*Esta é uma crónica do Pedro Pires, inicialmente publicada na Revista Gerador de maio.

Faço uma espécie de homenagem à não fungibilidade do tempo. E ao facto de vivermos uma época onde o imparável devir da economia e da digitalização ser, do ponto de vista metafísico, o equivalente ao estar no meio da ponte relativamente às certezas do que somos, onde estamos no mundo e para que lado é que estamos a jogar.

E mais importante que tudo de como mantemos as nossas pequenas jangadas ideológicas na corrente daquilo que julgamos que acreditávamos.

Abre-se aqui espaço para filósofos como Emanuel Coccia «… a noção e a realidade da mercadoria têm muita mais que ver com a moral do que com a economia».

Abre-se a questão da ontologia com Anthony Cross: «Não parece existir um âmbito especial ou privilegiado da obra associada a um NFT. Nem parece que a emissão de um NFT mude necessariamente a natureza do trabalho. Tudo isso levanta uma questão importante: o que exatamente se compra quando se compra um NFT?»

À qual eu acrescento, o que é que exatamente se cria ou se certifica enquanto «ato criador original» quando existe a intenção de se fazer um NFT?

O momento de inspiração original do artista e o ato de ele o ter materializado? Será esse instante o objeto da certificação?

O facto de esse ato criador ser independente da sua materialização e logo ser irrelevante a sua reprodutibilidade ou não (caso dos livros)?

O facto de através do próprio ato de certificação ter um código digital idêntico a uma impressão digital ser o próprio fator de qualificação da originalidade e legitimidade de uma obra?

Interessa-me o conflito moral, como sempre.

Interessa-me menos a qualidade da compra do que a legitimidade da venda.

Interessa-me mais a qualidade da criação do que o exercício da posse.

Interessa-me em paralelo a forma eterna como a arte e o capital se relacionam.

E aí, como se movem as fronteiras de perceção, qualificação e consequente latitude de tolerância da opinião pública e da sociedade acerca do papel da arte e dos artistas na sociedade.

Interessa-me o facto de um conjunto grande de artistas estar a saltar para este comboio em andamento. E de estarem em tempo real a gerir a questão filosófica e a decisão ideológica que é definida por esse ato.

Há a questão ambiental. Longe de estar resolvida, envolve todo o ecossistema Blockchain e o facto de esta ser uma atividade que irá precisar de cada vez mais energia, dado que a sua utilização será sempre incremental (e/ou exponencial) e não eficiente.

E a não ser que a energia utilizada seja de fontes livres de carbono os números revelados pelo impacto do Blockchain no consumo energético são dramáticos.

Há a questão do eventual aproveitamento oportunístico-revolucionário de fazer com que pessoas com muito dinheiro invistam em coisas sobre as quais um artista não perde o direito de as reproduzir e que muitas das vezes até já existiam. Há aqui a velha questão da «justiça poética» e de aproveitar que me «paguem para que eu continue a fazer o que gosto». Dados os montantes envolvidos, este pode ser um life changing moment.

Há a questão de realmente um NFT certificar um ato único no tempo e de eventualmente ser isso, essa intangibilidade, essa absoluta efemeridade, esse derradeiro aperfeiçoamento da exclusividade que afinal se está a adquirir.

Há a questão do futuro e de todos vivermos em mundos virtuais e a perspetiva que a posse de uma determinada obra digital nos dê o direito de nesse contexto sermos os únicos a poder reproduzi-la.

Claro que a venda de NFT por 70 milhões de dólares levanta questões filosóficas, como aconteceu com a peça de Beeple vendida pela Christie’s em março deste ano.

Uma das mais complexas questões filosóficas da atualidade e que envolve a questão do materialismo liberal económico que alimenta este tipo de fenómenos existe numa irónica contraposição (ou não) com o facto de não existir materialidade física no «objeto» adquirido.

Numa cómica antecipação e apelo à reflexão sobre esta realidade e à questão moral e prática da posse, já Banksy nos tinha presenteado com o stunt na Sotheby’s que envolveu a destruição da peça Girl with Balloon no momento da sua venda e Maurizio Catellan com a peça Comedian, a banana colada com fita prateada na parede da Art basel.

Num assustadoramente rápido assomo de imediatismo e capacidade de capturar o zeitgeist, a Underdogs é a primeira galeria portuguesa a criar uma exposição de NFT.

Eternal Ephemeral é uma sequência de 5 Drops de NFT de 40 artistas relacionados com a Underdogs, que tem tido um papel muito relevante na mudança da noção de efemeridade relacionada com arte urbana.

Por certo que muitos dos artistas envolvidos estão neste preciso momento a refletir e a discutir estas matérias e que é este o momento em que se define a qualidade desta nova realidade. É uma realidade positiva ou negativa para o mundo?

O que significa que sejam os artistas mais relacionados com fenómenos mais marginais, menos convencionados pelo mercado da arte, a tomar a dianteira nesta nova realidade? Eu próprio me encontro nessa situação. Eu próprio participo nesta exposição, juntamente com o meu amigo e parceiro de criação Diogo Potes, com uma peça atribuída à entidade artística pirespotes. Eu próprio me senti obrigado a refletir aqui as minhas preocupações.

Estar? Não estar? Não quis deixar de estar. Não quis deixar de participar. O que é que isso diz acerca de mim? De nós? Que temos mais FOMO do que capacidade refletiva?

Ou que não nos conseguimos retirar de processos que estão a decorrer, que nos exigem que pensemos enquanto andamos e que se ancoram no maior dilema dos nossos dias.

O facto do tempo se sobrepor a qualquer outra realidade e o facto do exercício de gerir a forma, o ritmo e o espaço em definimos os nossos próprios mapas ideológicos ser o equivalente a dançar em cima das placas tectónicas do «exponencialismo».

In the meantime, check Ephemeral Eternal at opensea.io/assets/ephemeralethernal

Obs.: Cinco por cento de todo o capital angariado é entregue à seashepherd.org.

-Sobre o Pedro Pires-

É CCO/CEO da Solid Dogma. O que quer dizer que é criativo, mas que também tem outro tipo de responsabilidades enquanto não aparecem outras pessoas que façam melhor o serviço. É o autor da crónica «Observação de baleias» na Revista Gerador.

Texto de Pedro Pires
Fotografia de Diana Mendes
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