Sou uma cantora de punk-rock que viajou por vários países com os meus amigos e camaradas POR CAUSA dos meus amigos e camaradas que montam espaços para concertos. O Sindicato dos Músicos e Trabalhadores Associados (Union of Musicians and Allied Workers - UMAW) mobilizou milhares de trabalhadores da música para participarem nas suas primeiras acções em torno da crise da Covid-19, e continua a organizar-se em torno de questões como a exigência de acordos mais justos por parte dos serviços de streaming, a garantia de que os músicos recebam os royalties que lhes são devidos, a criação de relações mais justas com as editoras e a criação de normas mais seguras para as salas de concertos. Somos um sindicato internacional de trabalhadores que começou nos Estados Unidos. Precisávamos de um sindicato que respondesse às necessidades daqueles a que os sindicatos clássicos chamariam de "músicos de rock ou músicos de clubes", ou seja, os músicos não clássicos.

O UMAW pretende unir os trabalhadores para lutar por uma indústria musical e por um mundo mais justos. Todas estas campanhas são pérolas de uma concha e de um oceano que é verdadeiramente constituído pelas nossas vozes, as nossas ideias, a nossa música, o nosso trabalho. Como vocalista dos Downtown Boys, uma banda de rock que tem procurado utilizar a sua plataforma tanto quanto possível para analisar e confrontar o poder no status quo, a ideia da música como um veículo é inerente. Mas a realidade dos músicos como forma de poder colectivo tem de passar pela união de todos nós.

A música enquanto arma cultural significa que sob o capitalismo há muitas vezes, geralmente por necessidade, outro trabalho que tem de ser feito para pagar a renda da casa, cuidados médicos, comida, água, etc. Quando a Covid-19 paralisou o mundo, os canais dos nossos meios de produção foram postos em causa. Os espectáculos pararam, restaurantes e cafés que empregam muitos artistas nos EUA encerraram, familiares contraíram o vírus e, de repente, os trabalhadores enfrentaram um novo mundo onde teriam de sobreviver.

Os músicos são um grupo especial de pessoas que têm a capacidade de acordar, sentar-se numa carrinha horas a fio, carregar equipamento para o interior das salas de concertos, fazer soundchecks, esperar durante horas e, depois de tudo, mobilizar energia e talento para fazer aquilo que gostam. Entretanto, no capitalismo, este trabalho é considerado "um passatempo", "algo que se faz por diversão". E talvez seja, mas ser músico é uma pluralidade. O que o faz trabalhar e lutar pode ser, simultaneamente, o que o impede de bater com a cabeça contra uma economia e contra um muro social que procura dividir-nos e alienar-nos uns dos outros e de nós próprios.

Depois de numerosas acções colectivas, como as que juntaram músicos em vários locais do país para denunciar a política de imigração do festival South by Southwest, para lutar contra o papel da Amazon no fornecimento de tecnologia ao ICE (a agência de Imigração e de Controlo de Fronteiras dos EUA, responsável pela detenção e deportação de imigrantes) e para contestar o reconhecimento facial em recintos de música, já tínhamos percebido como obter resultados. Mas um sindicato é diferente de uma campanha isolada. Um sindicato supõe o desconhecimento do futuro, associado às inegáveis realidades da injustiça do poder. Um sindicato requer o mesmo tipo de determinação de quando se parte em digressão sem se saber se alguém vai aparecer nos concertos e, ainda assim, fazê-lo.

A criação de um sindicato de músicos revelou-se inevitável quando a Covid-19 nos forçou a reunir uma lista de exigências que iam desde o seguro de desemprego a benefícios para os imigrantes ou à luta pelo Serviço Postal dos EUA. Muitas das nossas exigências podem ter sido sentidas como explosões individuais. Mas o que é a música senão uma constelação de notas individuais e de momentos? Criar uma constelação de exigências ao poder era natural. A partir da nossa campanha inicial, o próprio UMAW desdobrou-se numa pluralidade de subcomités que tanto são de deliberação interna, como os subcomités da nossa Estrutura Interna e o BIPOC (Black, Indigenous, Person of Color – pessoas negras, indígenas e não brancas), como de deliberação externa, como é o caso dos subcomités Label Relations, constituído por uma parceria entre artistas e editoras, e Venues, cuja preocupação é a intersecção entre o trabalho musical e as salas de concertos. No entanto, trabalham em conjunto para tecer uma análise de questões de raça e classe que instigam o conteúdo das nossas acções, como as exigências feitas ao Spotify no âmbito da campanha “Justice at Spotify”, lançadapelo UMAW em Outubro de 2020, ou as exigências feitas para garantir segurança e acessibilidade dos locais de concertos no contexto da Covid-19.

