A indústria da moda é uma das mais poluentes no mundo, principalmente desde a crescente corrente do fast fashion, que pressupõe que os produtos são fabricados, consumidos e descartados num reduzido espaço de tempo. O destino de grande parte destas peças são depois os aterros, onde permanecem durante dezenas ou mesmo centenas de anos até serem totalmente decompostas, libertando para a atmosfera uma preocupante quantidade de resíduos tóxicos. 

Da produção de uma simples peça de vestuário ou calçado deriva, muitas vezes, plásticos, produtos poluentes e o consumo de uma enorme quantidade de água. Paralelamente, grandes cadeias mundiais suportam as suas produções em fábricas que não asseguram dignidade, direitos, nem segurança aos seus colaboradores. 

A ideia de sustentabilidade tem ganhado força também nesta indústria, embora se revele ainda de forma bastante tímida e nem sempre acessível a todos, devido aos mais elevados custos de produção. 

Em Portugal, nos últimos anos, têm surgido vários empreendedores na área da moda sustentável. Nesta reportagem, falámos com os fundadores de marcas que se propõem cumprir não só os princípios éticos de respeito à comunidade, como também reduzir ao máximo o impacto ambiental na produção das suas peças, tendo em conta não só as matérias-primas escolhidas, mas também os métodos de confeção utilizados, as fábricas onde são produzidas e a fiabilidade e durabilidade dos próprios produtos. Por detrás destas marcas, encontrámos pessoas que assumiram a missão de contribuir para uma mudança de comportamentos e de hábitos de consumo neste setor, apresentando novas propostas, materiais alternativos e novas perspetivas em relação à maneira como encaramos os produtos, o planeta e os seus recursos.

Para contar a história da Baseville, Ana Costa precisa de recuar vários anos até à infância que passou em Sintra, local onde viveu durante grande parte da sua vida, rodeada de natureza: “Na altura, falava-se muito do buraco da camada do ozono. Quando somos pequeninos, se calhar, escolhemos um ou dois interesses, e o meu era este. Ficava sempre muito preocupada, queria sempre saber mais sobre o assunto, e olhava à volta e sentia que ninguém estava preocupado, nem entendia, quase, esta questão ambiental como preocupante para o seu dia a dia.” Foi logo nessa altura que assumiu o propósito pessoal de “prevenir o impacto ambiental provocado pelo Homem” no planeta. 

Embora tivesse uma forte ligação à moda, licenciou-se em Engenharia do Ambiente. Mas depois de trabalhar treze anos no setor ambiental, sentiu que o trabalho que desenvolvia tinha uma ação “muito local” e que não estava efetivamente a cumprir aquilo que tinha pensado enquanto criança. Foi então que resolveu alinhar as suas duas paixões, a prevenção ambiental e a moda. E assim nascia a Baseville, que Ana Costa encara como um veículo para sensibilizar as pessoas relativamente à necessidade de proteção do Planeta terra: “Pretende ser uma forma muito próxima, interessante, divertida, quase também sensual, de explicar a necessidade de alteração dos nossos comportamentos, ao nível da nossa pegada ambiental, também no consumo de moda.”

Fundada em 2016, com mais uma sócia, a marca pretende ser o mais responsável e ecológica possível. “Por isso é que somos uma marca de básicos, também. Porque o objetivo foi ter algo que estivesse fora das tendências, que pela qualidade do produto, pelo design, perdurasse no tempo e não apelasse tão fortemente ao consumo e à tendência, mas entregar um produto com um ciclo de vida o mais prolongado possível”, conta.

Atentas às preocupações com o ambiente, Ana Costa e Ana Ferreira escolhem as suas matérias-primas de acordo com três dimensões: adequabilidade ao uso, recursos necessários à produção e qualidade superior. Neste processo, trabalham para retirar os microplásticos e reduzem a quantidade de recursos virgens utilizados. Além disso, produzem em fábricas nacionais, apostam em energias renováveis e em criar relações com outras empresas portuguesas.

A Baseville tem ainda um programa de recolha de peças, que podem ser totalmente recondicionadas em novo fio e em novos produtos. Mas isto apenas acontece caso os produtos se encontrem realmente em fim de vida. Esse é o último recurso. “O que queríamos mesmo é, se as peças chegarem a nós antes disso, voltar a colocá-las à venda por um preço quase simbólico. Porque, quando trabalhamos com estes produtos um bocadinho mais responsáveis, os custos de produção acabam por ser bastante mais elevados do que um produto que não seja tão criterioso ao nível quer dos fornecedores, quer da matéria prima. E sabemos que, infelizmente, em Portugal, nem todas as pessoas têm poder de compra para depois chegar a eles, e o objetivo da sustentabilidade e da responsabilidade também é conseguir chegar ao maior número de pessoas possível”, clarifica a empresária. O objetivo da venda em segunda mão é “fazer com que não só as pessoas com poder de compra possam ter escolhas mais responsáveis”.

