Somos várias e somos de casas. Andamos de mão em mão sem olhar a dedos. É a tradição.

Sou das antigas; das que refila e das que puxa as orelhas àquelas peças que querem fugir. Elas querem mas sem sucesso.

As minhas colegas, principalmente as mais novas, não têm rigor nenhum no trabalho que fazem. Nem dão valor ao material de que são feitas: Plástico.

- O plástico vai revolucionar o nosso mundo. Vão ver. Vão pôr-nos de lado porque acusamos idade - Já dizia a minha amiga Noélia.

Coitadinha. Passada uma semana não se agarrou como devia, escapou-se-lhe um braço e caiu redonda no chão. Nunca mais ninguém lhe pegou. Com o passar do tempo perdeu a cor, a maleabilidade, a destreza da mola e, por último, a vontade em se levantar.

Num desses dias, saí da caixa, vim para a rua, olhei para o rés-do-chão e já lá não estava. Assim, puff!

A grande maioria dos dias não arrisco. Mal me poisam, agarro-me firmemente e faço o meu trabalho. Sou uma mola competente. Fui feita para durar a vida toda.

No entanto, tal como tudo que é feito para durar a vida toda, há um dia em que deixa de ser inteiro. Já sei disso. Já vi isso. Com a Noélia e com outras. Não quero esse fim para mim. É por isso que descobri que o melhor a fazer é encontrar um equilíbrio.

De dia não arrisco, sou parte integrante do fio e o fio parte integrante de mim, tudo o que existe entre nós é sagrado até ao final do dia. Já quando aparece a lua as coisas mudam de figura,  tal como eu mudo de poiso. 

Ficar dentro da caixa junto à janela é o mais seguro mas assim não conseguiria ver a lua e é quando vejo a lua que me sinto inteira. Por isso, mesmo correndo o risco de cair, saio da caixa e vou para a janela. À noite gosto de me sentar à beirinha.

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Texto de Sara Isabel Loureiro
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