Há que percorrer ainda um intenso processo de aprendizagem para que as pessoas compreendam por que razão a música é mais do que política e como a música é a sua própria política. Por exemplo, quando o UMAW declarou o seu apoio ao movimento global “Boicote, Desinvestimento e Sanções” de apoio à Palestina e reconheceu o papel dos trabalhadores da cultura na luta contra a limpeza étnica levada a cabo pelo governo e exército israelitas, foram necessárias longas conversas, assim como um trabalho de pesquisa. Mas estas são as mesmas competências que empregamos quando compomos um álbum, ou quando pensamos sobre performance, ou quando temos de desligar o cérebro de um trabalho assalariado e mudar o chip para o trabalho de fazer música.

Claro que central na luta pela redistribuição do poder, tal como os nossos pais fundadores imaginaram, é o combate contra a anti-negritude. Esta representa uma grande parte das questões de desigualdade que estamos a tentar abordar. Uma das exigências centrais do UMAW é salvar o Serviço Postal dos EUA, importante por ser um recurso necessário para os músicos e por ser um grande empregador de pessoas negras. Todos os artistas de rock deste colectivo devem tudo a nomes como Sister Rosetta Tharpe e Little Richard: os músicos negros são o berço da música nos Estados Unidos. As políticas de reparação histórica devem incluir o pagamento aos trabalhadores negros e a diminuição do fosso da desigualdade. O Serviço Postal dos EUA é um dos poucos organismos públicos que não serve exclusivamente o império americano. Ajuda a ligarmo-nos uns aos outros, a fazer chegar os nossos discos, o nosso merchandising, a tornar possível um mundo físico para a música.

Em última análise, não queremos apenas uma mensagem simbólica. Queremos pressionar para que haja reparações reais para os músicos negros e para que se perceba que os músicos da classe trabalhadora têm sido privados de grande parte dos meios de produção pelos mesmos sistemas que trabalharam contra nós na redistribuição da riqueza e dos recursos. Sem o desejo e as exigências dos trabalhadores da música, o nosso trabalho não teria valor nenhum. Portanto, vamos exigir a nossa liberdade.

Acreditamos que a única maneira de transformar a música é organizarmo-nos colectivamente para subtrair recursos e poder das poucas grandes empresas que ditam a nossa indústria. Convidamos todos os trabalhadores da música, incluindo músicos, DJs, produtores, equipas de estrada, entre outros, a juntarem-se a nós. Também queremos usar a nossa força para participar nas lutas mais transversais dos trabalhadores e camaradas de todo o mundo. Defendemos o Medicare for All, um Green New Deal, a abolição do ICE, a destruição de fronteiras, a libertação de pessoas encarceradas e muito mais. Os trabalhadores da música são trabalhadores, e está na altura de nos organizarmos e de nos juntarmos à luta. A devastação causada pela Covid-19 abriu-nos os olhos para o que muitos de nós, “músicos rock”, ou "músicos de clubes", ou "músicos não clássicos", estávamos a precisar de fazer há muito tempo – mobilizar os nossos próprios meios de produção.

-Sobre Victoria Ruiz-

Victoria Ruiz é vocalista da banda Downtown Boys, considerada pela revista Rolling Stone "a banda punk mais entusiasmante da América". Victoria Ruiz usa a sua plataforma como artista para confrontar o racismo, o capitalismo e as injustiças que alimentam o status quo. Cria de uma mãe solteira da classe trabalhadora e de uma avó mexicana que era trabalhadora agrícola, Ruiz compreende o poder e o potencial da cultura para confrontar o status quo por qualquer meio necessário. O trabalho de Ruiz já apareceu em publicações como a Rolling Stone, Pitchfork, Paper Mag, Spin, Interview Mag, Remezcla, The Talkhouse, The New York Times e Democracy Now!.

"Porque somos donos dos nossos meios de produção" integra o segundo número da MIL Magazinepublicação desenvolvida pelo MIL que pretende introduzir uma reflexão crítica sobre os tópicos que ocupam a actualidade do sector da música da cultura. O MIL é um festival dedicado à descoberta, valorização e internacionalização da música popular actual, que acontece nos dias 15, 16 e 17 de setembro no Hub Criativo do Beato. O lançamento da MIL Magazine nº 2 acontecerá no dia 15 de setembro.
O Gerador é parceiro do MIL e partilha contigo, em antevisão, os artigos de opinião que estarão presentes nesta publicação.
Texto de Victoria Ruiz
Fotografia da cortesia de MIL
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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