No caso da Balluta, a história da marca também se cruza com a de Catarina Pedroso. A empreendedora, de 42 anos, formada em Belas Artes, cresceu no seio de uma família com tradições tauromáquicas, mas foi para si, desde cedo, evidente que queria defender os animais. Por volta dos 20 anos tornou-se vegetariana. No entanto, quando procurou estender esse estilo de vida ao que vestia e calçava, apercebeu-se de que “ao nível de calçado não encontrava grande coisa”. A Balluta surgiu assim da sua própria necessidade de ter calçado “com pinta e que fosse sustentável” – e depois de ser desafiada pelo marido, Ricardo Duarte, com quem fundou, em 2018, esta marca de calçado vegan, desenhada e produzida em Portugal, com uma estética mais apurada, feminina e versátil. Os sapatos são feitos com peles vegan, fabricadas a partir de poliamida reciclada, sem solventes, e metais sem níquel, pelo método artesanal.

Mas nem tudo foi tão simples como imaginou inicialmente. “Por ingenuidade, se calhar, achei que haveria mais pessoas que aderissem a este modelo, mas está muito enraizado na sociedade que a pele é que tem qualidade e, portanto, é difícil acreditarem nos materiais alternativos”, nota Catarina Pedroso. 

Trabalhar a sustentabilidade na indústria específica do calçado foi outro desafio. “O calçado, como é um produto que, às vezes, pode ter centenas de peças, é impossível todas as peças serem sustentáveis.” Porém, garante que esta é uma área onde tem havido inovação constante: “Há imensa inovação, imensos produtos que tentamos usar como, por exemplo, o pinatex, que é uma fibra de ananás. Agora também há de uva, de maça, etc.”. 

Produzidas numa fábrica familiar em São João da Madeira, os sapatos da Balluta são feitos à mão, segundo processos tradicionais e onde é assegurado que os trabalhadores envolvidos têm condições de trabalho dignas e justas.

Na Näz, esta preocupação social foi o mote para a criação da marca. Cristiana Costa frequentava o mestrado de Design de Moda na Covilhã, quando começou a desenvolver um projeto e a testar a marca em mercados e feiras. Ao terminar os estudos, e depois de várias entrevistas de emprego, percebeu que não queria trabalhar na indústria como ela existia na altura. “Comecei em 2016, e felizmente muda tudo muito rápido, mas, nessa altura, moda ecológica era uma conversa que não existia em Portugal e que queria tentar depois de perceber que havia muitas marcas ecológicas a aparecerem na Europa que produziam em Portugal e que nós não tínhamos nenhuma marca”, explica. 

Aquilo que inicialmente era um projeto académico passou a ser uma empresa, primeiro com a preocupação de produzir em Portugal, mais especificamente na zona da Beira interior, e depois abraçando também a preocupação ambiental. Uma coisa levou à outra. Inicialmente, não tendo acesso aos mínimos das fábricas para produzir, começou por utilizar os desperdícios e os restos das produções para as suas peças, “sem perceber o que é que isso era a nível de impacto”. “Depois, ao ter essa preocupação social, começou a fazer sentido pesquisar mais sobre a parte da preocupação ambiental, porque de que serve estarmos a trabalhar de uma maneira justa se, depois, por outro lado, estamos a destruir o ambiente e o planeta onde estas pessoas que trabalham de uma maneira justa vivem?”, questiona.

No espaço de quatro anos, Cristiana verifica uma mudança notória no setor: “Já conseguimos que as próprias empresas tenham opções mais ecológicas, sustentáveis, que estejam mais abertas a fazer coisas diferentes, que era algo que não acontecia. Lembro-me da primeira vez que fui ao Modtissimo e que andei de stand em stand a perguntar se havia desperdícios. A resposta era «não, não trabalhamos com marcas tao pequenas». Hoje em dia não é assim. Às vezes até são elas que vem falar connosco.”

Por outro lado, ao nível do consumidor, diz que anteriormente grande parte das pessoas não conseguia compreender o impacto tanto social, ecológico ou mesmo ambiental, que a indústria da moda tinha. “Agora, vê-se que há muito mais gente e muito informada. Quando procuram a nossa marca já têm bastante informação e estão até interessados em saber mais.” Além dos materiais sustentáveis que utiliza na produção e de ser totalmente portuguesa, basta entrar na página de uma peça no site da Näz para descobrir rapidamente onde foi produzida a matéria-prima e onde a peça final foi confecionada.

Mas ainda há desafios: “Essa parte da produção está muito transparente. Só que somos uma marca muito pequena e há coisas que não conseguimos controlar como o sourcing do algodão. Aquilo que conseguimos e tentamos controlar ao máximo é desde que o fio ou a matéria-prima chega até ao fim da sua produção, que seja feita cá e de uma maneira justa. Mas, realmente, há certas coisas que ainda não conseguimos controlar, porque também não conseguimos exigir a empresas muito grandes algum tipo de certificação.”

Calções de banho para homens feitos a partir de guarda-chuvas estragados foram as primeiras peças da insígnia wetheknot, criada por Filipe e Sérgio, designers gráficos e de moda. “Na altura, eu recolhia uns tecidos de guarda-chuvas que apanhava na cidade e decidi desafiar o Sérgio para iniciarmos um projeto com esses guarda-chuvas”, conta Filipe. Primeiro nasceram os calções de banho para homem, depois a marca, que produz atualmente básicos com materiais como algodão orgânico ou pele vegana, numa política de total transparência e respeito pelos seus trabalhadores, que são dados a conhecer a todos os que compram os produtos.

