Os El Rupe são Samuel Coelho, na guitarra, Rui Souza, no sintetizador e Pedro Oliveira na bateria e electrónicas. Em 2017 lançaram ‘Suite 3,14’, o seu segundo trabalho discográfico em que tentaram aliar o mundo tecnológico ao orgânico da natureza. O resultado resumiu-se na junção de dois pólos que, não raras vezes, são vistos como antagónicos mas, como já se viu, podem-se entrosar muito bem. E como quando falamos de natureza falamos também de paisagens, Rui Souza explicou-me que “a questão da paisagem sonora é um ponto a partir do qual trabalhamos”, como não poderia deixar de ser. Preparados para conhecerem os sentidos da música dos El Rupe? Vamos lá!

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

O lado racional é sempre necessário e, até, indissociável do lado emotivo. Sobre a racionalidade, poderíamos discutir o nível de importância ou a que níveis usamos a razão. Não a usamos de um ponto de vista comercial ou com fins específicos. Usamos a razão nas composições na medida em que a música também é matemática. Mas a emotividade é o que salta em força quando compomos. De outra forma não faria sentido. Se queremos evocar sentimentos ou determinadas mensagens, temos de deixar que a emoção se apodere de nós. A razão ajudará sempre nas doses certas, não podemos deixar que o lado racional das vendas, da comunicação e das rádios interfira nas composições. Aí já está tudo poluído e, para nós, perde todo o valor.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

As músicas que nos fazem mexer dependem sempre do dia, da hora e do contexto total. Não há músicas que nos fazem mexer por mexer ou dançar. Podem fazer ou não, dependendo do momento. Há várias músicas que nos levam de imediato para um qualquer estado e são, sobretudo, aquelas despojadas de segundas intenções, aquelas onde vês o respeito pela arte, onde vês um objeto artístico forte. Podemos falar de Tigran,  do Bill Evans, de José Mário Branco, de Woody Guthrie, de Beatles, de António Variacões ou de Frank Zappa, etc… Tudo viagens diferentes, mas tudo sobre revoltas, sobre tudo e sobre nada. Como Seinfeld que se tornou mundial pelo que é e não pelo que poderia querer ser.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Não sei se o facto da música ter um carácter ‘invisível’ faz dela mais forte. Mas o ser humano é um ser musical, desde sempre — um ser sonoro. O som, o ritmo, aquela determinada frequência são coisas que fazem parte da vida do ser humano e, como tal, chega até ao dias de hoje mais forte ainda trazida ‘pá’ corrente da memória genética ou informação genética. As ondas e as frequências mexem com o ser humano, é físico também. Não sabemos as razões pelas quais a música tem tanto poder; se pela invisibilidade, se pela fiscalidade ou se pelas frequências. Mas talvez seja por isso. O poder da música está em não se saber porquê. Como o amor.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sim, muitas das composições são feitas pensando em espaços e paisagens, etc… Depende do trabalho que estejamos a fazer. No caso de El Rupe, a questão da paisagem sonora é um ponto a partir do qual trabalhamos.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Se pudéssemos desenhar seria uma torre, a maior torre. De um tamanho tal que conseguiríamos ver tudo para todo o lado. Lá em cima estaria um homem. O homem que havia construído a torre. Quando pôs o último tijolo, morreu. E por lá ficou, para sempre, no cimo da torre. No fundo é nunca desistir de nada, nem que seja a última coisa que façamos na vida. As cores podem ser todas. No quadro estariam todas as cores e não teria nenhuma. Cada um via as que quisesse.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

O sabor? Talvez um agridoce com um trago forte de amargura.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

O cheiro a cozinha dos avós, com um certo  cheiro a mofo à mistura. E lembro me logo de Credences ou Deep Purple, mas não sei porquê.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Não acho que a música seja boa para fixar memórias. É uma ferramenta para fixar momentos mais ou menos distorcidos e que se vão distorcer ainda mais. Porque a memória é isso, uma distorção constante de alguma coisa. É, muitas das vezes, fazer canções a partir de momentos muito fortes. Não é para fixar um momento e guardá- lo, é, antes, para o deitar cá para fora. Expulsá-lo de ti, para que não voltes a pensar nele. É uma purga. Gostamos mais da música que tenta fixar futuros.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes