*Esta é uma crónica do Pedro Pires, inicialmente publicada na Revista Gerador 36.

Podem as boas intenções configurar «movimentos» que as esvaziam e que as tornam antidemocráticas?

Outubro de 2021. Os Rolling Stones decidem não tocar «Brown Sugar» na nova tour pelos EUA. Porquê agora? Porque não antes, já que a letra da canção tem sido sempre polémica, ao ponto de o próprio Mick Jagger, ainda nos anos 90, ter dito que se «fosse hoje» nunca a teria escrito. Convém dizer que não sou fã de Rolling Stones. Só da liberdade de expressão.

Porque é que tudo isto cheira a um tipo de hipocrisia que no seu âmago contraria a boa intenção? Ou seja, uma decisão que ao ser tomada neste contexto acaba por desvalorizar o movimento que quer reconhecer, com um ato de autocensura.

Interessa-me pouco a pertinência da letra, e reconheço a apropriação temática e gratuita da escravatura para estabelecer paralelos com o consumo de heroína. Não vejo uma glorificação, vejo um facilitismo concetual pouco refletido. Especialmente se virmos o contexto específico em que a canção é criada. Que ela seja interpretada como uma glorificação, aceito. Cada um tem direito às interpretações que quer. Mas que as coisas deixem de existir porque não refletem sobre os temas da atualidade, à luz do pensamento atual é totalmente descabido na minha opinião.

Eu, por exemplo, considero uma grande parte dos cânticos de futebol ofensivos.

Não é por isso que os quero eliminados dos estádios. Se, por acaso, for ao futebol, eu quero saber ao lado de quem me vou sentar, logo se existem cânticos ofensivos já sei onde não quero estar. Eu quero saber, para poder decidir.

«As conotações desta abertura horrível foram então usadas para transmitir o duplo significado metafórico de ser um escravo das demandas narcóticas da heroína marrom.»

«O assunto é duplo e nenhum traz luz ao outro», diz o crítico Tom Taylor.

Mas porque é que uma música dos Rolling Stones haveria de trazer luz seja lá ao que for?

É apenas uma música pop. É tocada em estádios, não em reitorias. Foi escrita para consumo popular sem nenhum tipo de responsabilidade política, ideológica, filosófica e social.

So what?

O Mick estava com uma moca e decidiu escrever aquilo em 45 minutos.

Foi uma boa decisão. Provavelmente, não. Mas, se ele não o tivesse feito, não estávamos a ter esta conversa.

Sou contra qualquer tipo de censura.

Em princípio, desde que não configure crime, sou da opinião que, numa sociedade livre e (que deveria ser) progressista, toda e qualquer opinião/visão tem o direito a ser expressada.

É a avaliação pública e a consequente reação de adesão ou não que determinam a sua validade. Aqui incluo obviamente as manifestações artísticas.

E mesmo configurando crime, nem sempre a divulgação e mediatização desse crime é contrária ao direito à «decência», caso dos crimes de genocídio da Alemanha nazi, do crime de destruição da Amazónia, etc. Embora correndo sempre o risco de glorificação – e isso pode sempre acontecer quando há mediatização e construção de imagem –, é essencial que eles se mantenham públicos. Claro que existem contexto, conceito, intenção, mensagem subjacentes. Não é o mesmo exibir uma estátua de um esclavagista, cuja dimensão concetual se reduz à representação de personagem ou de «cena», ou seja, uma primordial ideia de glorificação e de poder, ou um quadro que representa uma cena de época e que a representa porque a realidade assim era. Ou seja, a intenção conta. Uma é uma glorificação em que a matéria artística é secundarizada à intenção quase única de engrandecer uma personagem.

A outra é um documento histórico.

O revisionismo é sempre perigoso, porque pressupõe uma ordem moral superior que se sobrepõe ao conceito de liberdade de expressão e anula o direito à interpretação.

Vamos caminhar para uma sociedade onde os postulados do admissível estejam determinados? Essa é uma dinâmica que existe entre educação, pensamento coletivo, tendências sociais e opinião pública. O que estamos a contestar?

O facto de Kehinde Wiley, um dos mais extraordinários artistas afro-americanos da atualidade fazer um quadro inspirado em Gaugin (The siesta, 2019) significa que ele é um adepto da pedofilia exercida em situações de abuso de poder por um branco ocidental sobre nativos da polinésia no século xix?

A propósito do recente pedido de Joacine Katar Moreira para remoção de painéis do Salão Nobre da Assembleia. De acordo que o que exibimos no Parlamento ou no Palácio de Belém, não tem uma função decorativa e ou pedagógica. Nesse contexto existe uma representação do estado e das suas opiniões/orientações e nessa medida uma peça histórica poderá ter conteúdo contrário a essa simbologia própria de um estado de direito democrático. Aí a exibição de uma peça que seja uma representação literal, não concetual ou no mínimo altamente parcial, poderá ser contestada. Mas para mim isso não se prende com a questão do contexto de interpretação, prende-se com a mensagem que o Estado quer passar e a sua imagem. Em vez de exibido num palácio público sem qualquer tipo de explicação, deverá ser apenas exibido em contexto onde pode ser totalmente compreendido e interpretado?

E se um determinado indivíduo se sentir capaz de interpretar seja o que for sem precisar de ajuda? Isso significa que esse seu direito a descodificar, a ler, a refletir deverá ser impedido porque existe uma representação que não se adequa aos tempos?

Quem determina o que se adequa ou não aos tempos? Onde se enquadra esse poder em democracia? Serão, com certeza, e muito bem as opiniões públicas que definem as tendências. Mas a opinião pública é isso mesmo. Uma dinâmica de diferentes sentidos, polissémica, que exige discussão, debate e exposição. Não cancelamentos. E se, na verdade, estamos a servir os desígnios de quem prefere uma sociedade mais pronta para cancelar do que pronta para educar?

-Sobre o Pedro Pires-

É CCO/CEO da Solid Dogma. O que quer dizer que é criativo, mas que também tem outro tipo de responsabilidades enquanto não aparecem outras pessoas que façam melhor o serviço. É o autor da crónica «Observação de baleias» na Revista Gerador.

Texto de Pedro Pires
Fotografia de Diana Mendes
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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