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Outra Parte: Da greve climática

Na Outra Parte deste mês, Raquel Pedro fala-nos de mobilizações sociais como luta pela defesa do clima.

Ilustração de Raquel Pedro

Nos últimos anos vimos emergir mundialmente coletivos de base, de inspiração no movimento internacional “Fridays for future” e localmente intitulados como núcleos da “greve climática” cujo objetivo é a mobilização social ambientalista. Vimos o despertar de uma consciência juvenil que reivindica um futuro onde o ambiente seja colocado primeiramente ao lucro e crescimento desenfreado qual o sistema capitalista em que vivemos mantém e nos incute. Em Portugal, podemos arriscar-nos a dizer que a par com as manifestações anti-racistas, as ações ecologistas têm sido as mais expressivas em termos da construção de movimentos sociais, sobretudo estudantis, que tanto necessitamos.

Desde grandes manifestações a outras ações de desobediência civil, a organização desembocou esta semana nas ocupações de cinco instituições de ensino em Lisboa, ao nível do secundário, com a Escola Artística António Arroio e o Liceu Camões e a nível universitário com a Faculdade de letras e a Faculdade de ciências, o Técnico e a Faculdade de ciências sociais e humanas. As reivindicações são o fim dos combustíveis fósseis, conseguido através de uma transição energética urgente dos materiais naturais não renováveis (carvão, petróleo, gás natural…) para renovável e a demissão do ministro da economia e do mar António Costa Silva. A estas cada ocupação acresce um conjunto de pautas por justiça social, entendidas como parte de uma mesma luta por vida digna onde se encaixam as perspectivas ecológicas. Por exemplo, o Camões exige o fim da obrigatoriedade dos exames nacionais e a António Arroio a alteração do artigo que define todos os trabalhos produzidos pelos alunos como propriedade exclusiva da escola

As ocupações tiveram o seu início na passada Segunda-feira, 7 de Novembro, não existindo fim previsto até as reivindicações serem atendidas. Os dilemas levantados têm sido inúmeros, começando pela estratégia de ocupação e dormida na escola em si, seja pelas reuniões e oportunidades de negociação conseguidas pelos estudantes com os diretores da escola, seja pelos inevitáveis e à data relativamente pequenos confrontos  com a polícia e seguranças, seja pelas cantinas sociais que estão a ser organizadas e distribuindo comida a todos e todas as estudantes – uma ação bastante importante, sobretudo por oposição às alternativas que existem, por exemplo dentro da Faculdade de Letras não é possível comer a preço social, já que nada é exigido às concessionárias que detêm os espaços comerciais – temos verificado também um programa de formação alternativo às aulas comuns, existindo já diversos professores e investigadores solidários a esta causa, subscrevendo-a publicamente. Vários colectivos e personalidades têm ido às ocupações prestar solidariedade, por exemplo, o "Minas não!" têm se feito presente, conversando em várias ocupas sobre os efeitos decadentes num território minerado, num momento em que Covas de Barroso, no Norte de Portugal, está ameaçado pela possível construção da maior mina de lítio a céu aberto na Europa; No técnico conversa-se sobre as possibilidades de inclusão das soluções energéticas e sociais no seu currículo académico oficial, o Liceu Camões convidou a bióloga e ilustradora Ana Rego para falar sobre arte e ativismo, entre outras iniciativas.

Espero que os ecos destas mobilizações internacionais se façam sentir, já que estamos cansados da ineficácia das medidas que têm sido tomadas face ao combate às alterações climáticas. Também acredito que as fracas mudanças se devem a uma falta gigantesca de vontade política, além da pressão económica capitalista das grandes empresas que beneficiam da exploração ambiental e com elas, os governos. Caso contrário teríamos visto os objetivos das cimeiras pelo clima serem cumpridos, algum tipo de resultados ou sanções socialmente justas (mesmo que insuficientes): sim, porque a hipocrisia de “o problema é a produção da China e o que lhe compramos” é de uma falta de análise de conjuntura grave. Afinal, ninguém estava lá para impôr coimas ou números à Europa e aos Estados Unidos no tempo da sua expansão industrial, essa que foi feita sem medidas e das quais hoje estamos a sugar as consequências: Criaram-se cidades monstruosas, onde a poluição já afeta o dia-a-dia da população, onde a falta de organismos verdes autóctones emana para o ar e os ecossistemas, onde a migração sazonal climática se começa a sentir bem perto de nós (para onde vão os habitantes de Madrid em Agosto? Neste caso, falamos do privilégio de quem pode sair de férias da cidade e de quem fica aprisionado no seu calor?). O Alentejo profundamente afetado pela seca vai deixando de ter terra fértil qual sempre lhe deu tudo, além do aumento das horas mortas, onde o calor impede os trabalhadores de saírem à rua. Tivemos um Verão rigoroso, onde os incêndios voltaram sem surpresa a devastar grandes áreas florestais e aguardamos notícias do Inverno que se adiantou neste Outono trazendo um tornado a Alcântara.

Como estudante do secundário, também aspirei em reuniões e assembleias à ocupação da escola. Na altura pela situação insustentável de obras paradas, afetada pela situação da parque escolar – não conseguimos avançar com a ideia, mas éramos inspirados pela vaga de ocupas nas escolas no Brasil, onde os secundaristas montavam algo parecido com o que vemos acontecer agora: dormida, cantina e programa. Acredito que é importante não nos esquecermos do viés combativo e autónomo que os movimentos sociais necessitam, pelos seus interesses e objetivos. A luta ambientalista deve ser também uma luta anti-capitalista, anti-patriarcal e anti-colonial, reconhecendo onde há uma pluralidade de opressões e mantendo bem lembrado quem ganha com elas e quem sai prejudicado. Afinal, é a população de classe mais baixa a mais afetada pelas consequências da exploração ambiental, arcando com os trabalhos mais pesados, perigosos e com a dificuldade em superar os desafios. Também são os países “ditos em desenvolvimento” que têm visto os seus recursos naturais mais escassos e poluídos, para a produção exigida e usufruída no Ocidente – como neocolonialismo? São os povos indígenas na América do Sul que vivem tanto a natureza que nem uma palavra para ela utilizam (ela? ela sou eu) que sofrem ao ver os seus territórios saqueados. Finalmente, também são as lutas coletivas que nos mostram como podemos enfrentar quem efetivamente está a explorar o ambiente em grande, deixando de lado o discurso individualista e que nos responsabiliza pelas compras que fazemos ou pelo lixo que produzimos e que questiona quais são as alternativas que temos?

-Sobre a Raquel Pedro-

Raquel nasceu e cresceu numa aldeia, onde firmou a sua relação com a natureza e os animais. Tocou percussão numa banda filarmónica e passou por inúmeras atividades extra-curriculares. Aos 15 anos começou a estudar artes na Escola Artística António Arroio, onde se especializou em Realização Plástica do Espetáculo e aos 21 concluiu a Licenciatura em Estudos Comparatistas - Arte e Literatura Comparada, oferecida pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Atualmente desenvolve trabalhos de ilustração e aprofunda a investigação e escrita de artigos nas áreas da literatura e arte, a partir de uma perspetiva feminista e pós-colonial.

Texto de Raquel Pedro
A opinião expressa pelos cronistas é apenas da sua própria responsabilidade.

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