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Outra Parte: Da diferença de idades nas relações

Na Outra Parte deste mês, Raquel Pedro fala-nos da discrepância de idades nas relações sexo-afetivas e o seu possível impacto.

Ilustração de Raquel Pedro

Depois de ler alguns bitaites no Instagram, decidi abordar o assunto do momento que precedeu a morte da rainha Isabel II: as fofocas que se têm feito em torno “do Leonardo DiCaprio não namorar mulheres com mais de 25 anos”. As notícias são rápidas a encontrar justificações, como se padrões de comportamento problemáticos fossem realmente justificáveis, ao invés de enquadrados e alvo de reflexão com, também, algum espírito crítico.

Será bom começar por dizer que a questão aqui não é um ataque pessoal ao ator Leonardo DiCaprio, se gostamos ou não dele, se é ou não um bom profissional, se o cancelamos ou se não o cancelamos. A velha questão pergunta se separamos a obra do artista, mas não é com este texto que pretendo responder-lhe. O que está em cima da mesa é sensível mas tem de ser debatido: entre que idades nos relacionamos sexo-afetivamente? Porque nos devemos preocupar e pensar sobre relações com grandes diferenças de idades? Desde já, devemos lembrar-nos como somos socialmente condicionados no sistema e sociedade em que vivemos, o que não nos permite ser totalmente livres. Isto transparece a muitas áreas da vida, e os relacionamentos sexo-afetivos ou “o campo do amor” não são exceção. Muitas vezes, formar um discurso político sobre este assunto é tido como moralista quando, na verdade, não estamos a falar contra o sexo, a sexualidade, as orientações sexuais ou relacionais. Não podemos deixar de lado todos os fatores sociais e políticos que nos influenciam, condicionam as nossas relações e a nossa liberdade, interferindo diretamente com as nossas vidas em prol de argumentos como “o amor é livre” e “eles amam-se”. Não é por ser moralista ou querer policiar os costumes que pretendo debater este assunto, mas sim porque reconheço que não posso deixar de lado os fatores na sociedade que influenciam as nossas relações, condicionam a nossa liberdade e interferem nas nossas vidas, dizendo que o amor é livre e que as pessoas se amam.

Lidamos constantemente com uma “cultura da jovialidade” que pressiona mulheres a parecerem mais novas do que aquilo que realmente são, uma cultura que nos diz como não devemos ter pêlos (mesmo quando quem não tem pêlos são as crianças), que devemos retardar o aparecimento de rugas, varizes ou peles, uma cultura com a qual nenhum homem é confrontado – muito pelo contrário, poderemos ficar perante um “daddy”. Na televisão e restantes meios culturais de representação encontramos mulheres jovens e padronizadas, que reforçam esta mesma cultura. Assim, crescemos com a ideia de que a aparência jovial é aquela que importa, um preconceito ao qual acresce a ideia de que “as meninas têm maturidade mais cedo” – como se isso não se devesse ao que lhes é ensinado e, pior, ao que delas é exigido. A preferência sexual por mulheres jovens encontra-se também no consumo de pornografia na internet, o que nos traz consequências “na vida real”. Tudo isto vem normalizando as relações com menores de idade, normalizando a pedofilia, uma palavra forte à qual associamos um momento terrível e violentíssimo, num beco escuro onde uma criança menor de 8 anos não tem escapatória quando lidamos com situações abusivas quotidianamente, quando meninas a partir dos 13 e 14 anos namoram jovens adultos com 20, relações que são normalizadas nas escolas e grupos de amigos, um tema que não é abordado em educação sexual mas está, de uma maneira ou de outra, presente na vida de todos nós. Sobre este tema recomendo o conteúdo produzido pela sobrevivente brasileira Juliana Lossio, nomeadamente pela desconstrução que faz da ideia de patologização da pedofilia por oposição ao reconhecimento da influência da “cultura da jovialidade” na procura compulsiva de relações com mulheres jovens por parte de homens mais velhos. Em Portugal, por exemplo, a lei define que aos 14 anos já é possível dar-se consentimento para uma relação, apesar das opiniões dos especialistas divergirem. Da minha parte, acredito que há uma diferença substancial quando falamos de uma relação sexual entre jovens com a mesma idade (por exemplo ambos 15 anos) ou jovens com maiores diferenças de idade, como explica João Teixeira Lopes neste artigo: “o acumular de experiências, competências e recursos pode gerar uma desigualdade de poder entre adultos e adolescentes, o que pode significar abuso e manipulação”.

No fundo, não é muito difícil reconhecer como um homem significativamente mais velho que uma mulher tem muito mais capacidade de manipulação, poder simbólico e efetivo em diversos níveis como o social e o económico que uma jovem mulher, além da enorme discrepância de experiências (geralmente). Podemos estar a falar de uma relação criminalizada enquanto pedófila entre uma menor de 16 anos e um jovem com 20 que tantas vezes é normalizada já que “mulheres são mais maduras”, desconsiderando as fases da vida de cada pessoa e os seus objetivos. Por outro lado, podemos deparar-nos com uma relação entre adultos, que pela elevada diferença de idades confere aquele que, com mais acúmulo de experiência, poderá tornar-se abusivo. Não me estou a referir a casos particulares, caindo numa generalização de todas as relações onde os envolvidos têm grandes diferenças de idade, mas sim na padronização social que vemos: homens mais velhos compulsivamente a procurar relacionamentos com mulheres muito jovens. Apercebemo-nos que, influenciada pela “cultura da jovialidade”, a comum das situações que encontramos em relações sexo-afetivas com grandes diferenças de idade é a de uma mulher mais nova e um homem mais velho – e até poderíamos estar a falar de um caso individual, onde estamos perante um casal que se pretende saudável – mas a maior parte das vezes estamos a lidar com uma situação sensível e padronizada na vida destes homens, que namoram sempre com uma mulher ou rapariga mais nova, cada vez mais nova à medida que o tempo passa e recomeça uma nova relação. É aqui que podemos analisar para mostrar como realmente a procura por poder simbólico e efetivo e o seu exercer está presente neste tipo de relações sexo-afetivas muitas das vezes provocando traumas nas mulheres e meninas que entram num relacionamento abusivo deste tipo.

Finalmente, o importante é estarmos atentos, há fatores que nos permitem concluir a maior probabilidade de um relacionamento ser ou tornar-se abusivo, mas também o abuso poderá vir de onde menos esperamos. A discrepância de idades nas relações pode ser um fator de alerta, e não podemos excluí-lo dos nossos debates ignorando a cultura machista e “da jovialidade” em que vivemos, onde lidamos diretamente com homens que, educados nesta sociedade, se relacionam de forma predatória e padronizada com mulheres mais novas, usufruindo da sua experiência e poder económico-social.

-Sobre a Raquel Pedro-

Raquel nasceu e cresceu numa aldeia, onde firmou a sua relação com a natureza e os animais. Tocou percussão numa banda filarmónica e passou por inúmeras atividades extra-curriculares. Aos 15 anos começou a estudar artes na Escola Artística António Arroio, onde se especializou em Realização Plástica do Espetáculo e aos 21 concluiu a Licenciatura em Estudos Comparatistas - Arte e Literatura Comparada, oferecida pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Atualmente desenvolve trabalhos de ilustração e aprofunda a investigação e escrita de artigos nas áreas da literatura e arte, a partir de uma perspetiva feminista e pós-colonial.

Texto de Raquel Pedro
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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