*Esta é uma crónica do Pedro Pires, inicialmente publicada na Revista Gerador 35.

What about this overcrowded land?
How much more abuse from man can she stand?
Marvin Gaye – mercy, mercy me (the ecology)

Dizia o meu amigo João Freitas no enunciado de um projeto: «De todas as coisas que há no mundo, nenhuma é mais bonita do que as coisas que são possíveis.» Será o otimismo a última filosofia viável do mundo?

Quando se fala da velha relação do criador com a dor como combustível de criação sobrevaloriza-se o que nos leva à criação em detrimento do que criamos. Ao ser concluído, o ato de criação é um ato de derradeiro otimismo, por mais intencionalmente cínico que esse ato seja. E será essa noção de otimismo e (logo) prazer compatível com a urgência da sustentabilidade? Será que o último desafio da mudança e mentalidades em direção ao ecofuturo é encontrar uma bandeira estética que mobilize? Haverá alguma revolução que vingue sem uma estética pop que a cante? Greta Thunberg teve o reach, mas não o estilo. Faltam ekodarshians para que a sustentabilidade vire matéria de cultura popular?

O projeto em que estávamos envolvidos era o Changing Tomorrow Now da EDP. E daqui nasceu a possibilidade de convidar artistas e desportistas para através da criação veicular a mensagem da sustentabilidade – neste caso irá resultar numa exposição subaquática de Vhils com peças criadas a partir de centrais desativadas e numa exposição de Carolina Piteira sobre clima e energia na Fundação EDP.

A arte tem vindo a abordar este tema. E já agora, o Maat tem tido nos últimos anos várias exposições sobre a matéria, entre as quais está agora em exibição a instalação Earth Bits, criada pelo estúdio Dotdotdot. Antes, estiveram lá a de Tomás Sarraceno e Tadashi Kawamata, entre outras. Ainda em Portugal, Bordalo II é um artivistada sustentabilidade e Ai Wei Wei inaugura uma árvore de ferro em Serralves. Enquanto flirta com o Blockchain o mundo da arte redescobre o naturalismo e entra em compliance com a sustentabilidade.

Diz Hans Ulrich Obrist em entrevista à revista Lampoon dedicada integralmente à sustentabilidade: «Precisamos de campanhas de artistas, adotar campanhas, isso é muito mais importante do que o live streaming. Portanto, em vez de adotarmos estratégias de escape à Terra temos de adotar estratégias para voltar à Terra.»

A relação da arte e da arquitetura com a natureza é primordial. Com a sustentabilidade começa a ser fundamental. Por outro lado, o design tem lidado com questões de sustentabilidade numa lógica de retrofuturista, o que não ajuda nada.

Porque é que tudo o que é «verde» continua a ser tendencialmente branco, redondo, brilhante e parece um inseto biónico? A cultura pop tarda em entrar no comboio.

Interessa-me o impacto que isso pode ter e o que poderá ser uma estética do «imaterialismo». Não o imaterialismo de Berkeley, que valorizava apenas as ideias, na impossibilidade de se certificar da existência de algo para lá da perceção e de quem percebe.

Falo antes da corrente em que o «imaterialismo» surge como substância intrínseca que influencia, é parte integrante ou a totalidade do conceito, ou o seu produto. Um reflexo do Antropoceno refletido na arte do nosso tempo. Mas que terá efeitos alargados em termos de estética social.

Entra Wendy Steiner, na Harvard Design Magazine: «enquanto os pós-modernistas poderiam rejeitar a elegante disciplina de “Menos é mais” com um whitmanesco “Menos é um tédio”, a polícia verde agora rosna: «Menos ou então». Em suma, a desconexão entre sustentabilidade e prazer é profunda, pelo menos para aqueles de nós que atingiram a maioridade antes do novo século.»

Se nas artes plásticas, e no exemplo de Marvin Gaye, essa relação aparece vincada ao longo da história, quanto mais não seja na interdependência temática, não existe ainda uma estética pop dominante que anuncie uma imparável corrida a colares de madeira como se viu, por exemplo, na altura da Daisy Age do hip-hop, com os De La Soul, os Jungle Brothers, ou a Tribe Called Quest a exibir orgulhosamente artigos que se ancoravam numa estética Roots a que se pode chamar ao segundo movimento de eco arte depois da Earth Art.

Neste momento, na música e no lifestyle dos rich and famous, ainda não existe essa ansiedade de adoção de uma estética do sustentável. Na moda, Stella McCartney lidera a manifestação, com outras celebridades a erguer agora essa bandeira e a alta-costura a começar lentamente a mover-se. A Depop foi comprada pelo Etsy.

Mas a estética dominante na cultura pop e na moda é ainda a do excesso, o sucesso da criativa e exuberante estética trap dos últimos anos é bem prova disso.

Outros movimentos sociais como o metoo(ish) e LGBTQ+ servem como uma espécie de créditos equivalente aos créditos de carbono de outras indústrias, que perdoam a não adesão a valores que obrigatoriamente implicarão uma estética que evidencie menos consumo… ou não? Interessa-me o facto de irmos continuar a necessitar de excesso para viver.

A vontade de excesso não vai desaparecer? Como se irá manifestar esteticamente debaixo de um politicamente correto mais sustentável? Existe antagonismo entre otimismo/consumo/prazer versus pânico/redução/sustentabilidade? O que seduz na arte será uma ideia de prazer? Será ela contrária à ideia de sustentabilidade? Será o prazer uma construção artificial ou o mais natural desígnio de todos? Será que a frente de liberação pós-pandémica enfrenta a frente da sustentabilidade?

Embora não seja uma ekodarshians, cito Kristine Harper, autora de Aesthetic Sustainability e Anti-trend: Resilient Design and the Art of Sustainable Living: «Para que um objeto seja verdadeiramente sustentável, ele deve ser atraente o suficiente para que os utilizadores queiram continuar a repará-lo e reutilizá-lo, e deve atender à necessidade humana de prazer estético.»

Só para que no fim se perceba de que lado estou… sempre.

-Sobre o Pedro Pires-

É CCO/CEO da Solid Dogma. O que quer dizer que é criativo, mas que também tem outro tipo de responsabilidades enquanto não aparecem outras pessoas que façam melhor o serviço. É o autor da crónica «Observação de baleias» na Revista Gerador.

Texto de Pedro Pires
Fotografia de Diana Mendes
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.
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