhos à frente de um ecrã. Não sei se foi isso que o teatro reservou para a sua sobrevivência desta vez, mas pergunto-me: não podendo estar no mesmo espaço, estará a acontecer teatro?        

(*) A frase de abertura da peça Macbeth, de William Shakespeare.

-Sobre a Sara Barros Leitão-

É do Porto, e atualmente trabalha como atriz, criadora, encenadora, assistente de encenação e dramaturga. Feminista, ativista por todas as desigualdades, incoerente e a tentar ser melhor, revolucionária quanto baste, é uma artista difícil de domesticar. É a autora da crónica «Manual de Sobrevivência» na Revista Gerador.

Texto de Sara Barros Leitão
Fotografia de Matilde Cunha