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O maior lucro de sempre da Galp faz-nos passar frio

A Carta do Leitor de hoje chega-nos pelas mãos de Leonor Canadas, que fala-nos sobre a energia elétrica como bem essencial.

A Galp lucrou em 2022 mais 93% do que no ano anterior. São 881 milhões de euros, e correspondem aos maiores lucros alguma vez registados na sua história. Estes são lucros que nos arrefecem as casas, nos fazem passar frio no Inverno, e distopicamente nos conduzem a um inferno climático. 

Os lucros recorde da Galp devem-se principalmente à exploração e produção de petróleo e gás e às suas atividades de refinação de combustíveis fósseis. Estes foram registados ao mesmo tempo que as contas de energia dispararam, deixando 660 mil pessoas em pobreza energética severa em Portugal, e desesperadas face à crise de custo de vida. Isto são números alarmantes, que deixam claro que o sistema energético atual não nos serve.  

Este aumento de preços de eletricidade, que se transformou num aumento generalizado dos preços, teve na base o aumento do preço do gás “natural” fóssil, que acabou alimentando os lucros das empresas energéticas por todo o mundo. Similharmente, a Shell em 2022 registou os maiores lucros dos últimos 14 anos, duplicando face ao ano anterior. Também neste caso o aumento deveu-se sobretudo ao negócio de gás natural liquefeito. 

A insistência destas empresas no negócio do gás está relacionada com os resultados económicos que este lhes proporciona. Estas empresas têm todo o interesse em adiar o fim do uso de combustíveis fósseis por isso mesmo. Ora, a queima de combustíveis fósseis é responsável pelo desencadear de processos de alterações climáticas que já se fazem sentir e que se agravarão. É de recordar também que a ciência climática já é há muito conhecida, e que segundo os cientistas, Portugal deveria cortar pelo menos 75% das suas emissões de gases com efeitos de estufa até 2030, o que exige uma cessação no uso de combustíveis fósseis. 

A falta de ação climática, isto é, o investimento massivo em energias renováveis e abandono progressivo mas atempado e urgente dos combustíveis fósseis, é muitas vezes justificado por políticos defensores do grande capital fóssil, ou a ele acorrentados, pela suposta incapacidade técnica de abandonar estas fontes de energia, ou pelo impacto económico que isto teria. 

Há certamente desafios técnicos ao abandono total do uso de combustíveis fósseis, mas este é possível e o que não falta é investigação e projeções de como fazê-lo. Em Janeiro deste ano, a produção de eletricidade a partir de energias renováveis abastaceu 88% do consumo em Portugal, e foi ainda registado um saldo exportador positivo. Tivesse havido um investimento maior na produção de energias renováveis e na eletrificação dos vários setores económicos e poderíamos já estar muito perto de ter um sistema elétrico descarbonizado. 

Este é um investimento contra carteias vazias e contra o caos climático! Se o segundo pode ser mais evidente, o primeiro talvez não. É por isso importante explicitar que atualmente o preço da produção de eletricidade renovável é muito inferior ao preço da geração de eletricidade através de combustíveis fósseis. Contudo, o mercado de eletricidade segue o modelo marginal de fixação dos preços, no qual o preço de toda a eletricidade que circula na rede é definido pelo preço da fonte mais cara que entra. Ou seja, num dia em que 90% da eletricidade é produzida através de energias renováveis, e os restantes 10% são produzidos através de gás natural, é o preço do gás natural que define o preço para todas. 

Foi por isso que pagámos eletricidade a preços absurdos em 2022, ao mesmo tempo que temos capacidade para produzir energia limpa a preços muito reduzidos. É também por isso que empresas como a Galp têm muito interesse em investir em energias renováveis, enquanto insistem em investir em energias fósseis e se recusam a tirar o gás natural do mix energético. Um preço de mercado definido pelo preço inflacionado do gás natural significa que estas empresas obtêm lucros extraordinários, mas não asseguram acesso universal a energia. 

Atualmente, cerca de 60% do gás consumido em Portugal é utilizado para a produção de eletricidade. Facilmente este poderia ser substituído por eletricidade gerada por energias renováveis. Cessar o uso de gás natural até 2025 é uma medida com potencial social e climático enorme. Esta deve estar integrada num plano mais abrangente de total descarbonização da economia, que inclua um investimento massivo em requalificação de edifícios e habitações, com vista a equipá-los com sistemas de aquecimento alimentados por energias renováveis, e melhorar a sua eficiência energética. Isto permitiria a criação de milhares de Empregos para o Clima. 

Nenhum destes planos será conduzido por empresas privadas, como a Galp, que se desresponsabilizam por todos os impactos – sociais e climáticos – das suas atividades e que são meramente movidas, como expectável, pela maximização dos seus lucros. Chega de continuar a alimentar lucros recordes! 

Uma transição energética que garante acesso universal a energias limpas, e que garanta uma transição justa para os trabalhadores e comunidades que hoje dependem de atividades poluentes, pode apenas ser liderada pelo setor público. A energia é um bem essencial e o seu controlo não pode ficar nas mãos de gigantes que lucram com a nossa pobreza. É premente a criação de um serviço público de energias renováveis.

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Texto de Leonor Canadas

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