“Individualmente, antes de pensarmos que isto viria a ser o nosso trabalho, sempre foi uma preocupação a nível pessoal, quer minha quer do Sérgio, enquanto consumidores, não tanto enquanto produtores. Depois, de uma forma gradual e natural, também nos apercebemos do impacto do nosso trabalho e como é que poderíamos minimizar o impacto que ele tem no nosso planeta, não só a nível ecológico, mas também social, e percebemos que queríamos educar também para estas premissas”, sublinha.

“Nós somos a favor de as pessoas não terem muita roupa, comprarem menos, com mais qualidade. Isso é fundamental quando desenvolvemos os nossos produtos”, acrescenta Sérgio, que nota ainda que há cada vez mais consciência por parte dos consumidores em relação ao que estão a adquirir: “Principalmente agora com a pandemia, acho que houve uma grande awareness e vêm-se mais projetos, pequenos, e marcas feitas em Portugal, com sucesso.” 

Na altura em que finalizou o mestrado em Arquitetura, e perante a dificuldade de encontrar trabalho nesse meio, Raquel Tomaz decidiu arriscar na área que, na verdade, sempre a apaixonou: a moda. Em 2018, criou a Captain Tom, depois de terminar um curso profissional de costura: “Senti que existia um vazio no mercado de swimwear. Não encontrava nenhuma marca com peças de corte simples, padrões minimalistas e ao mesmo tempo femininos.”

Um ano depois, decidiu transformar a insígnia numa marca sustentável ao produzir todas as coleções com material regenerado a partir de desperdício. “Em 2019, consegui finalmente encontrar um fornecedor com tecidos regenerados feitos a partir de desperdício de plástico retirado dos oceanos, o chamado ECONYL®. Em 2020, assinei um contrato com essa empresa e somos, hoje, uma das únicas marcas certificadas pela ECONYL® em Portugal”.

Como conta, esta preocupação com a sustentabilidade surgiu desde cedo, no seio familiar: “A minha mãe é bióloga e sempre me mostrou o quão importante é o meio que nos rodeia e o dever que temos de cuidar dele.” 

Esta jovem empreendedora também vê com otimismo a evolução da moda sustentável no mercado português: “Surgiram muitas marcas preocupadas com o meio ambiente, o que fez com que os consumidores se familiarizassem muito mais com o tema da sustentabilidade e, por consequência, quisessem apoiar essas marcas.”

Um último exemplo chega-nos por Daniela Duarte, que é todas as "Danielas" por detrás da marca daniela ponto final, criada em 2010. “Já lá vão 10 anos e, nessa altura, «sustentabilidade» não tinha o peso que tem hoje na indústria neste setor.” Independentemente disso, o processo sempre foi o mesmo, conta: fornecedores de tecidos locais; quanto mais antigo o tecido, mais "perfeito"; produção de peças em séries limitadas; e a melhor execução possível das peças em ateliê. “Nunca quis ser mais uma marca no mercado e, por isso, nunca poderia pensar ou agir da mesma forma, uma vez que nem sequer teria capacidade de resposta para um consumidor industrial. Além disso, nunca me identifiquei muito com a oferta de produto das grandes cadeias de vestuário a que temos acesso e, também por isso, surgiu a necessidade de criar as minhas próprias peças. Era uma resposta às minhas necessidades enquanto «consumidora de moda», vou chamar assim”.

O ponto de partida para a criação destes produtos, nomeadamente, na seleção dos materiais, inicia-se com a questão: o que fazer com o que já existe? “A rapidez e a forma como se descarta uma peça de roupa hoje em dia faz-me imensa confusão. Sou demasiado emocional para me desligar assim tão facilmente dos «trapos». Uma peça de roupa ou um pedaço de tecido, é muito mais do que isso mesmo para mim e, talvez por isso, a loucura de calendários com que se apresentam novas propostas também não corresponde ao meu relógio, ou seja, se eu andar mais devagar, o mundo não vai parar de girar por causa disso e, provavelmente, até vou chegar ao fim do percurso na mesma”, acredita.

A maioria das peças da marca sai totalmente das suas mãos, desde o desenho, à modelagem e à confeção. Quando tem encomendas maiores, a empreendedora subcontrata costureiras na zona ou pequenas confeções familiares.

Para Daniela, sustentabilidade, seja em que setor for, tem sempre que ver com equilíbrio. “Lixo é luxo”, diz a criadora, que trabalha com os “restos dos outros”, que adquire, em parte, em feiras de antiguidades e no comércio tradicional. “Está mais do que comprovado que as fibras naturais não são a resposta mais sustentável para o setor do vestuário e, por isso, importa-me muito mais dar uso ao que já existe, e que provavelmente acabaria no lixo ou como alimento para traças, do que mandar produzir mais matéria”, reforça. “É desta forma que encontro equilíbrio e sentido para o meu trabalho.”

Texto por Flávia Brito
Fotografia da Balluta

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