A comunidade acontece na pista de dança. O profundo sentimento de pertença a subir pela coluna vertebral, corpos carregados de felicidade e catarse em puro êxtase. Para algumas pessoas é apenas uma saída à noite; para muitas é uma bóia de salvação. Regressar depois deste período traumático sem um verdadeiro guia do que devemos fazer para não só mantermos estes espaços abertos, mas também funcionais para as comunidades que os procuram, seria colocá-los ainda mais em perigo. Assim, enquanto nos vão chegando vislumbres de normalidade, questiono-me: para onde ir agora?

Mais de um ano depois de o mundo ter ficado de pernas para o ar, os efeitos duradouros do isolamento, do medo e do luto começam apenas agora a tomar totalmente conta de mim. Nos últimos dias de Março de 2020, em pleno coração da tempestade, escrevi um artigo para o Resident Advisor no qual tentei imaginar futuros possíveis (confissão: este é um dos meus passatempos do momento). Lembro-me de sentir a intensa necessidade de me manter optimista acima de tudo – não compreendíamos bem em que versão do mundo estávamos prestes a entrar, quanto mais qual seria a sua aparência depois disso. Por isso mesmo, sentia-me atraída pelo seu potencial. Não era uma perspectiva completamente cor-de-rosa: sentia-me consciente de como podíamos ser incapazes de melhorar o que precisava de ser melhorado, mas escolhi acreditar na magia do caos como uma espécie de força construtiva.

E agora, à medida que a minha caixa de entrada do email volta rapidamente ao seu antigo aspecto doentio, torna-se cada vez mais difícil manter-me optimista. Estou mentalmente esgotada por me dedicar a eventos que ainda estão por acontecer; por tentar manter artistas motivados que ainda têm de pedir aos promotores para repensarem alinhamentos exclusivamente compostos por pessoas brancas; por me chegarem às mãos contratos que são uma sentença de morte lenta para agências independentes; por esperarem que eu saiba todas as regras de quarentena de todas as regiões do planeta. Se antes o trabalho era duro, agora está perto de ser enlouquecedor.

Existem, claro, aspectos positivos no horizonte. Apesar de a insistência desta indústria em ser simultaneamente um espaço de progresso e de muros, a sua capacidade de reinvenção e de adaptação não tem igual. Os promotores tiveram de garantir o bem-estar dos seus espaços durante este período e têm de se certificar de que isto continua a ser uma prioridade: Reimaginar a programação como veículo para criar comunidades é crucial para os tempos que aí vêm. Pressionar os governos para reconhecerem os clubes nocturnos como parte essencial da cultura, como foi recentemente alcançado na Alemanha, será a chave para a sobrevivência dos mesmos.  Não só por razões práticas e imediatas, como permitir que tenham acesso a determinados fundos, mas também pela mudança a longo prazo da narrativa usada quando se fala sobre estes espaços.

As conversas sobre a remuneração de artistas, a sindicalização e a criação de plataformas independentes que defendem o pagamento justo pelo acesso a conteúdo inesgotável têm de continuar, pois isto é apenas a ponta do icebergue. Os padrões da indústria de promoção de espaços mais seguros e de locais de trabalho equitativos devem entrar no mainstream e deixar de ser vistos como tarefas próprias de uns quantos independentes.

De forma lenta mas consistente, estes tópicos têm vindo a instalar-se na linha da frente desta indústria e é aí que devem permanecer. Termos sido forçados a fazer uma pausa significou termos tido a capacidade de aprofundar o verdadeiro significado dos espaços ao vivo: são onde as nossas vidas, crenças e sentimentos de liberdade se reflectem directamente em nós.

-Sobre Carin Abdulá-

Carin Abdulá é diretora da OUTER, agência dedicada à música electrónica de vanguarda. Trabalha com artistas como Caterina Barbieri, rRoxymore, dBridge e Moritz von Oswald. Além disso, colabora com a Tresor Records como curadora e estrategista e, recentemente, foi nomeada diretora de projeto da iniciativa [pause], criada pela Black Artist Database para promover espaços de trabalho mais equitativos para os profissionais negros na indústria musical.

"Para onde ir agora?" integra o segundo número da MIL Magazinepublicação desenvolvida pelo MIL que pretende introduzir uma reflexão crítica sobre os tópicos que ocupam a actualidade do sector da música da cultura. O MIL é um festival dedicado à descoberta, valorização e internacionalização da música popular actual, que acontece nos dias 15, 16 e 17 de setembro no Hub Criativo do Beato. O lançamento da MIL Magazine nº 2 acontecerá no dia 15 de setembro.
O Gerador é parceiro do MIL e partilha contigo, em antevisão, os artigos de opinião que estarão presentes nesta publicação.
Texto de Carin Abdulá
Tradução de Marta Gamito
Fotografia da cortesia de MIL
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