The Walks são Gonçalo Carvalheiro, no baixo; John Silva, na voz;  Miguel Martins e Nelson Matias, nas guitarras e Tiago Vaz, na bateria. Contam com um novo disco, Opacity, lançado dia 9 de novembro e, por isso mesmo, Miguel Martins deu-nos livre acesso para conhecermos os seus sentidos da música, os primeiros de 2019. Vamos lá, então!

 Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Acredito que será diferente de pessoa para pessoa. No entanto, creio que do ponto de vista de alguém ligado à música, o lado racional pode definitivamente reforçar o lado emocional. Alguém ligado à música, ao ter uma percepção do que está a ouvir, poder-se-á questionar “como é que este músico faz isto?” e essa dúvida traz com ela, definitivamente, uma emoção de associar uma secção da música a algo novo, algo inexplorado, algo “brilhante”, e, definitivamente, esse estado algo eufórico reforça a emoção de ouvir uma peça musical.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Uma pergunta difícil, pois há bastantes músicas que poderia referir. Mas, desde cedo, surgiram algumas músicas às quais consigo associar esse factor, e de diferentes géneros. Daft Punk – Around the World; Jet – Are you gonna be my girl?; Block Party – Banquet; Black Keys – Lonely Boy e, mais recentemente, Beck – Dreams, etc etc..

E aquelas que te conduzem, de imediato, a um determinado estado de espírito?

Uma música que sempre me soou a algo especial e que me marca, sempre que ouço, é a música How soon is now?, dos The Smiths. A sonoridade da guitarra do Johnny Marr e as palavras do Morrisey, que funcionam quase como um veículo de expressão para qualquer pessoa no mundo, independentemente de credo, ou cultura, transportam em si uma qualidade “larger than life” e, ao mesmo tempo, de fragilidade.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

Sim. O facto de haver uma sensação de abstração associada à música, torna-a mais intangível, mais pessoal e, por isso, também bastante difícil de explicar; o que torna uma música especial para nós e irrelevante para outra pessoa e, daí, que a torne tão especial, porque, por vezes, parece que apenas nos toca a nós e é nossa.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Acho que não, de uma forma consciente. Mas tudo o que são vivências que temos, espaços que ocupamos, contextos sociais, definitivamente ocupam um espaço, mesmo que subconscientemente, e têm um forte impacto em tudo o que compomos juntos na sala de ensaio. É difícil identificar um espaço ou imagem em particular, mas é a nossa percepção enquanto conjunto que, mesmo o facto de termos dias melhores ou piores, tiveram definitivamente impacto na criação deste último album.


Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Pessoalmente, acho que seria uma miscelânea de várias cores. O artwork do nosso novo disco é representativo disso, a forma como abordámos a criação do design com a Holly Swick (autora do design) foi exactamente algo que representasse as várias facetas da vida de uma pessoa, as decisões que tomamos, e os acontecimentos que poderão levar-nos a caminhos mais iluminados, mais brilhantes ou, pelo contrário, a caminhos mais negros. O que procurámos retratar em Opacity foi exactamente isso, o álbum tem um lado A mais brilhante, representado pela capa da frente, com um espectro de cores com tonalidades entre os verdes, amarelos e os laranjas, e um lado B, mais negro, mais espacial, representado pela capa traseira com um espectro com tonalidades entre os verdes e os azuis.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce?

Diria que seria algo agridoce. A música que me toca mais tem, normalmente, uma dicotomia associada a algo triste, negro ou nostálgico e que, simultaneamente, transporta uma cor e alegria associadas. Acho que isso, de alguma forma, também é notório na música da nossa banda e neste último álbum em particular.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

Acho que a nível de cheiros teria de me remeter para épocas festivas em casa dos meus avós, ou em casa dos meus pais: os cheiros dos doces, do pão-de-ló da minha avó ou do arroz doce. Como tal, é profundamente nostálgico e algo associado a épocas mais simples e da família reunida e, portanto, associaria, possivelmente, também uma música bastante nostálgica como Carlos Paredes – Verdes Anos.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

Acho que a música é bastante poderosa no que toca a memórias. Aliás, será, para mim, o maior fenómeno de sinestesia que conheço. Há certas músicas, ou álbuns, que consigo associar a momentos, fases da vida, etc. Recordo-me, em particular, de associações de memórias entre álbuns e livros que li e que ficaram permanentemente ligados na minha memória, mesmo que a música nem sequer tivesse relação com os ambientes relatados nas histórias que me encontrava a ler.

 

Entrevista por Ana Isabel Fernandes
Fotografia é a capa do álbum “Opacity”, da autoria de Holly Swick

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