Além da Primavera, Março trouxe-nos, também, o regresso de Tape Junk com Couch Pop, disponível em formato cassete e em todas as plataformas digitais. Cheio de amarelo, escrito com tempo e fora do ambiente urbano, o álbum foi gravado e misturado em casa por João Correia, entre 2016 e 2018. O músico acabou, também, por  registar todos os instrumentos apenas com a participação de António Vasconcelos Dias. E porque aqui assumimos que gostamos mesmo de amarelo, pedimos ao João para nos confidenciar quais são, afinal, os seus sentidos da música. No que diz respeito à dinâmica entre razão e emoção, Tape Junk acaba por nos lembrar que, no fundo, é como no dia-a-dia, “se só agires emocionalmente fazes asneiras, se só agires racionalmente és uma seca e só arranjas namoradas na Internet.” É um dilema, mas há que encontrar o equilíbrio, malta. Agora sim, vamos ao que interessa, as respostas de João Correia.

 Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Eu acho que o lado racional só entra em acção depois de teres feito algo seguindo o teu lado emocional. O ponto de partida para dizer algo com a música, no meu caso, nunca é racional. Mas isso dura pouco tempo. Depois de um arranque genuíno, o lado racional aparece para acabares e produzires as canções. Prolonga-se, depois, com as pessoas que tratam e embalam a música para a entregar aos ouvintes.  Tudo isso faz parte do processo.

É como no dia a dia, se só agires emocionalmente fazes asneiras, se só agires racionalmente és uma seca e só arranjas namoradas na Internet.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Mexo a cabeça se ouvir os Bad Brains e mexo o corpo se estiver a aspirar a casa a ouvir Pavement mas, regra geral, o meu corpo mexe mais por dentro.  Ah, também me mexo quando tenho de fugir de músicas de que não gosto.

 E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

As músicas que ouvia na adolescência e que me fizeram querer ser músico são das mais especiais e levam-me sempre para um sítio fixe.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

É muito intuitivo, sim. Toda a gente sabe música, quer saiba disso ou não. Eu sinto as coisas muito palpáveis e visíveis quando faço e toco música mas o facto de cada um a ver como quer é a melhor parte disto tudo.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sim, claro. Penso mais nesses moldes quando estou a gravar e produzir mas por vezes a própria canção já vai sendo escrita com uma imagem específica que me ocorre ou que procuro e que depois fica para sempre na memória quando toco ou ouço essa canção.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Depende das canções e dos períodos de vida  associados… Até 2015 não tinha amarelo. Agora tem montes de amarelo.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Hummm… não sei… Mas acabei de ficar com fome….

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

“Old Habits” de Minta and the Brook Trout. Por nenhuma razão que tenha a ver com a letra da canção mas porque ouvimos essa música montes de vezes a caminho do hospital antes de o meu filho nascer. Depois de ele nascer, trouxe a primeira roupa que ele vestiu para casa e dei a cheirar ao meu gato e disse lhe para se habituar ao cheiro novo.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Claro que sim e ainda bem. Guarda as memórias boas e as más.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes
Fotografia de Cláudia Manuel Silva

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