Há uns dias, numa grande jantarada com artistas locais da cena lisboeta, a minha presença causou espanto e desconforto por causa do meu trânsito entre o mundo da arte e da academia portuguesa, bem como os reflexos e reflexões diante desta movimentação.

Inicialmente, o espanto foi gerado por ser um corpo negre queer imigrante que ocupa uma posição de diálogo com outros corpos semelhantes, na produção artística e de conhecimento. E, por consequência, o desconforto perante estes mesmos corpos, classificados como "marginais", ocuparem o centro da atenção atual para discussões já calejadas, que lentamente deixam os centros de investigação em direção ao debate cotidiano.

Ao longo do encontro, um dos convidados, aparentemente surpreso com o meu percurso - percurso esse que conversa com temas relacionados à (re)territorialização coletiva, identidade, ativismo e performance antirracista na produção cultural, artística e cientifica queer de fazedores negres em diaspórica por Portugal - , logo me veio com a seguinte pergunta: “Há dialogo entre a arte que fazes e a academia?”

Para entender o contexto dessa fala é preciso entender o que é legitimado como movimentos e peças artísticas, sendo a academia o lugar onde certas produções científicas chancelam o que pode ser considerado um trabalho artístico ou não, por seguir um contexto quase que de subalternidade entre a academia e o artista. Isso faz com que se estabeleça um distanciamento considerável entre o universo académico e as práticas artísticas de alguns atores, especialmente aqueles que compreendem profissionais da arte que trabalham de forma independente, que levam em sua mensagem artística temas caros para algumas instituições de arte e de ensino.

Neste sentido, a partir da minha vivência entre a academia e a arte, - especialmente com trabalhos que envolvem diálogo com pesquisas e ações em manifestações artísticas e culturais urbanas ativadas por grupos "marginais"-, sinto na pele a hierarquização de poderes, de cadeiras e de domínio de narrativas. Esta está quase sempre arraigada em percepções elitistas, cisgêneras e coloniais, além de regidas por um padrão estético proveniente de uma construção de uma ideia do ser, do fazer, do estar.

É por isso que grande parte das discussões que alimentam o debate nos projetos de investigação científica hoje em Portugal não exploram o que há de mais pulsante nas manifestações culturais do país. Especialmente no que tange aos territórios/espaços periféricos, que já por muito tempo estão a produzir matéria fresca, viva, com ricas reflexões, que ultrapassam categorizações comerciais do que seria uma "Nova Lisboa”, que na verdade não é tão nova assim. 

Estes coletivos e artistas com quem cotidianamente tenho a honra de trabalhar são constantemente postos à margem dos centros, que se apresentam como zonas abocanhadas por uma estética já legitimada, por personagens que se integram em espaços tradicionais da arte e da academia, fechando-se no seu ego e no engessamento de suas variantes de pensamento, sempre a partir dos nobres e brandos e/ou brancos costumes. No entanto, há um mundo fora da bolha que luta por viabilizar a partilha de trabalhos oriundos de manifestações culturais que em nada se alinham com os currículos dos cursos de artes e dos aparelhos de ensino. Estes artistas recorrem a meios mais democráticos, como a internet, fugindo dos processos de validação com autonomia e afrontamento.

E por falar em internet, com a cibercultura é possível encontrar uma rota por hackear ambos os mundos. Pela autonomia de partilha, livre produção e distribuição, através de atos comprometidos com o rompimento das práticas hegemônicas de poder e com a validação artística que percorrem os discursos já datados do que é um artista/criador profissional ou amador. Estes são difundidos por meio de plataformas digitais, como é o caso da UNA - União Negra das Artes, que vem pôr em tensão, através de uma investigação inteiramente digital, a representação de artistas negres na arte portuguesa, para acabar de vez com a ideia de que não há material nem base artística para o tema.

Isto nos leva a considerar que a produção artística deve atingir um entendimento de liberdade na definição dos meios de quem a produz: seja pelos novos meios digitais, seja por veículos convencionais, por quem consome e por quem interage, sempre com cuidado no que toca às práticas de apropriação e subestimação de falas. Ao dizer que algumas vidas importam, que a cultura importa, onde nitidamente vemos que nem todos os corpos importam, tomaremos de assalto os mecanismos de poder que trabalham na luta pelo alinhamento com agendas que muitas vezes não conversam com narrativas comprometidas com processos de mudanças.

Que haja um diálogo entre a academia e a arte sem disfarces de tokenização ou cumprimento de pautas que são urgentes, longe do exótico ou de definições pré-concebidas.

-Sobre Di Candido-

Di Candido aka DIDI é pesquisador, produtor cultural, DJ e performer. Idealizador dos projectos Bee. e House of DiDi, o seu trabalho debruça-se sobre temas como a (re)territorialização coletiva, identidade, ativismo e performance antirracista, na produção cultural e artística queer de artistas negres em diaspórica por Portugal.

"Há diálogo entre arte marginal e academia?" integra o segundo número da MIL Magazinepublicação desenvolvida pelo MIL que pretende introduzir uma reflexão crítica sobre os tópicos que ocupam a actualidade do sector da música da cultura. O MIL é um festival dedicado à descoberta, valorização e internacionalização da música popular actual, que acontece nos dias 15, 16 e 17 de setembro no Hub Criativo do Beato. O lançamento da MIL Magazine nº 2 acontecerá no dia 15 de setembro.
O Gerador é parceiro do MIL e partilha contigo, em antevisão, os artigos de opinião que estarão presentes nesta publicação.
Texto de Di Candido
Fotografia da cortesia de MIL

A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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