O compositor Vinicius Castro é natural do Recife, já passou por Nova Iorque mas é no nosso país, em Lisboa, que vive actualmente. Com o desafio de transformar o lirismo e prosa de Fernando Pessoa em música, assim nasce o projecto “Estúdio Quintinha Apresenta” para o qual convidará, no seu respectivo mês, um cantor diferente para interpretar poemas/textos de Fernando Pessoa por si musicados. O primeiro convidado será Bruno Xavier. Esta não é a primeira vez que o compositor se embrenha na poesia e, principalmente, na obra de Pessoa. Em 2010, Vinicius musicou o poema “A Criança Que Ri Na Rua”  para o EP de Tatiana Machado e, em 2012, dessa vez movido pelo lirismo chileno,  musicou, no projecto  Som na Sala, o  “Soneto XXV” de Pablo Neruda. Estes são motivos mais do que suficientes para querermos saber quais são, afinal, os sentidos da música de Vinicius. É só estarem ligados nas respostas que se seguem.

Para se evocar um sentimento ou uma emoção através da música, o lado racional pode atrapalhar ou, pelo contrário, ajudar?

Sempre achei que escondia a emoção das minhas canções num manto de racionalidade. Até descobrir que o lado racional continha, invariavelmente, a emoção a ser transmitida na canção. Já não creio que haja dissociação entre o racional e emocional. Os dois lados parecem entrelaçados e se ajudam mutuamente.

Qual é ou quais são as músicas que fazem o teu corpo mexer?

Não sou e nunca fui adepto da dança. Quem me vê num show, de corpo estático, pode achar que não estou gostando da música, mas, internamente, vivencio a música de forma intensa.

E aquelas que te conduzem a um estado de espírito imediato?

 Existem vários estados de espírito, que podem ser alcançados também por diferentes elementos da música: pode ser uma melodia, um ritmo, um instrumento, um timbre, a produção... Não saberia dizer nada específico, e sim que, quanto mais me aprofundo no mundo da música, mais vejo motivos para ser movido pela mesma.

Achas que o facto da música ser invisível, não palpável, ajuda-a a ser mais intuitiva e, por conseguinte, ter uma outra relação com a nossa consciência?

A música é invisível mas é física: ondas sonoras, pressão e descompressão de ar. Você sente seu corpo vibrar com a música, até mesmo por sermos feitos de setenta e poucos por cento de água. A música vibra o ar, que vibra a água, e vibramos nós. Talvez venha daí essa conexão que parece tão intangível porém é tão real. Assim como o microfone capta a pressão do ar e a converte em eletricidade, e essa eletricidade é traduzida em pressão de ar novamente pelos alto-falantes de um aparelho de som, as emoções do compositor parecem ser transmitidas através do ar, e traduzidas pelas vibrações nos corpos dos ouvintes.

Já te aconteceu pensares numa imagem, num ambiente específico ou espaços enquanto compões?

Sempre preciso de uma imagem na cabeça para poder compor uma música. Como tenho experiência com música para séries de televisão, filmes, etc, essa imagem muitas vezes é concreta: há aquela cena e ela precisa de som. Quando se trata de canções, porém, o quadro vem em branco e é preciso pintar uma imagem que conduza a melodia, harmonia e ritmo.

Se pudesses desenhar e pintar a tua música, como seria e que cores teria?

Eu tenho mais de cem músicas lançadas, se fosse pra definir uma cor, a única possível é o branco - que é justamente a soma de todas as cores.

Como é que imaginarias o sabor da música mais especial para ti? Doce, amargo, salgado como o mar, agridoce ...

Umami.

Pensa no cheiro mais importante para ti, aquele que ficou na tua memória. Que música lhe associarias?

 A rinite não me permite responder essa pergunta, hehe.

Achas que a música pode ser um bom veículo para fixar e guardar memórias?

 A música certamente é gatilho de memórias afetivas.

Entrevista por Ana Isabel Fernandes
Fotografia de Rodrigo Rezende

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