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MIL: Trabalhadores cantam revolução – notas do Sri Lanka

Imaad Majeed, artista multidisciplinar, curadore e escritore, conta-nos como os artistas foram parte ativa da revolução no Sri Lanka.

©Sandev Handy

A 11 de Abril, o rapper Rude Bwoy interpretou o tema de Bob Marley Get Up Stand Up, no meio de uma multidão de manifestantes na capital do Sri Lanka. Segundo ele, foi um momento pelo qual esperara toda a vida – uma centelha de revolução. Desmaiou pouco tempo depois, sucumbindo a um ataque cardíaco.

No meio do colapso económico e da crise política, o Sri Lanka viveu este ano o seu maior movimento de protesto, com trabalhadores, estudantes, artistas, activistas, trabalhadores domésticos e crianças, unidos para afastar do poder a família Rajapaksa, que se tinha enraizado no Estado. O que começou como manifestações esporádicas por todo o país, viria a culminar numa aldeia de protesto no "local de agitação" designado pelo Estado. Aqui, uma confluência vibrante de comunidades encontrou espaço para conversas, imaginando uma nação diferente e uma relação diferente com a governação.

Houve algumas canções de protesto notáveis que surgiram deste movimento, de músicos como OJ Da Tamil Rapper, Bo Sedkid, Namini Panchala, Indika Upamali, RIIS, PVG, GTV e Zany Inzane. Havia também muitos músicos no terreno que estavam envolvidos na organização de esforços. Concentremo-nos num colectivo, entre centenas, e naquilo que eles foram capazes de obter em colaboração com outros.

O colectivo multidisciplinar de artistas NO NAMES, que inclui músicos, foi fundamental para a criação do Colégio GotaGoGama na aldeia de protesto. A ênfase era encorajar a aprendizagem e a partilha de conhecimento pelos trabalhadores, para os trabalhadores. Trata-se de uma extensão natural da visão que o colectivo tem de partilha de conhecimento e de competências entre disciplinas. Os artistas também facilitaram discussões fora do GotaGoGama, viajando para diferentes partes do país. No colégio, as sessões incluíam espectáculos e círculos de diálogo, explorando o pessoal e o político. 

Enquanto a maior parte do discurso teve lugar em Sinhala, houve sessões em inglês e tâmil. Um dos esforços para encorajar o multiculturalismo e o multilinguismo foi a iniciativa Talking about Tamil songs in Sinhala [Falar sobre canções Tâmil em Sinhala], uma sessão popular no Colégio onde o cineasta tâmil King Ratnam explorou canções de cinema tâmil. Segundo um membro do colectivo NO NAMES, “mesmo entre os racistas encontramos pessoas que se dedicam à produção cultural de outras culturas. Desta forma, aprofundamos o seu envolvimento com questões exploradas nestas canções.”

Quando questionados sobre a razão por que se concentravam nos trabalhadores e não apenas nos artistas para este tipo de ação, um membro do colectivo explicou que "as pessoas pensam que a aprendizagem acontece em instituições de educação com o objectivo de arranjar um bom emprego. Mas a verdade é que aprendemos através da comunidade, através da interação com os outros na sociedade".

A 18 de Maio, data que marca o fim do conflito civil de 30 anos no Sri Lanka entre o estado budista Sinhala e os separatistas tâmiles, Swasthika Arulingam, a Secretária Adjunta do Sindicato dos Trabalhadores Comerciais e Industriais, cantou uma rendição tâmil de Hum Dekhenge, um popular nazm[1] urdu, escrito pelo poeta paquistanês Faiz Ahmad Faiz sobre um dia de ajuste de contas. A aldeia de protesto foi, entretanto, desmantelada quando o recém-nomeado Presidente impôs uma onda de repressão contra os dissidentes. Isto não augura nada de bom para o futuro da liberdade de expressão num país onde, no passado, jornalistas, activistas e artistas foram alvos de violência do Estado e objeto de detenções, assassinatos e desaparecimentos forçados. Ainda assim, os artistas continuam a optar pela verdade face ao poder.


[1] Nazm é um género significativo da poesia urdu.

- Sobre Imaad Majeed -

Imaad Majeed é artista multidisciplinar, curadore e escritore, de Colombo, no Sri Lanka. Assume a  direcção e a curadoria da plataforma de performance trilingue KACHA KACHA. É curadore de projectos e co-curadore da Thattu Pattu, uma plataforma para música das periferias do Sri Lanka. Faz parte do colectivo de artistas The Packet e VJ/DJ da Packet Radio (SUPR FM). Gosta de fazer playlists e de escrever sobre música do Sri Lanka para o blogue internacional de música beehype. *Imaad assume-se como uma pessoa não binária, por isso utilizamos “curadore” e “escritore” em vez dos pronomes masculinos e femininos

"Trabalhadores cantam revolução - notas do Sri Lanka" integra o próximo número da MIL Magazinepublicação desenvolvida pelo MIL que pretende introduzir uma reflexão crítica sobre os tópicos que ocupam a atualidade do sector da música da cultura. O MIL é um festival dedicado à descoberta, valorização e internacionalização da música popular atual, que acontece nos dias 28, 29 e 30 de setembro no Cais do Sodré.
O Gerador é parceiro do MIL e partilha contigo, em antevisão, os artigos de opinião que estarão presentes nesta publicação.
Texto de Imaad Majeed
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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