Pois é, Stereossauro está com um álbum fresquinho em mãos (a sair até ao final do ano) e já nos deu as honras de podermos ouvir ‘Flor de Maracujá’, o primeiro single que conta com a voz de Camané, letra de Capicua e a utilização de samples de Amália Rodrigues. Aliás, é vasta a lista de convidados de ‘Bairro da Ponte’, assim se chama este novo trabalho, repleta de ecletismo musical. Ana Moura, Camané, Carlos do Carmo, Capicua, Dino D’ Santiago, Dj Ride, Gisela João, Holly, NBC, Nerve, Papillon, Paulo de Carvalho, Plutónio, Razat, Ricardo Gordo, Rui Reininho, Slow J, Sr. Preto e The Legendary Tigerman são a prova de como se podem juntar diferentes gerações, o tradicional e o moderno e, desta forma, dignificar o cancioneiro português através de um nova roupagem. ‘Bairro da Ponte’ é  o hip hop, o fado e a electrónica a convidar cada um destes artistas a deixar a sua marca. Vamos, então, saber em primeira mão, quais são os sentidos da música de Stereossauro? Vamos lá, é só continuar a leitura.

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

O lado racional está sempre presente, a própria decisão de fazer algo com uma carga emocional é uma decisão racional, depois é uma questão de gosto ou feeling. Talvez, o mais difícil seja decidir qual a emoção que queremos transmitir. Posteriormente, o processo de execução acaba por ser mais simples. No caso deste álbum, Bairro da Ponte, eu decidi, previamente, qual era a direcção e ideia principal e, só depois, meti mãos à obra, o que permite bastante experimentação mas com um caminho definido.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Várias, mas há um estilo que nunca falha : funk , bom funk dos anos 70 é irresistível. James Brown, etc…

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

Fado, todo o ritual do concerto de fado. O silêncio absoluto na sala para ouvir cantar, toda essa experiência tem muito de espiritual.

Neste disco, tive acesso a pistas de voz da Amália que quase ninguém ouviu. E ouvir, por exemplo, o “com que voz” só acapella faz arrepiar os pêlos dos braços, mesmo a sério.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Para mim sim, o prazer que sinto a fazer e a ouvir música é terapêutico para mim.

Talvez, como é algo que não tem uma representação visual, “obriga” o ouvinte a puxar pela imaginação, tal como ler um livro é totalmente diferente de ver um filme.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sim, gosto sempre de trabalhar ideias e conceitos na música e, muitas vezes, a ideia original pode ser uma imagem. Para o tema com o Carlos do Carmo, por exemplo, parti de uma premissa que seria uma banda sonora imaginária para um filme tipo “Tarantino” filmado na baixa de Lisboa e, todo esse imaginário, definiu o caminho da música.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Seria como o pôr-do-sol visto da minha varanda.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Quero todos os sabores, eu oiço música sem grandes limites de estilos.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Reggae music.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Sim, a música pode ser um meio incrível para transmitir ideias , “a cantiga é uma arma”,  mas também de emoções e sentimentos universais. A música certa pode transformar um momento numa experiência para toda a vida.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes
Art work de Big Fish e fotografia de Mike Ghost

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